As Minas de Prata/II/XIX

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As Minas de Prata por José de Alencar
Uma pena por um punhal


Eram duas horas da tarde.

A esse tempo Estácio sentado no úmido chão do cárcere, seguia com o olhar ansiado a réstia de luz que penetrava pela seteira e ia a pouco e pouco desmaiando. O ouvido alerta procurava discriminar no surdo rumor que penetrava naquele antro, algum som amigo.

Desde o momento em que o lançaram na masmorra, o espírito do cavalheiro trabalhava incessante; a inércia física parecia centuplicar a velocidade do pensamento. Com a sua vontade isolada rompia aqueles muros de rocha, ou zombaria da vigilância contínua de seus guardas?... Era o problema insolúvel que provocava a sua poderosa imaginação.

Ouvindo poucas horas depois de achar-se no cárcere a voz de Gil a cantar, o cavalheiro ergueu-se de sobressalto. Percebendo pelo som que o canto vinha de perto, e ia circulando o castelo, imediatamente compreendera o movimento do pajem quando deitara a correr pela praia; conjeturou que o menino fora buscar a canoa para se aproximar dele e talvez pôr-se em comunicação, caso fosse possível. Seu primeiro impulso pois foi lançar-se para a seteira; entre essa e o chão estavam dispostas na muralha como degraus um buraco e um prego, que o cavalheiro suspeitou ser indústria de seu antecessor; graças a esse auxílio pôde galgar a seteira; mas teve uma decepção; porque não conseguiu ver senão uma nesga do céu: a fresta era talhada em diagonal de fora para dentro.

Contudo pôde Estácio ouvir melhor; e conhecendo que a voz de Gil se aproximava do cárcere, atirou-lhe com os torrões de caliça que a sua mão no subir arrancara da alvenaria; depois arriscou o assobio, que não escapou ao esperto pajem. Este incidente fortificou a coragem do cavalheiro; porque lhe mostrou a possibilidade de uma comunicação com seus amigos.

Quebrado de fadiga pelas emoções desse dia, e acalmada a excitação do espírito pelo bafejo da esperança, o moço recostou-se de encontro à parede do cárcere, e entregou-se ao sono que o ganhava. Dormiu algumas horas; quando despertou era noite fechada; o cárcere estava sepultado em profunda escuridão. Evocando as suas recordações para saber onde se achava, foi distraído por um sussurro estranho que parecia vir de dentro do muro. Aplicando o ouvido, reconheceu o som de vozes humanas, e distinguiu mesmo as articulações das palavras apesar de abafadas pela espessura da parede; mas não pôde compreender coisa alguma porque falavam em língua estranha.

— São meus vizinhos encarcerados, pensou ele.

A mão maquinalmente estendida topou com um objeto frio e liso ao tato, e às apalpadelas descobriu outro áspero e leve. Era um canjirão d’água com uma broa por tampo. Naturalmente o carcereiro viera enquanto ele dormia e lhe deixara a ração diária. Estácio não tomara alimento algum naquele dia; devorou pois com avidez a broa e bebeu meio canjirão d’água. Feito o que recostou-se de novo na muralha para reatar o sono interrompido.

O murmúrio de vozes que já escutara chegou-lhe de novo ao ouvido. Dessa vez Estácio, já livre do torpor do sono, notou que o som vinha de baixo, e não do lado, como lhe parecera em princípio.

— Talvez haja outro cárcere por baixo deste!

Mas não acabara essa reflexão, quando a razão lhe mostrava a inverossimilhança dela. De feito; além de não ser provável que existissem cárceres abaixo do nível do mar em uma fortaleza construída sobre rocha viva, acrescia que a espessura da abóbada não permitiria ouvir a voz de quem falasse nessa masmorra subterrânea. Ocupou-se por algum tempo o mancebo a cogitar sobre a singularidade acústica do cárcere; porém logo deu trégua a esse assunto para ocupar-se do outro mais importante da sua evasão.

Ele estava mais do que nunca decidido a readquirir a sua liberdade para disputar Inesita a D. Fernando, e o roteiro ao P. Gusmão de Molina. Acudiu-lhe então o velho meio tão usado desde que se inventaram as prisões: atirar-se ao carcereiro quando viesse à sua visita habitual, e subjugá-lo amordaçando-o; trocadas com ele as vestes, passar assim disfarçado entre as sentinelas, ganhar as ameias e fugir a nado.

Esse projeto arriscado tinha contra uma circunstância que o moço ignorava: nas extremidades do corredor circular que cingia os cárceres, havia duas sentinelas constantemente dia e noite; e tal era o rigor da disciplina e cautela, que o próprio carcereiro não podia passar por elas uma só vez sem trocar o santo. Aí portanto, de encontro à alabarda das sentinelas, devia esbarrar-se o insensato arrojo do mancebo; mas ele, ignaro e descuidoso do risco de sua empresa para só embalar-se na esperança do sucesso, continuava a cogitar nos meios de levá-la ao cabo.

— O carcereiro, segundo presumo, visita os cárceres duas vezes por dia; a primeira por manhã, a segunda pouco antes de escurecer... Quando o sono me tomou, já era sol baixo; e não é natural que venha noite fechada!... É justamente a hora que convém; já não se vê; e não é ainda noite alta, em que de ordinário se dobra a vigilância! Mas sem uma arma nada posso fazer!...

O mancebo fez uma pausa na sua meditação, e repassou de novo o projeto:

— Como poderei eu ter um punhal?...

Na solução desse problema, trabalhou a noite inteira o espírito do mancebo; até que afinal a fadiga o venceu de novo e sopitou. Foi acordado pelo carcereiro, que passava a sua primeira inspeção. Estácio abriu os olhos e esteve-o medindo com eles. Era homem forte e robusto, que acusava um vigor formidável. O moço depois de estudá-lo com atenção e calma suspirou dizendo consigo:

— Não tenho remédio senão matá-lo! Um homem destes não é para minhas forças subjugá-lo.

Tendo assim na mente condenado à morte o pobre carcereiro, voltou-se para não vê-lo mais; nem respondeu palavra às consolações triviais que lhe dirigiu ele. A essa alma jovem, ainda não poluída pelas paixões e vícios, parecia uma deslealdade e perfídia o menor trato com o indivíduo, que ele decidira imolar como holocausto, necessário à sua liberdade. O carcereiro tomando o silêncio obstinado do preso pelo amuo e desespero mudo dos primeiros dias, não insistiu, nem se zangou: renovou a ração d’água e de comida, juntando dessa vez à broa um caldo de ervas.

— Aí fica a vossa ração. Às trindades quando voltar, espero achar-vos mais resignado com a sorte. No fim de contas o diabo não é tão feio como se pinta!...

Estácio, embora voltado, não perdeu um dos movimentos do carcereiro; observou sobretudo qual das chaves da correia era a do cárcere, a fim de não excitar desconfiança experimentando outras. Apenas a porta foi de novo fechada, correu a ela e aplicando o ouvido à fresta da soleira ouviu as passadas do carcereiro que se afastavam para a direita; e logo depois o ranger da chave na fechadura de um cárcere vizinho. Alguns instantes decorridos, voltaram os passos pesados, repassaram junto à porta, e afastando para a esquerda, foram subindo até de todo se apagarem.

— Pela esquerda!... É o que eu pensava!...

Então o moço concentrando as ideias que refletira durante a noite, sacou do corpo o gibão, para arrancar fora a manga da camisa da qual rasgou uma tira estreita, que deitou na seteira; lá a deixou com o auxílio do prego à guisa de bandeirola. Gil sabia que ele ali estava, e naturalmente seu primeiro cuidado seria olhar naquela direção; vendo a bandeirola, compreenderia que seu amo o chamava.

Estácio fiava demais da perspicácia do menino; mas felizmente Vaz Caminha chegara a propósito para compreender por ele.

Dado o sinal ao pajem, faltava ainda o essencial: o recado para seus amigos. Mas também a esse ponto já tinha a imaginação arguta provido, como ao outro, por um meio engenhoso e simbólico. Cortando da manga da camisa uma segunda tira larga, Estácio conseguiu servindo-se ora dos dentes, ora das unhas ou do prego, cortar no pano o esboço tosco e imperfeito da figura de um punhal. Terminada a sua obra e estendendo-a na laje para melhor a examinar, murmurou sorrindo:

— Parece mais cruz do que adaga!... Mas eles bem podem ver logo de qual tenho eu necessidade nesta masmorra!...

Então com a ponta do prego enferrujado procurou aperfeiçoar o traço das formas que não pudera o corte bem delinear. Nisso ocorreu-lhe que o pano embebendo rapidamente a água do mar, corria risco de afundar antes que Gil o pudesse apanhar onde o vento o levasse; não sucederia assim estando o pano impregnado de matéria oleosa, essa associação de ideias lembrou-lhe o caldo, que tendo já esfriado, coalhara na tona o gordo unto. Como foi o hieróglifo de pano atirado à mercê das ondas e chegara às mãos de Vaz Caminha, já é sabido.

Entretanto ficara o moço em cruel impaciência, esperando o resultado de seu engenhoso expediente. Teria Cristóvão ou Vaz Caminha compreendido o que ele pedia? Conseguiriam passar-lhe pela seteira, ou enviar-lhe por outro qualquer modo, a arma de que ele necessitava para empreender a obra de sua liberdade?

A princípio tudo lhe parecera fácil; mas à medida que decorria o tempo, seu pensamento aprofundava as dificuldades, que em começo se lhe antolhavam mínimas, e agora apareciam como insuperáveis; a esperança fugia, fugia, a perder-se no horizonte imenso de suas elucubrações; mas daí tornava e vinha de novo adejar-lhe n'alma. Às vezes deitava-se a conjeturar os meios que seus amigos empregariam para satisfazer o desejo; e nenhum lhe ocorria.

— Eles proverão!... disse afinal. Têm mais calma de espírito e meios de ação do que eu sepultado vivo nesta tumba.

Correram as horas; o sol transmontou e foi descambando; pouco restava do dia, e esse torvo e anuviado. A tarde estava calmosa; as baforadas de ar pesado e tépido que entravam pela seteira anunciavam borrasca. De feito ao anoitecer os relâmpagos amiudaram; e o mar começou a mugir açoitando as abas do castelo. Estácio perdera a esperança de receber resposta de seus amigos antes da noite; escutando porém o bramido da tempestade que rugia sobre a cidade, ele disse consigo:

— Excelente ocasião! A perderão eles?...

Fechou-se a noite; de repente ouviram-se gritos de angústia, que atravessavam o frêmito das ondas, depois brado de socorro. Era um sinistro no mar. Uma canoa de pescador que barlaventeava a tiro de berço do Forte de Santo Alberto, tomada de través pelo vento antes que pudesse o barqueiro cassar a escota, soçobrara. O mísero náufrago deitou-se a nado para o castelo, onde a salvação lhe aparecia mais próxima; as ondas encapeladas umas sobre outras o assoberbavam, esmagando sob as montanhas d’água; mas o intrépido nadador, um instante submergido, surdia avante.

Afinal chegou à laje onde estava assentado o forte e tentou debalde agarrar-se às anfractuosidades da rocha. Exausto de forças, vendo-se perdido, levantou novo brado de socorro:

— Uma corda!... Lançai-me uma corda, por Deus, Nosso Senhor!...

A esse tempo já os mosqueteiros e mais gente da guarnição do forte, debruçados sobre as ameias, seguiam com ansiedade as ânsias do náufrago debatendo-se contra as vagas; mas como de ordinário sucede à multidão no primeiro instante de um acontecimento inesperado, faltava a cada um a iniciativa que todos esperavam para obrar. Essa, deu-lhes o grito pungente que soltara o náufrago; imediatamente a adriça da bandeira foi retirada do mastro, e lançada. O pescador prontamente travou dela, e sentindo-a segura, sem esperar que o içassem, foi subindo. No meio do trajeto ou porque o pescador escorregasse ou porque se sentisse fatigado, parou agarrando da mão a borda de uma seteira aberta no muro; mas foi coisa de instantes; continuou a subir sem tropeço e galgou lesto o colo de um falcão.

No grito que bradara pela corda reconhecera Estácio a voz de Esteves, partindo mesmo debaixo da aba exterior do seu cárcere; estremecendo de susto pela sorte do pobre rapaz, o mancebo sentia como uma esperança a palpitar sob esses tremores do coração. Quem sabe se o pescador não vinha da parte de seus amigos, e acoberto por aquela noite tormentosa?...

Nisso passou-lhe pelo rosto, como um sopro, uma palavra antes resfolegada, que proferida; e ao mesmo tempo um objeto qualquer deslizando pela fenda, veio bater-lhe no peito:

— À meia-noite!...

Estácio travou do objeto que lhe enviavam pela mão amiga do pescador; e prostrando-se de joelho sobre a laje, rendeu graças à Providência. Tanto quanto podia julgar pelo tato, era uma lâmina longa e fina, envolta em papel, e toda enleada a fio. O papel servira para encobrir o ferro; o barbante para abafar o tinido metálico do estilete e evitar que não se embotasse o gume batendo na pedra.

Encontrando um nó sob os dedos, o desfez o preso, e foi desfiando cuidadosamente o cordel, com receio de ferir-se; pareceu-lhe então que a lâmina nem tinha rijeza de ferro, nem a coesão de uma folha inteiriça; ao contrário apresentava duas soluções de continuidade. Retirado o envoltório de papel lacrado, diversos objetos soltos caíram nas mãos, e um mais pesado escorregando tiniu e faiscou na laje.

Era um fuzil, fácil de se conhecer, não só pela forma, como pela pedra e isca unidas a ele; guiado por essa descoberta buscou entre os outros objetos o complemento necessário para obter luz; e não custou a achar. Viera também cerca de um palmo dessa vela de cera conhecida com o nome de rolo, cujo uso era muito comum naquela época, e hoje ainda se vê nos acendedores de tochas das igrejas. Tendo fixado o toco no chão, Estácio bateu o fuzil, e tirou luz. Então começou o inventário das coisas que lhe trouxera de um modo tão singular o canoeiro Esteves.

Três vários papéis enrolados estreitamente um dentro do outro para ocupar o menor espaço, e uma pena de ganso aparada, tendo o gomo cheio de tinta e arrolhado hermeticamente com cera da terra, formavam com os preparos de tirar fogo, todo o conteúdo do pacote.

O moço admirado em extremo e não compreendendo ainda o enigma, desenrolou as folhas de papel e correu a primeira de um relance. O que produziu nele grande choque e aumentou ainda o seu pasmo, era o juramento escrito de Ataíde. Passou a segunda folha à cata da explicação por que ansiava, e achou apenas uma carta sem assinatura dirigida a D. Diogo de Mariz para o fim de autorizá-lo a entregar a seu padrinho e mestre Vaz Caminha o papel pertencente a Robério Dias. Finalmente na terceira folha estava a palavra do enigma no recado que escrevera a seu afilhado o infatigável e dedicado velho:


Compreendo vosso pedido, filho amado, e a razão dele. Tolhido em vossa liberdade no momento justo, em que mais dela careceis, vosso ânimo válido e resoluto que a força adversa longe de abater, tempera ao contrário, revoltou-se contra a tirania e decidiu postergá-la. Apenas entrado no cárcere, concebestes com o engenho pronto e rápido que vos coube em dom, um plano de evasão;

e concertadas todas as eventualidades e acidentes, sentistes a necessidade de uma arma para levar ao cabo a empresa; de uma arma ligeira para melhor ocultar-se; muda para ferir silenciosamente. Empunhada por vossa mão destra, ela tornar-se-ia formidável, e podia num instante de surpresa varar o coração do incauto carcereiro ou da sentinela fatigada de rudo labor. Então trocadas as vestes com o cadáver, à mercê das trevas, a evasão fora fácil a um lutador destemido e intrépido nadador; poucos instantes depois eu teria o sumo gosto de abraçar-vos contra o peito que por vós anseia.

Mas, filho, antes de executar esse plano tão ousado, quanto injusto e desonesto, ouvi a palavra sempre amiga e sempre leal deste velho pai espiritual, que vos deixou Deus em lugar de outro natural, tão cedo roubado a vosso amor e minha amizade.

Duas razões falam alto contra a ação que intentais: vossa virtude e honra primeiro; vosso bem e interesse em segundo. Com que direito sacrificareis a vosso livramento de uma prisão mesmo bárbara e iníqua a vida de inocentes a quem só podereis imputar a fidelidade no desempenho

do dever? E sois vós o competente para julgar se a prisão que sofreis é ou não justa, quando é ela decretada em virtude da lei pelo juiz posto por El-Rei?

Eu vos conheço, Estácio, e estou vendo-vos repelir com horror a liberdade comprada a título de assassino e rebelde. Antes mil vezes o cárcere e torturas da iniquidade, que esse dom nefasto. Nem ele vos aproveitaria assim conseguido; pois se no pleno gozo de vossa pessoa careceis de uma atividade imensa para levar ao cabo a magna empresa que sabeis, certo nada conseguiria quem, fugitivo, tivesse além disso a prover nos meios de segurança e modos de escapar às pesquisas das justiças.

Não arrisqueis por um passo imprudente vossa bem parada posição. Em um dos papéis que vos envio achareis a coragem necessária para sofrer a dureza da prisão, e a esperança que já tínheis por perdida. Não cansai o espírito em perscrutar o modo por que isso consegui; Deus fez o coração humano bom; os homens foram que o transtornaram; baste-vos essa explicação. No segundo papel achareis o texto de uma carta que deveis assinar; ela me dará pleno poder para

apresentar-me em vosso nome e receber o objeto que sabeis.

À meia-noite lançareis a resposta pela seteira, presa ao fio; o resto fica por conta do intrépido nadador.

Esperai, filho, esperai tranquilo, que vossos amigos velam. Assim vos tenha o Senhor em sua santa guarda.

V.C.


Estácio, terminando a leitura, amarrotou com desespero a carta; depois, passado o assomo, abriu-a de novo, e beijou as iniciais de seu velho padrinho e amigo.