As Minas de Prata/III/VI

Wikisource, a biblioteca livre
< As Minas de Prata
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
As Minas de Prata por José de Alencar
Do mais que sucedera na Bahia


Ainda não é dia claro, e já D. Mência, sempre asseada e bem pregadinha, sai do quarto.

A dama, inquieta pela ausência de Estácio, de quem não sabe desde o dia do desafio, ia já para uma semana, resolvera durante a noite tirar a limpo o mistério de que a cercavam. Em princípio o Dr. Vaz Caminha a viera ver, e a sossegara a respeito do sobrinho, pretextando um passeio. Gil também de seu lado respondia o mesmo às suas reiteradas perguntas. Mas os dias correram; Estácio não voltou; e sua tia reparou na tristeza do pajem, a quem na véspera surpreendera lágrimas nos olhos. Essa desacostumada sensibilidade do petulante menino deu-lhe que pensar; de novo inquiriu dele a respeito do ausente, mas Gil disfarçou.

Apenas clareia a manhã, ergue-se do leito onde levara a rolar o corpo e juntamente essas inquietações; depressa se compõe e lá vai direita ao cubículo onde dormia o pajem:

— Gil! oh! Gil!... Espertai, pequeno!...

O menino já ali não está; erguido muito antes dela, e trepado no mais alto dos coqueiros do quintal, devora com os olhos o horizonte e os batelões que velejam barra dentro com a viração da manhã. Por ali se fora Estácio; por ali espera o menino que ele volte nas asas do vento. Três dias eram passados depois da partida do mancebo, e aquele era o segundo de sua aflição por essa tardança.

À voz da dama, que o chama, desce o pajem:

— Filho, ide já deste passo ao Senhor Vaz Caminha, e dizei-lhe que careço de falar-lhe esta manhã mesmo. Não posso mais com isto. Quero saber de uma vez o que é feito de meu sobrinho. Se morto é, não me ocultem, declarem logo para que o chore à minha vontade e reze a Deus por sua alma.

O pajem dispara em pranto.

— Jesus!... Tu que choras, Gil, é que está morto mesmo! exclamou a velha chorando.

— Não, dona! Eu não sei nada! Ninguém sabe! replicou o menino soluçando. Ele foi-se e não voltou!...

— Leva o recado!... Hoje mesmo isto há de ficar deslindado.

O pajem parte ligeiro. Antes mesmo que a velha o incumbisse do recado, já ele tinha na tenção ir ao doutor, a quem desde a partida do amo via constantemente.

Vaz Caminha também está aflito com a demora do afilhado. Desde a madrugada em que Gil lhe viera bater à porta, para trazer-lhe o recado de Estácio, o velho advogado ficara em uma inquietação constante.

Por que meios se evadira Estácio do castelo? Desprezara ele, sempre tão dócil ao seu conselho, a advertência da carta, e comprara a liberdade com assassinato? Que homens eram esses a quem ele seguia, e quais índios os que o acompanhavam naquela expedição? Onde e a que fora, barra fora, embarcado na chalupa arrebatada aos pescadores, que deixara amarrados na praia?

Todas estas questões eram de natureza a perturbarem a serenidade do ânimo de Vaz Caminha; e infelizmente Gil não sabia do plano de Estácio bastante para esclarecer todos aqueles pontos obscuros. Com a celeridade da execução e a ideia de voltar no dia seguinte, não cuidara o mancebo de revelar ao pajem para que levasse a seu velho mestre particularidades que o instruíssem de seu intento.

Entretanto, cheio de cuidados, esperou ele debalde por todo o seguinte dia; o temporal sobreveio nessa noite para ainda mais assustá-lo. Rompendo a alvorada, se dispunha a sair para colher novas, quando lhe apareceu o pajem.

Ouvindo novamente de Gil as circunstâncias que ele já referira, fixou o advogado a dos índios que acompanhavam o estudante, e associando essa à outra recordação do duelo, acudiu-lhe ao espírito o nome de João Fogaça. Sem dúvida era o capitão de mato quem fornecera a Estácio a escolta.

— Onde é encontradiço o João Fogaça, amigo de Estácio?

— Ou em casa do Senhor Cristóvão, ou da viúva do tendeiro.

O advogado encaminhou-se a toda pressa para a casa de Cristóvão. Já restabelecido, o cavalheiro desde a véspera se passara da casa de Mariquinhas dos Cachos para a sua no Terreiro do Colégio, onde o amigo e colaço se alojara temporariamente para lhe fazer companhia.

Vaz Caminha achou-os ambos praticando sobre o assunto que o levara; e em poucas palavras expôs-lhes o fim da visita. Infelizmente Cristóvão sabia menos do que Gil sobre a empresa do amigo; apenas adiantou uma circunstância:

— O de que bem me recordo, é de haver-me ele falado de um segredo de Estado. Qual fosse, a pressa não deixou que nos confiasse.

— Talvez se possa saber alguma coisa mais! disse João Fogaça. Um dos dez caboclos, que dei ao Senhor Estácio para acompanhá-lo, ficou em terra!...

— É verdade! acudiu Vaz Caminha. O que esteve de guarda aos marujos amarrados.

— Justamente. Vou mandá-lo vir; é natural que adiante alguma coisa.

O índio foi chamado a toda a pressa. Segundo as ordens que recebera de Estácio, logo que vinha rompendo o dia, como não visse apontar a chalupa, fora à guarda próxima, chamara um soldado e lhe entregara os marujos como presos à ordem do governador! Quando o soldado voltou-se para interrogá-lo sobre a estranha prisão, já não o viu. Os presos não obstante foram recolhidos à guarda; e logo deu-se aviso do caso para palácio.

Chegado de Nazaré, foi o índio interrogado pelo capitão de mato a respeito da empresa de Estácio:

— Foi tomar navio em Itapoã!

— Assim me quis parecer! disse Cristóvão.

— Perguntai-lhe, Senhor João Fogaça, como ele sabe o que diz? Se ouviu a Estácio, ou a qualquer outra pessoa? acudiu o advogado.

— Estais ouvindo?... Responde!

O índio nada vira; farejara.

— Japi sabe, porque tempo depois que ele foi-se, ouviu no meio do ronco do mar tiro de peça, um primeiro, depois outro, e outro, e outro, muitos. Pelo som, tiro era longe, em Itapoã; lá não tem fortaleza: devia ser navio.

João Fogaça afagou a face do índio, satisfeito da sua perspicácia; este beijou-lhe a mão com uma meiguice de rafeiro.

— Sabemos pois que houve combate, disse Vaz Caminha pensativo; e isso ainda mais deve aumentar as nossas apreensões. Sucumbiria Estácio?

— Qual! desterrai semelhante receio, Senhor Vaz Caminha! exclamou Cristóvão com a confiança que tinha no valor e inteligência do amigo.

— Vosso afilhado sabe o que faz!... É um homem como se encontram poucos, disse Fogaça.

— Eu o conheço! acrescentou o advogado com orgulho. Mas é jovem ainda; talvez não medisse suas forças ou a sorte o desamparasse.

— Se ele tivesse sucumbido, ao menos algum de meus caboclos se salvaria para nos trazer a notícia do desastre.

— Não entendo destas coisas de guerra; mas se não me engano, a empresa de Estácio contra os navios com tão pouca gente não podia ser outra senão tomá-los de abordagem. Não vos parece?

— Sem dúvida!

— Que significam então os tiros de peça ouvidos por esse índio? Que a abordagem não teve lugar, e os assaltantes pressentidos pela gente de bordo foram metralhados sem piedade.

Esta observação de uma lógica rigorosa traspassou como uma punhalada o coração dos dois amigos. Cristóvão vergou a fronte.

— Nada de desanimar fora de tempo. Tu dizes que o negócio foi em Itapoã, Japi? Pois seguirás neste instante para lá por mar, enquanto eu com outros iremos por terra explorar aquelas paragens.

O capitão de mato despediu-se.

— Cá estarei de volta esta noite; e apenas chegado vos buscarei, senhor licenciado.

— Deus vos pague tamanho serviço, senhor.

— Já estou pago com a amizade de vosso afilhado; se me quereis dar também a vossa, é usura de judeu!

— Os amigos de meu filho são para mim seus irmãos; ele tinha um: terá dois agora.

Gil esperava o advogado na porta.

— Então, Senhor Vaz?...

— Esta noite teremos novas, e hão de ser boas, Gil.

Compreendendo com seu instinto infantil o que valia aquela palavra de consolação no lábio do advogado, o pajem separou-se com o coração opresso. Adiante encontrou o caboclinho da taberna. Martim apenas o avistara, deitara-se a correr para ele; e sem reparar no semblante pesaroso que trazia, começou conforme o costume sua lamúria pelos maus tratos do taberneiro.

As queixas do caboclinho recordaram-lhe a parte que o Brás tivera na aventura noturna em que Estácio se empenhara:

— Foram os amigos dele que lhe fizeram mal! pensou.

Em geral o homem tem duas espécies de afeição; as afeições ativas, com que dominamos os entes por quem as sentimos; e as afeições passivas, que nos submetem àqueles que no-las inspiram. Gil sentia a segunda por Estácio, que ele adorava como seu herói, a primeira por Martim, de quem ele gostava como de um cão favorito.

Ora, sucedia que ambas essas afeições eram a um tempo ofendidas pelo mesmo homem, por Brás. Um ódio violento brotou de repente naquele coração de criança, onde o amor não tinha germinado ainda. Mísera criança!... O fado lhe entornava nos lábios a taça de fel, antes de lhe ter adoçado as bordas com algumas tênues gotas de mel; os espinhos lhe vinham n'alma antes do desbotoar da flor!... Era a vida sem primavera, começada pelo estio da paixão.

— Paciência, Martim! Vai sofrendo!... Um dia, breve, eu te vingarei!...

Tinham chegado em frente à taberna. O caboclinho abraçou o pajem, e sumiu-se pela porta entreaberta.

Gil teve a curiosidade de ir olhar pela fresta. O taberneiro, sentado no púlpito, fazia suas contas sobre a lousa. Também ele estava triste e sucumbido. De alguns dias a essa parte as coisas não lhe corriam de boa feição. Começara pela brusca e inesperada partida de Samuel, seu melhor freguês, e homem com quem sempre se entendera perfeitamente acerca do contrabando. Depois a decepção que sofrera o alferes, lhe valera uma hora de amargura; se não fosse a sua habilidade cômica e a necessidade que dele tinha D. José de Aguilar para vingar-se do velho judeu, certamente o teria desancado; contudo ainda o Brás não se julgava seguro.

Finalmente tinham vindo juntar-se graves inquietações a respeito do feliz sucesso da fuga dos flamengos: primeiro o referido por Anselmo sobre o alvoroço do embarque; depois o boato espalhado sobre os homens amarrados, que foram achados na ribeira; por último o cadáver traspassado, que ficara na praia, e no qual ele quis reconhecer um dos contrabandistas; todos esses incidentes eram de natureza a assustar o prudente taberneiro.

Ele somava pois certas verbas de suas economias e avenças, na previsão de ser obrigado de um momento para outro a eclipsar-se como o velho rabino, cuja filha, aqui para nós, não deixava de fazer umas cócegas em seu coração de judengo, apesar dos cinquenta anos, ou mesmo por causa deles. Nem haja motivo para admiração, que nutrindo esta ideia secreta, prestasse o Brás de tão boa vontade as mãos ao negócio do alferes; longe de lamentar, ele regozijou-se com essa circunstância que abaixando a gentil noiva a seu nível, ao mesmo tempo lhe devia elevar o dote; pois o rabino não deixaria de encher com ouro de bom quilate o vácuo deixado pela virtude; nem o alferes de proteger o pai de seu filho e o marido de sua namorada.

Gil esteve a fitar por algum tempo com mau olhado o rosto do taberneiro. Armando-se com um caco de telha, que apanhou no chão da rua, disparou o projetil pela fresta da porta, e deitou a correr. Ouviu-se dentro um quincalhar de botelhas partidas, e o vulpino focinho do Brás assomou à janela pálido e espantadiço. Já não podia ver o pajem, que dobrara a esquina.

Avistou porém o Anselmo, que vinha a todo o estirão das pernas pelo lado oposto. O carpinteiro fora enviado pelo Brás a Itapoã para colher notícias sobre os flamengos evadidos; se tinham felizmente chegado aos navios, e dado este à vela para a pátria.

— Então?

— O negócio não está nada bom. Não há novas de Pedro e sua gente. Os navios desapareceram na mesma noite, depois de terem dado combate a umas chalupas.

— Que chalupas eram essas?

— Ninguém sabe, senão que morreram muitos, e alguns também dos flamengos, pois os corpos vieram à praia.

— Diabo os leve, se os entendo, exclamou o taberneiro dando um soco no ar; sua vontade era dá-lo no Anselmo, mas não se atreveu.

Entretanto chegava Gil à Fonte do Gravatá, onde esperava que Joaninha não tardasse a passar. De feito com pouco ouviu o cantarolar da mulatinha e logo após bruxuleou entre o arvoredo o carmesim de sua vasquinha de lã com vivos pretos. Ao tão conhecido psiu do pajem voltou ela o rosto brejeiro e aproximou-se aos pulinhos.

Sentaram ambos sobre a relva.

— Tardei muito? Já estavas cansado de esperar, fala verdade!

— Se também agora mesmo cheguei!

— Pois não te conto, Gil!... És tu capaz de adivinhar quem esteve agora em casa?...

— Sei cá!... Vai dizendo logo de uma vez!...

— O tal D. Fernando!... O noivo!...

— Deveras! E que foi ele lá buscar, Joaninha? Dar-se-á acaso que fosse pedir-te para levar algum recado?...

— Cruzes, Gil!... Sempre tens ideias!... Cuidas tu então que qualquer, seja fidalgo embora, tem lá topete para me pedir coisas destas?... Isso é só para certo capetinha de meus pecados!... E eu em vez de castigá-lo pelo atrevimento, ainda fui tão tola que lhe perdoei a paga.

E a mulatinha assim falando, amimava as faces rosadas de Gil.

— Mas então qual outra coisa o levou à tua casa, rapariga?

— Sabes tu?... Assim eu!... Lá esteve, perguntou por uma ruma de coisas, andou, virou, e eu que tinha mais que fazer... Passe por lá muito bem, meu senhor; uma sua criada, sem mais aquela. E eis-me aqui rente conforme o prometido. Que me queres?

Estas palavras despertaram a dor no coração do pajem:

— Nada mais, Joaninha!... respondeu lagrimejando.

— Deus!... Que hás tu, Gil? Que te aconteceu?...

— Meu pobre amo, Joaninha, o Senhor Estácio, que a esta hora talvez esteja no céu!

Gil ao proferir estas palavras disparou em pranto, escondendo a cabeça no seio da alfeloeira; esta quase estimou semelhante pesar que conchegava ao seu coração aquele por quem tanto e em vão palpitava. Dedicou-se toda a consolar o aflito pajem, já escutando o que lhe ele referia sobre a partida de Estácio, já buscando fortalecer-lhe a esperança não de todo apagada.

— Se te quis falar hoje foi para que levasses à doninha novas dele, pois decerto não sabe ainda as resultas do desafio... Mas agora de que serve isto?...

— Pois não serve, Gil?... Ela há de ficar bem satisfeita com saber!... E quando o Senhor Estácio voltar, que contentamento não há de ser o seu!

— Deus te ouça, Joaninha!... respondeu seguindo-a.

— Queres tu apostar?... Este coração não me engana; e eu tenho aqui um pressentimento de que eles hão de ser felizes... Assim fosse eu!...

— E por que não serás, rapariga?

— Porque não queres, Gil!

— Eu não quero?... Mas o que devo eu fazer para isso?...

— Minto!... Não sabes querer, o que é pior ainda.

Joaninha estremeceu. Vira o Anselmo que apressava o passo para vir ter com ela; desde a noite de Ano-Bom era a primeira vez que o encontrava. Quis evitá-lo; mas já não era tempo.

— Gil acode-me!

— Que tens, Joaninha?

— Ele!...

— Ai! o carapina?

Nisto chegava o mariola; a tumescência das feições e os lampejos dos olhos anunciavam o esto da paixão nessa alma rude.

— Desta vez não terás quem te dispute a mim, disse ele com uma voz curta e ofegante.

Joaninha teve medo e horror; medo por ela, horror por Gil, que ela via pronto a acudir-lhe e sacrificar-se.

— Vai esperar-me adiante, murmurou ela ao pajem.

Este riu e obedeceu. Voltando-se então para o Anselmo, com o rosto banhado de indignação e cólera, atirou-lhe este desafio:

— Podes agarrar-me; mas primeiro morrerás tu, que te larguem estes dentes!

Afrontando a ameaça, ia abraçá-la o Anselmo, quando de repente ouviu-se uma gargalhada de mau agouro, e logo depois apareceu Zana, a feiticeira:

— Não te bastou a primeira, carrasco? Queres segunda?

Perturbou-se o mariola de tal forma com a aparição, que Joaninha pôde escapar-se. Logo adiante achou Gil que a esperava.

Chegados a Nazaré, ficou Gil esperando fora a alfeloeira, que penetrou com ligeireza no interior da casa.

Inesita estava no mesmo lugar onde a encontrara a mulatinha da primeira vez, sentada junto à mãe e ocupada em bordar. Vinte dias apenas eram passados desde a tarde de Ano-Bom, em que a sua lindeza se expandira tão mimosa e faceira entre as galas da festa; e entretanto uma revolução se operara em toda a gentil pessoa. A luta do coração lhe imprimira na beleza um gesto pensativo, aroma precoce de flor que os sóis estivos desabrocharam fora da estação.

Quando a alfeloeira entrou, a donzela ergueu-se e retirou para outro aposento, lançando à rapariga um olhar melancólico. Joaninha não atinou com a causa desse estranho acontecimento. Teria Inesita receio de ser comprometida por ela, ou era esquivança ao amor de Estácio, a quem desejasse esquecer?

Resolvida a averiguar o que passava, e aproveitando-se da nímia bondade da velha D. Ismênia, a alfeloeira, pretextando umas encomendas que a filha lhe havia feito sobre pontos de bordados, penetrou até onde estava a donzela. Esta, vendo-a, sobressaltou-se, e nem deixou que se aproximasse; voltou-se para uma escrava que ali estava a acompanhá-la:

— Dize à alfeloeira que meu pai me proibiu que lhe falasse e ouvisse palavra dela; pelo que peço-lhe eu que se retire, para me não obrigar a despedi-la de minha presença.

Inesita anunciou estas palavras com dignidade e nobreza, mas repassadas ao mesmo tempo da doçura que emanava sempre de seus lábios, ou na voz ou no sorriso. Contudo Joaninha, extraordinariamente surpresa, quer do que ouvira, quer do gesto da donzela, saiu arrebatadamente da casa de D. Francisco. Na porta encontrou-se com o alferes, o qual, aceso em ira, ameaçou-a de fazê-la amarrar ao pelourinho, se tornasse a passar a soleira da casa.

— Sabes que mais, Gil?... Eu não meto outra vez as minhas mãos neste negócio!...

— Por que então?... Ofendeu-te o alferes?

— Isso é o menos! Zombo dele e do mal que me pode fazer. O que desespera a gente é ver que está perdendo seu tempo!... O Sr. Estácio que empregue melhor seus cuidados!

— Melhor, Joaninha?... Como melhor?...

— Em quem o saiba querer!

Entanto que era assim julgada, Inesita ensopava o lenço nas lágrimas abundantes que borbulhavam de seus lindos olhos. Como filha nobre e leal que era, obedeceu ao pai, a quem havia prometido não trocar uma palavra com a alfeloeira; mas seu coração de donzela, livre da submissão paterna e estremecido de puro afeto, pranteava o infortúnio dos castos amores, cortados em bonina. Esta virgem cristã era digna do mancebo espartano que a amava.

Na tarde deste mesmo dia, Vaz Caminha, depois do jantar, se dirigiu à casa misteriosa da Rua de Santa Luzia.

Desde que pela primeira vez ali fora introduzido, na noite de Ano-Bom, tomara o advogado o costume de lá ir todos os dias, algumas vezes por tarde, outras já noite, para não excitar suspeitas com tão repetidas visitas.

O que lá ia fazer o bom velho é fácil de saber, se quisermos tomar o trabalho de acompanhá-lo. Ei-lo que é já fronteiro à espessa touça de bananeiras, e entra a cancela lateral como pessoa familiar da habitação. A Brásia abre-lhe a porta da varanda, onde está sentada ao fundo, sempre triste e pensativa, a formosa D. Dulce. Ao vê-lo, um sorriso dorido deslaça os lábios da dama, que lhe estende a mão saudando-o. O advogado senta-se a par, e começam à meia voz uma conversa que dura até à noite:

— Acho-vos triste hoje, sr. doutor, ou será engano meu?...

— Não vos enganais, D. Dulce; estou com efeito mais triste do que já há muito me fizeram os anos e fastios deste mundo.

— E não posso eu, que vos fiz depositária de minhas mágoas, saber de que provêm as vossas?

— É esse filho, de quem tanto vos tenho falado, a causa única!...

— Ah!... exclamou Dulce comovida. Que lhe sucedeu então?...

— Ignoro-o, e é isto o que me traz aflito; não saber o que seja feito dele a estas horas.

— Não me dissestes há dias que o tinham prendido?

— Logrou evadir-se contra meu voto; mal livre da prisão, embarcou-se logo em não sei que arriscada empresa, da qual não é tornado, nem dele há novas.

— Deus o há de proteger, doutor. Usai de uma pequena porção dessa esperança, de que sois tão pródigo para comigo.

— E se não fosse ela, quem me animaria ainda neste instante?

— Penso que fazeis o caso mais feio do que ele é realmente. Vosso afilhado voltará aos vossos braços, e cumprireis o que prometestes de trazê-lo a esta vossa casa, para que o conheça de perto.

Não foi sem algum esforço que a dama conseguiu pronunciar estas últimas palavras; o advogado, muito preocupado com seus pensamentos, não fez nisso reparo. Seguiu-se uma pequena pausa, em que um e outro se isolaram dentro de suas recordações. Vaz Caminha foi o primeiro que reatou o fio à interrompida prática:

— Não roubem porém meus cuidados os momentos consagrados ao alívio dos vossos, D. Dulce. Como vos encontro hoje? Mais sossegada da aflição dos dias passados?...

O semblante de Dulce anuviou-se:

— Bem sabeis, doutor, que desde o momento em que pela segunda vez reconheci meu marido sob o hábito do jesuíta, e o senti perto de mim, não é possível que eu tenha sossego! Não!... Descansa algumas vezes a dor; mas para recozer!... Se ao menos eu tivesse o consolo de lhe falar e prostrar-me a seus joelhos para suplicar que me atendesse!... Mas a fatalidade, que me persegue, assim como o apresenta de súbito a meus olhos, tão depressa se evapora!... Se vos não tivésseis oposto, certo que o teria seguido.

— Fora baldado intento; talvez antes de chegar ao Rio de Janeiro tivesse ele de lá partido.

— Saberia para onde, e o seguiria!...

— Se ele volta, para que este trabalho? Não é melhor esperá-lo aqui?

— Afiançais então que ele volta?

— Tenho esta convicção. É possível que se não verifique; mas tudo neste mundo é falível e mais que tudo seria a vossa viagem!

Anoiteceu, e Brásia com uma vela na mão precedeu até à sala da frente a dama e seu hóspede, que ali ficaram sós. Então fechando a porta sobre si, Dulce tirou do baú de sua roupa vários instrumentos que o advogado havia a pouco e pouco nas suas visitas trazido ocultos nas vestes. Vaz Caminha, afastando o tapete do oratório, descobriu o ladrilho; um dos tijolos quadrados estava solto, e por baixo dele via-se um buraco profundo, dentro do qual surgia já a meio descoberto o tampo de uma caixa de jacarandá embutida de cobre amarelo.

Sentados de um e outro lado do buraco, a dama e o advogado puseram-se à obra, ele cavava, ela recolhia a terra sobre uma manta de lã, donde era depois espalhada pelo jardim. A cabo de uma boa hora de trabalho incessante ouviu-se um ligeiro rumor subterrâneo.

— Eles que chegam! murmurou Dulce.

O advogado restabeleceu as coisas como estavam. Logo soou a pancada surda de um instrumento cavando subterraneamente o chão da casa; fácil era de perceber pelo foco do ruído o lugar até onde já tinha chegado a mina; mas outro indício ainda mais certo era a natureza do som, que indicava ser retinido do ferro sobre a pedra.

— Temos tempo de sobra, disse o advogado. Agora é que estão no alicerce desta parede, que os há de demorar seguramente oito dias!...

— E nós, sr. doutor, quando terminaremos?...

— Talvez em três, talvez em quatro.

— Em verdade, às vezes pergunto a mim mesma para que busco eu defender com tanto afã esta riqueza, se ela não pode fazer a minha felicidade?

— Se não fizer a vossa, fará a de outros, de quem sereis a benfeitora. Há tantos pobres espalhados na terra! Demais podeis dispor dela como vos aprouver, e mesmo em benefício daqueles que tanto a cobiçam. Mas nesse caso fazei-lhes doação dela, antes do que acoroçoar um crime!...

— Razão tendes, sr. doutor! Quando não servir à minha ventura, há muito emprego nobre que possa dar-lhe.

Vaz Caminha ao recolher encontrou João Fogaça.

As novas não eram boas; versavam pouco mais ou menos pelo mesmo que ao Brás referira o Anselmo. Confirmava-se o fato do combate entre os navios e as chalupas; muitos corpos, já dilacerados e meio devorados dos peixes ou abutres, tinham vindo à praia; alguns menos despedaçados pareciam de flamengos. A gente do Rio Vermelho nada mais sabia do acontecido, senão que alguns pescadores do lugar haviam desaparecido.

O capitão de mato referindo estas informações, que acabrunharam o advogado, despediu-se dele com estas palavras:

— Tudo anuncia uma desgraça; mas eu ainda espero, para acabar de crer, por uma coisa.

— Pelo que, Sr. João Fogaça?

— Por um dos meus caboclos, que venha, ainda mesmo do outro mundo, dar-me conta do acontecido.