As Minas de Prata/II/XX

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As Minas de Prata por José de Alencar
Onde o alferes vai buscar lã e sai tosquiado


Esse dia de domingo fora o determinado pela filha de Samuel para o cumprimento da promessa de D. José de Aguilar.

Desde o amanhecer a cozinha do Brás andava em alvoroto com os arranjos da lauta ceia encomendada pelo venerável rabino para regalo do alferes e seus convidados. O taberneiro dando suas ordens à cozinheira, lhe dissera com um riso pachorrento esperramado nas bochechas:

— Olha lá, rapariga, não te esqueça o robalo à framenga!

— Com a capela de salsa e a cebola cravejada...

— Justo!... E molho de manteiga, vinho branco e uma mancheia de farinha corada. Sobretudo que fique bem reduzido!... É o sainete do prato!

E o taberneiro riu com alarve.

Da cozinha passou ele à sala onde devia ser posta a mesa da ceia, a ver se a estavam lavando e basculhando conforme determinara. De caminho passou pela varanda a fim de espreitar o caboclinho; e como o achasse a cochilar sobre o balcão, ferrou-lhe de passagem um carolo.

— Hã, sô traste!... Assim é que tu guardas a porta, cachorro!

No meio dessa inspeção dos aprestos caseiros veio achá-lo o velho judeu da Rua da Palma.

— É vindo o moço? perguntou Samuel à puridade.

— O Beltrão?... Não tarda aí!

— Estais bem certo que ele venha?

— Se não viria, o birbante!... Pois foi avisado! Não visse ele o cunho ao vosso dinheiro, quanto mais que já o apalpou bem apalpado, o sorna!

— Heis de avaliar do meu cuidado, que não vindo ele, estava tudo perdido.

— Sempre havia de se dar volta... Mas sossegai, que a esta hora já está ele de caminho para cá!

O rabino acomodou-se a um canto da taberna meditabundo e grave. O judengo tornou à tarefa.

Com pouco entrou de carreira na taberna um labrego sujo e mal enroupado, verdadeiro tipo do bicho de cozinha. Ao vê-lo ergueu-se com vivacidade o velho Samuel e deu um passo para ele; o próprio mestre Brás, apesar de sua habitual filosofia, soltou uma exclamação de alegria:

— Olé, és tu, rapaz!... Estavas tardando!

— Pois tardava!... Inda por cima de vir de arrancada dês a praia té qui!... Uff!... Que me estão saindo os bofes!...

— Há de ser de secura; aí tens com que molhá-los, homem!

Mestre Brás encheu um pichel de vinho que o sujeito enxugou como uma esponja, estendendo novamente a taça com um gesto significativo, enquanto os olhos meio cerrados em doce beatitude e os lábios entreabertos esperavam a nova dose do generoso licor, que devia continuar tão suave êxtase.

— Depois, Beltrão, depois! Não vai a matar! Descansai por agora as goelas, que tendes que fazer com as ouças. Ali está o respeitável Samuel impaciente por te conversar a respeito de certo negócio que bem sabes!... Hem!... Já te espetam as orelhas com o tinir das brancas, calaceiro!

A impaciência do velho rabino e a importância atribuída por ele ao miserável bicho de cozinha, se explica por certas circunstâncias que é tempo de conhecer.

Cinco anos havia que estavam presos no Castelo do Mar três flamengos, resto da maruja e guarnição de um navio capturado na Ilha de Tinharé por Diogo de Campos. Um deles, Staed, homem audaz, concebera o projeto de evadir-se, cavando por baixo do cárcere uma mina, que fosse ter ao mar; depois de muitos meses de incessante labor, conseguira arrancar uma laje do pavês, e abrir um fosso subterrâneo bastante largo para passar o seu corpo, e profundo assaz para não abater com o peso da construção.

Seus dois companheiros, Hugo Antônio e Dick, eram vizinhos de cárcere; as masmorras de ambos formavam com a de Staed três partes de um quadrado; a mina partindo do canto desta, cortava em diagonal o chão daquelas, e devia portanto atravessar o alicerce da muralha de divisão. Quando trabalhava o marujo para aluir esse alicerce, os seus compatriotas ouviram o surdo rumor da escavação, e acompanhando o eco do trabalho subterrâneo, pressentiram o que era passado.

Cobraram esperança. Cada um de seu lado resolveu ir ao encontro do companheiro, e meteu logo mãos à obra. Ao cabo de muitos e longos dias, as três minas se tocavam no ponto de interseção, como três raios.

Foi uma véspera de liberdade o dia em que se abraçaram os três infelizes; e contudo o do livramento ainda estava bem longe. Depois das primeiras expansões, cada um comunicou à associação seu pecúlio de força e ideia; a obra prosseguia com vigor e celeridade.

Chegaram afinal à muralha exterior, e aluída essa, quando já viam brilhar a luz do céu aos seus olhos cansados da estreiteza de uma masmorra escura, reconheceram com dor que a base do castelo pela parte exterior era revestida de rocha viva, impossível de cortar para quem não dispunha de mais instrumentos que um prego, uma colher de ferro, um prato de estanho e uma casca de ostra.

Tiveram conselho os três presos; e reconheceram que a evasão por aquele lado demandava muitos anos de trabalho, e cinco havia já que estavam ali sepultados.

Abandonado pois esse projeto, cogitaram novo: foi esse, dirigir a mina para a galeria, ou corredor de comunicação, e uma vez aí, por força ou por ardil ganhariam os altos e fugiriam a nado. Recobraram com essa esperança o perdido alento, e outra vez meteram ombros à empresa.

A galeria que passava em frente às masmorras era lôbrega bastante apesar das seteiras praticadas à distância no muro exterior; uma extremidade porém, onde estava o cárcere de Hugo, era completamente escura: nenhuma luz ali penetrava. Para aí justamente dirigiram os presos a mina; e quando a tinham concluído, esperaram a noite alta para levantar a laje.

Logo que se acharam com a comunicação aberta para a galeria, Dick foi de voto que tentassem a evasão imediatamente, ainda mesmo com risco de vida. Opôs-se Staed com a autoridade que lhe davam os anos, o posto, e a primazia na empresa; o prudente oficial não queria perder em uma hora de precipitação o fruto de tantos anos de trabalho. Hugo encostou-se à sua opinião, que prevaleceu.

Era mister conhecer a localidade e outras circunstâncias antes de concertar a evasão. Todas as noites pois suspendia-se a laje, e um dos três saía fora e rondava a galeria, aproximando-se o mais possível da sentinela. Apareceu logo um embaraço: apenas escurecia, um labrego espojava-se ali no mais escuro do corredor, cosido com a parede, a roncar como um porco; e tinha o desazado, no meio da sua modorra, tão leve o sono, que ao menor rumor estava só a resmungar e bater com as chancas:

— Sape, gato!...

No fim de uma semana, Staed, que era decididamente a cabeça da associação, ideou modo de tirar partido do próprio obstáculo, transformando-o em instrumento de sua próxima evasão.

Tocava-lhe a vez de rondar a galeria; recomendou aos companheiros que tivessem a laje suspensa, e sumindo-se nas trevas achegou-se ao labrego adormecido. Agarrou-lhe de chofre a cabeça que abafou contra o peito, para o impedir de gritar, e arrastou-o para o cárcere.

Chegou o pobre-diabo mais morto que vivo, não tanto dos apertos e empurrões, como do terror; supunha ele que era Satanás quem o arrastava para as profundas do inferno, e juraria ter sentido um cheiro forte de enxofre. Enquanto jazia por terra, com a boca tapada e o corpo a tiritar, praticavam os três em flamengo. Staed comunicava aos outros seu plano, e encarregava a Hugo Antônio de servir-lhe de intérprete.

Era esse Hugo Antônio judeu de origem alemã, porém nascido em Portugal. Filho de um mercador principal de Lisboa, fora obrigado a fugir com sua família à perseguição do Santo Ofício, abandonando seu avultado patrimônio. Refugiados na Holanda, o rapaz sequioso de vingança sentara praça na guerra, e foi um dos mais cruéis inimigos dos portugueses.

— Não resistas, nem grites, se não queres morrer!

O labrego, passado o primeiro susto, não pôde deixar de fazer lá com seu bestunto esta reflexão filológica:

— Ui! o diabo fala língua de gente!...

— Como te chamas?

— Beltrão, Senhor Satanás, servo de Vossa Senhoria.

— Que fazes tu aqui?

— Sei-lo eu?... Se Vossa Senhoria foi quem me trouxe, e sem dizer para quê!

— Pergunto-te em que te ocupas no castelo?

— Ai!... No castelo... sim... eu era, como quem diz, ajudante de cozinha.

— Vais tu alguma vez à cidade?

— Todos os dias com o mestre da cozinha para as compras!

Houve entre os três um sussurro de satisfação.

— Conheces tu um mercador judeu de nome Samuel, que mora na Rua da Palma?

— Senhor, não. Nunca lo vi!...

— Pois irás por ele amanhã quando chegares à terra.

— Irei! Oh! se irei!...

— E lhe dirás... Ouve bem e guarda... Lhe dirás à parte que os três flamengos presos no Castelo de Santo Alberto pedem sua assistência e a de seus irmãos israelitas.

O labrego começava a compreender que o negócio não era com Satanás; e isso lhe restituía a coragem. Já ele estava pensando no modo por que se havia de safar dessa entaladela.

— Cumprido o que te é ordenado, terás as mãos cheias de brancas e louras; senão, coitado de ti.

— Juro, senhor, por todos os santos, que farei!

— Melhor para nós e para ti. Se o não fizeres e fores dar com a língua nos dentes, todos nós, que somos três, havemos de declarar ao condestável que nos vieste propor um meio de fugirmos; e para prova aqui ficamos com a tua carapuça, a qual será o sinal de teres estado conosco.

Beltrão foi outra vez arrastado pelo buraco até a galeria, onde o deixaram mais morto que vivo, estendido sobre as lajes. No dia seguinte, chegando à feira, achou um pretexto para separar-se do mestre cozinheiro, e correr à Rua da Palma, onde com facilidade encontrou a casa de Samuel.

Desde então puseram-se os presos em comunicação com os rabinos da Bahia, por intermédio de Beltrão. Samuel em nome de seus confrades prometera aos flamengos todo o auxílio possível; e essa promessa era tanto mais sincera, quanto os judeus da cidade do Salvador não eram nessa empresa estimulados unicamente pela fraternidade religiosa, mas por graves interesses próprios.

Só esperava pois a conspiração a oportunidade favorável, quando Staed enfermou perigosamente de um mal que o levou havia três dias; assim não pôde ele ver o resultado de seus esforços, e gozar das auras da liberdade por que tanto ansiava. Este triste sucesso afervorou o zelo de Samuel; pensou que a morte podia arrebatar-lhe os outros dois flamengos em quem depositava as maiores esperanças.

Foi pois concebido o plano que já estava em execução; mas era necessário que os presos fossem advertidos em tempo, e esse era o motivo da impaciência de Samuel enquanto não chegava o bicho de cozinha. Brás tinha-se encarregado de mandá-lo avisar de véspera para que no domingo cedo estivesse na taberna.

Beltrão às palavras do taberneiro voltou-se, e viu sentado à mesa o respeitável ancião, que lhe fez sinal de aproximar-se. Obedeceu o moço, saltando na pontinha dos pés; e por muito tempo agachado aos pés do rabino escutou o que lhe ele dizia com a atitude de um vaso que se coloca embaixo da bica a fim de aparar os pingos do azeite. Afinal ergueram-se ambos; o bicho partiu a correr para as bandas da ribeira, e o rabino seguiu em direção a casa.

O taberneiro por seu lado também se pôs ao andar da rua, a desempenhar certa incumbência relativa à ceia: era essa de convidar a parte feminina do bródio, no que era ele mais que ninguém esperto e ladino, apesar da disposição mui terminante da ord. do liv. 5.°, letra morta como tantas outras leis passadas, presentes e futuras que se intrometam a moralizar costumes por meio de castigos.

Depois de correr a coxia, por becos e ruelas, chegou afinal o judengo a uma baiuca lá para as bandas da vila velha, conhecida do vulgacho por Casa da Bruxa. Entrando, achou dormitando a um canto escuro, de companhia com um gato preto e uma galinha, a decrépita feiticeira, que mal se podia arrastar sobre a enxerga.

— Onde está Zana? perguntou o Brás.

A velha abriu uma nesga das pálpebras, e recaiu na modorra; mas o gato miou, a galinha cacarejou, e a este sinal apareceu a mulher que já vimos no dia de Ano-Bom, a mesma a quem buscava o taberneiro.

— A ceia é para esta noite! disse ele.

— Já sabia antes que viesses.

— Sim, pois que és bruxa!... O teu homem é o ajudante, o Bezerra, não esqueças. Conheces-lo tu?

— Nada me é oculto, querendo eu, bem o sabes!...

— Guarda lá para ti as tuas artes de berliques e berloques que ninguém agora carece delas; do que se carece é da tua casquilharia, rapariga, que nisso de embeiçar um homem e pô-lo mesmo a babar, és mestra aprovada. Isso sei-o eu!...

As palavras do taberneiro pareciam uma zombaria amarga a quem contemplasse a figura hedionda e o rosto repulsivo da feiticeira; ela própria ouvindo o elogio de sua torpeza cobriu-se de um sorriso lutuoso:

— Fizeram-me assim!

— Então logo ao escurecer lá te espero.

— Lá serei!

— O que tens a fazer pouco é. Carece-se cá para certa brincadeira das roupas do ajudante, e que o homem não se lembre delas antes de meia-noite. Entre mulher e botelha isto é nada! Que dizes?

— Tudo será à medida dos teus desejos.

Entretanto o herói da festa para quem a grande ceia se aprestava, D. José de Aguilar, passara o dia na tão natural impaciência de quem esperava o bocado régio no banquete do amor, para ele preparado pelo velho Samuel. Da perfídia de que pretendia servir-se, nem mais cuidou; sua consciência, já não a toldava a falsa jura que dera, que o arrependimento prévio lavava-lhe a mácula de tão leve pecado; tinha a mente cheia unicamente das lucubrações eróticas e das delícias voluptuosas de que fruía a antegosto.

Seriam cerca de quatro horas, no pino da sesta, quando o oficial descendo à ribeira, afretou ali um barco para o conduzir ao Castelo de Santo Alberto. O Tenente Bezerra que o não esperava, foi alegremente surpreendido, e mais ainda quando soube o fim da visita. Não deixou ele de fazer o mesmo reparo que todos os outros convidados sobre o imprevisto e descostumado da ceia. O alferes era pouco dado a essa casta de prodigalidade; seu dinheiro todo era pouco para o imenso sorvedouro do jogo. Mas afinal de contas um dia não são dias; e nada mais natural do que um fidalgo rico divertir-se em companhia de seus amigos.

— Pois lá me tereis em sendo noite, D. José! respondeu o ajudante ao convite.

— Iremos juntos, visto que o batel em que vim já o despachei, retorquiu sorrindo o alferes, e estou não me quereis pôr a nado para a terra.

— Bofé que não; sobretudo hoje que tanto careceis de forças e calor!

— Descansai, maganão, que muito vos deixarei ainda para fazer!...

— Em que vamos nós passar este resto de tarde? perguntou o ajudante. Praz-vos uma partida de tábulas?

— O jogo sempre me praz, ou de tábulas, ou de cartas, ou de dados; é a minha paixão! Não conheço outra!

— Andai lá! E a vossa judia da Rua da Palma?

— Passatempo, e nada mais!

Os dois amigos recolheram ao camarim do ajudante e começaram a partida de damas. Já a tarde ia-se anuviando, e os primeiros relâmpagos lambiam longe a face túmida e bronzeada das nuvens acasteladas no horizonte. O sol rubro e incandescente afogueava o céu e os mares das bandas do poente. Com pouco o vento levantou, e foi alastrando pelo azul do firmamento o manto da tempestade; toldaram-se os ares; o trovão rugiu no bojo da borrasca, e o eco respondeu na profundeza dos mares.

— Excelente noite que vamos ter!... exclamou Bezerra tirando os olhos do tabuleiro para levá-los ao horizonte.

— É verdade!... Nem feita de encomenda a teríamos melhor! respondeu o alferes.

— Poucas coisas me prazem tanto neste mundo como uma festa no meio de uma tormenta. É quando o homem se mostra verdadeiro homem. Se eu fora rei ou príncipe, nunca dera outras.

No jogo assim adubado pela amistosa palestra foi decorrendo o tempo até escurecer; a corneta da guarnição tocou Ave-Marias; rendeu-se o quarto das sentinelas, e terminada a lida diurna entrou a faina da noite. O sargento de dia apresentou-se à porta do camarim, como costumava, para receber o santo que devia servir durante a noite.

— Vindes pelo santo, sargento?

— Às ordens, sr. ajudante.

— Vá em honra de vossa visita, D. José! disse o tenente. Achegai-vos sargento.

O inferior avançou dois passos medidos e cadenciados, e introduziu a cabeça entre os rostos dos dois jogadores para receber no ouvido a senha esperada. O tenente soprou-lha ao ouvido, mas de modo que o amigo pudesse ouvir distintamente a frase:

— São José nos guarde!...

Meia hora passada, o escaler do castelo largava para a ribeira tirado a seis remos de voga e levando a seu bordo os dois amigos; a tempestade corria já sobre a cidade, e a travessia foi difícil e trabalhosa; mas afinal venceram os vagalhões e abicaram à praia. D. José e seu convidado encaminharam-se dali à taberna do Brás, onde acharam reunidos e esperando os mais companheiros do bródio. Enquanto não chegava a hora da ceia marcada para o toque de recolher, deviam encher o tempo no jogo.

Ao entrarem todos para a casa da tavolagem, chamou mestre Brás ao alferes de parte, e apresentoulhe uma bolsa ricamente bordada a fio de ouro, cravejada de pérolas, e além de tudo tão recheada de dobrões e pistolas, que as malhas de repuxadas quase deixavam escapar as moedas.

— Tive incumbência de entregar-vos em mão da parte que sabeis, e bem assim de enchê-la todas as vezes que se esvaziar esta noite!...

D. José ficou atalhado, já da generosidade do judeu usurário, já de ver o Brás até certo ponto na confidência do pacto secreto feito por intermédio de Raquel; mas como ele tinha a alma bastante elástica para conter mais esse pecadilho de jogar à custa do usurário, a quem ia enganar, levou as coisas de risota e chalaça.

— Já vejo que é a bolsa encantada que me enviam!...

— Acertastes; pois foram dedos de fada que a bordaram!

— E o gadanho de Satanás que a encheu!... concluiu o alferes rindo à vontade, e seguindo a reunir-se aos amigos.

D. José jogava como príncipe, e perdia como o Grão-Turco. Três vezes a bolsa encantada foi virada ao avesso cuspindo a última moeda, e outras tantas apareceu, como por milagre e de relance, novamente recheada de ouro. O alferes nadava em prazer; um desgosto porém teve ele, e foi de não poder ir até a décima ou vigésima bolsa, pois apenas estava a quarta em meio, parou o jogo e deu-se princípio à ceia.

Só nesse momento notou o irmão de Inesita a falta de D. Fernando de Ataíde entre os convivas; a alguém que lhe pediu novas dele e o motivo por que ali não estava, respondeu galhardamente:

— Penitência de noivo!... Deixá-lo!...

Invadiram os convivas a sala da ceia, onde acharam ordenado pelo gênio inventivo de mestre Brás um coro de lindas dançarinas, que depois de graciosos volteios vieram cada uma cingir com a cadeia dos braços torneados o colo do escolhido cavalheiro, e levá-lo assim, como Vênus levou Anquises, ao lugar do festim que lhe estava destinado.

Tangiam na Sé o sino de recolher.

O taberneiro, que tinha recebido de Samuel os competentes avisos, apressou por tal forma o bródio, e fez jorrar com tanta profusão o vinho do Reino e das Canárias, bem como os licores finos de Jamaica e Madagáscar, que não eram ainda as dez, e já todos os convivas de ambos os sexos flutuavam nos intermundos vaporosos dos sonhos báquicos, sazonados pelos êxtases amorosos. O próprio D. José não obstante a tenção em que viera, se deixara arrastar pelo exemplo sempre contagioso; e se o abandonassem ao seu moto próprio, é quase certo que ali se deixara ficar engolfado nas delícias presentes libadas no copo que empunhava e nos lábios que lhe sorriam. Se a lembrança de Raquel despontasse alguma vez na sua memória, o torpor que o invadia, sem dúvida apagaria a mimosa recordação.

Mas mestre Brás velava; e mais do que ele o velho Samuel, embuçado em amplo e negro manto, e oculto desde muito no vão de uma porta fronteira à taberna. A um aceno seu o taberneiro que pela rótula da janela não o perdia de vista, curvou-se e atirou uma palavra ao ouvido do alferes:

— São horas!...

— Hemm!... bocejou o fidalgo. Quais horas?...

— Raquel!...

— Ah!... sim!... Raquel!...

O taberneiro, sabido e perito na arte da bebedice compreendeu que o fidalgo chegara ao estado do copo d’água que uma só gota faz trasbordar; mais uma taça e caía em completa embriaguez. Era preciso fazê-lo erguer imediatamente da mesa, senão ficaria todo o trabalho perdido. Juntando a ação à palavra, o judengo agarrou o fidalgo pelo braço, como se o ajudasse a levantar, mas realmente forçando-o a isso.

— Aí estão à vossa procura para coisa urgente!... Se não me engano, gente de vossa casa!

Tomado de surpresa pela brusca ação, o alferes só deu acordo de si quando o vento frio do temporal refrescou-lhe a fronte, apagando os vapores alcoólicos. Recordou então o ajuste feito; reconheceu no vulto embuçado o velho Samuel, e apresentou-se logo ao espírito a imagem de Raquel; então todo o lêvedo sensual que o vinho e os beijos da cortesã haviam levantado no cérebro e derramado nas veias, voltou-se para a esplêndida beleza da judia. D. José seguiu silenciosamente a par de Samuel para a Rua da Palma; as lufadas da borrasca e o exercício restituíram a lucidez ao espírito do oficial, sem arrefecer contudo o fogo intenso do álcool, apenas concentrado, que lastrava surdamente.

O alferes repassou na mente o seu plano simples; trazia na memória duas senhas; a verdadeira que ouvira do ajudante, e a falsa por ele inventada na travessia do castelo para a ribeira; nos bolsos trazia igualmente dois papéis, no do calção o original da nota do sargento-mor, e no do gibão uma paráfrase por ele adrede escrita e decorada com o título de cópia.

Por que motivo tinha o alferes no peito do gibão o importante documento de que o velho Samuel desejava uma cópia para seus fins secretos? Não era uma imprudência arriscá-lo consigo em ocasião tão melindrosa, quando ia em própria pessoa entregar-se nas mãos de inimigos?

O alferes não primava pela prudência e tino. Valente e fanfarrão, como era, tinha para si que não havia mais segura guarda de um tesouro do que fosse o seu peito defendido pela terrível espada; de resto professava pela raça judaica tão profundo desprezo, que nem por sonho admitira a possibilidade de erguer um desses réprobos a mão ousada sobre um fidalgo do seu sangue, e um oficial de El-Rei. De feito um caso desses importaria a expulsão dos judeus não só das colônias, mas talvez dos reinos unidos de Espanha e Portugal.

Ora, pela manhã quando lia o memorial de Diogo de Campos para ajeitar a falsa cópia acudiu-lhe uma ideia. Samuel que tanto insistia por esse documento tinha vistas largas; com a tenacidade e persistência peculiar à sua raça era natural que empregasse para obter o papel, todos os meios ao seu alcance, recorrendo talvez a mais de uma pessoa. Decerto seria esse o meio que tinha para verificar a fidelidade no cumprimento dessa parte da promessa.

— Nada, por segurança ponho-lhe o sequestro! disse consigo D. José.

E escondeu no peito do gibão o memorial, que ainda ali estava; desse modo acautelava duas coisas: a traição de outrem menos honrado que ele, e a prova que porventura pudesse ter o judeu de seu embuste com alguma cópia verdadeira do documento. Dessa forma, o venerável Samuel não tinha remédio senão acreditar na sua palavra, e deixar-se embaçar como um palerma para felicidade de sua filha Raquel e prazer de um honesto fidalgo.

Chegaram à casa da Rua da Palma, e subiram ao sobrado. Samuel, tomando o moço pelo braço, guiou-o pelos largos e escuros corredores; ouviam-se ressoar docemente uns ternos arpejos de gusla, que afinavam para a doce melodia. Parando em face de uma porta, oculta por espesso e custoso reposte, mostrou o judeu aos olhos deslumbrados do mancebo e através dos lavores da madeira, um painel arrebatador.

A gentil e formosa judia descansava à moda das orientais sobre o coxim de damasco. O gracioso movimento do braço arqueando para dedilhar a gusla, acusava o rijo e palpitante contorno do seio esquerdo, prestes a escapar do decote, como um pombo da mão que o tem cativo. A ponta do pé, calçada em sandália de cetim, batia o compasso na banquinha de nácar ali posta, com a alâmpada de prata e a clepsidra dourada. Todo o mimoso talhe ondulava voluptuosamente com o fluxo e o refluxo do inquieto sentimento. Conhecia-se no sorriso vivace de seu lábio e no fogo surdo da pupila negra, que ela esperava com veemência um prazer já muito ansiado, um prazer soberano, digno de deusas.

A voz do judeu murmurou:

— Ela vos aguarda!...

D. José sentira a vista escurecer-se com os deslumbramentos daquele quadro. O sangue ardente e impetuoso que o vento arrefecera, precipitou-o para aquele aposento resguardado pela porta de arabescos. Samuel o conteve, travando-lhe do braço:

— Um instante, senhor meu. Permiti a vosso servo lembrar-vos que ainda não cumpristes vosso juramento!...

— Cumpri-lo-ei já neste instante!

— Aqui não; em lugar mais seguro. O prazer esperado, dizem que é como vinho guardado, replicou o judeu com um riso de Judas.

— Não faço cabedal de anexins, respeitável Samuel. São dez horas; mão para lá, mão para cá, vós o dissestes.

Proferindo estas palavras, D. José tirou da cinta a chave de ouro que lhe dera Raquel, e tateou para acertar com a fechadura.

— Ainda não são dez, retorquiu o judeu apontando para a clepsidra; e por isso ainda a fechadura não recebe a chave que vos deram.

De feito o relógio d’água, atrasado pelo judeu, marcava de menos um quarto; e a fechadura estava coberta por uma mola interiormente movida.

— Segui então, e aviemos, enquanto não me arrependo.

Samuel levou o moço a seu gabinete; e entrou para dentro da grade que à semelhança de uma gaiola de arame fechava o balcão. Inclinando-se diante do fidalgo, cruzou os braços ao peito, enquanto com o pé ia sorrateiramente cerrando o postigo da grade:

— Meu senhor pode agora, que estamos em lugar seguro, falar a seu servo; pois ele renova aqui seu juramento de entregar-lhe essa mesma noite sua filha Raquel, única alegria de sua velhice, em troca do que lhe prometeu meu senhor.

— É depressa feito! disse o alferes resolutamente. O papel aqui o tendes; o santo ei-lo: São Brás te valha!

O alferes, isto dizendo, sacou a mentira escrita do bolso do gibão, como lançara da boca a mentira falada; depois encaminhou-se para a porta. Samuel que tivera tempo de lançar os olhos ao papel, atalhou-lhe a saída:

— Perdoe meu senhor a ousadia de seu servo; mas nem este papel é a cópia do memorial, nem foi o santo dado esta tarde o mesmo referido.

D. José ficou estúpido, e titubeou um instante; mas logo recuperando a sua arrogância, exclamou:

— Atreves-te, miserável judeu, a duvidar da minha palavra?...

— Somos nós tão vil ralé aos olhos dos cristãos, que não podem eles ter escrúpulo de embair-nos e faltar ao prometido. Pode acaso um cão se queixar porque lhe chama o senhor com afagos para de perto e melhor castigá-lo?... Não estranhe pois meu senhor, se seu servo se precaveu contra o engano.

D. José estava sobre brasas, desesperado de se ver escarnecido pelo judeu. Teve gana de desancar o mísero velho a panos de bainha de espada, e tomar Raquel de assalto, já que a não pudera tomar por manha.

— Meu senhor está irado contra seu servo, e sem razão, pois foi ele quem faltou à jura e pecou contra seu Deus; e para que meu senhor não ceda à tentação de maior pecado ofendendo o inocente, vou pôr entre nós ambos uma barreira forte.

De um movimento Samuel bateu o postigo da grade de ferro, que o separava do alferes. Este tomou depressa sua resolução; era partida completamente perdida; nada mais restava senão baralhar as cartas e recomeçar nova:

— Pois nesse caso, venerável rabino, já que sois tão precatado e não depositais fé no que diz um cavalheiro, ficai-vos na vossa espelunca e vou-me na santa paz.

— Não pode ser assim, meu senhor; já é tarde demais para arrepender-vos do pacto que jurastes.

— Tarde, por quê?...

— Porque não só seu servo, mas outros irmãos seus e o taberneiro mestre Brás sabem o que meu senhor prometeu fazer em nosso favor.

— Por que lhes dissestes, infame Judas?

— Sem dúvida: vosso servo sabe que são precisos pelo menos os juramentos contestes de cinco infiéis para criar uma suspeita mínima contra um fidalgo!

— Enganastes-vos, miserável; a minha palavra só basta para aniquilar quantos mil juramentos fizesse a tua raça inteira, presente, passada e futura!...

— Diz bem, meu senhor, e seu servo o não contraria. Mas se além do juramento do judeu aparecesse a assinatura do fidalgo?

— A minha assinatura?

— Leia, meu senhor.

O judeu tomou a bugia, e alumiou de perto uma estante de cavalete onde estava estendida uma folha de papel; o alferes leu espavorido estas palavras escritas sobre a sua assinatura:


Havendo eu, D. José de Aguilar, alferes de a cavalos do regimento desta Capitania da Bahia, feito um ajuste com Samuel Levi, mercador judeu, de lhe entregar domingo que se contarão 18 de janeiro, uma cópia fiel do memorial apresentado ao senhor governador pelo Sargento-Mor Diogo de Campos, sobre as fortificações da cidade do Salvador, e bem assim de revelar ao mesmo mercador o santo que for dado para a noite daquele mencionado dia, no Castelo do Mar, para cujo efeito o dito mercador ordenará em a taberna de mestre Brás uma ceia à qual convidarei o Tenente Bezerra, ajudante do condestável do forte; e tudo isto mediante a cessão que me faz o referido Samuel Levi de sua filha Raquel, para dela usar e dispor como coisa a mim pertencente; por assim termos acordado, passamos este que assinamos ambos sem testemunhas por o caso não comportar, mas firmamos com o nosso juramento; e quando por qualquer acidente não cumpra eu com aquilo a que me obrigo;

Eu, D. José de Aguilar, declaro que contarei à vista deste a Samuel Levi, mercador judeu, a soma de cinquenta

moedas, de que me confesso seu devedor. Na Bahia, aos 17 de janeiro de 1609.

D. José de Aguilar.
Samuel Levi.


— Este escrito é falso! bradou o fidalgo abalando a grade. Por ele te levarei à forca.

— Não reconhece meu senhor sua firma, que ele mesmo pôs nesse papel em a noite de sábado?...

— Neste não, digo-te eu; o que assinei foi um vale.

— Ninguém tem culpa de que meu senhor não desdobrasse o escrito para lê-lo de princípio! disse o judeu dobrando o papel ao meio e apresentando-o tal como na noite da assinatura.

— Ah! cão!... vociferou o oficial. Tu me pagarás...

Continuou o moço a vociferar, cuspindo injúrias ao judeu; esse impassível esperava que passasse a tormenta. Realmente foi ela amainando pouco a pouco, e de todo esvaneceu-se com os ecos de uma voz maviosa que descantava ao som da gusla. O alferes esqueceu a sua situação para escutar enlevado.

— É sua voz que chama, meu senhor!... São dez horas!...

Uma alucinação passou pelo cérebro do alferes; ele tornou a ver o painel que desvendara o reposteiro aos seus olhos pasmos; o sangue bramiu: pareceu-lhe ouvir o gargalhar de uma voz satânica que lhe vazava n'alma esta palavra:

— Leve a breca a honra!...

Atirou ao judeu através da grade o memorial e o santo; o velho precipitou-se sobre o papel, que desta vez era mais do que ousara esperar, pois era o próprio original de Diogo de Campos. Da verdade do papel inferiu a verdade da senha; pois seria uma necedade do fidalgo deixar incompleta a sua traição, especialmente quando existia uma assinatura sua que o podia perder.

— Cumpri o meu juramento; cumpre o teu, miserável judeu!...

— Meu senhor tem a chave de ouro que guarda o cofre da mais fina joia; sua escrava só espera o aceno de seu senhor.