As Minas de Prata/III/XV

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As Minas de Prata por José de Alencar
A criança enjeitada e a herança rejeitada



Poucos dias eram decorridos depois que Estácio partira para o sertão.

Dulce estava só e pensativa na sala. O Doutor Vaz Caminha a tinha deixado naquele instante, imersa em graves preocupações.

Não deve estar esquecido aquele tesouro enterrado pelo velho Ramon sob uma laje do oratório nem a empresa que o advogado cometera de salvá-lo das garras dos malfeitores, que a ele se atiravam com furor, minando o chão da casa. Pois naquela noite o velho levara a cabo a sua obra; prosseguindo na escavação, obtivera retirar uma pequena caixa de cedro com lavores de prata embutida. Quer pelo volume, que não excederia de um palmo quadrado, quer pelo diminuto peso, julgou o licenciado que não podia estar ali encerrada a imensa riqueza de que lhe falara a dona.

— Não é esta a caixa: deve estar mais no fundo!

— É esta sim; nem outra há!...

— Então os haveres consideráveis que vos deixou vosso pai estão todos contidos aqui?

— É verdade, nesta pequena caixa, respondeu a dona sorrindo.

— Onde a ocultaremos agora?

— Onde melhor vos parecer, que mais segura esteja!...

— Embaixo da peanha da cruz!... Ficará sob a guarda de Cristo!...

— Bem lembrado! Assim caiba ela!

O advogado ergueu o crucifixo, e ajustou a caixa no vão que deixava o oco pedestal de madeira.

— Bem; agora tratemos de repor as coisas no seu antigo estado, disse Vaz Caminha. Qu’é da nossa botija?

A dona procurou no canto um largo vaso de boca estreita, que de antemão mandara o licenciado conduzir para a sua casa, bem envolto, de modo que se não aventasse o que realmente era. Estava esse vaso cheio de carvão até a boca.

A ideia de Vaz Caminha era aproveitar-se de um prejuízo, muito enraizado na plebe, para desvanecer nos salteadores a convicção em que estavam dos ricos possuídos de Dulce. Ainda hoje há pelo interior quem acredite que o dinheiro enterrado por pessoa finada se transforma em carvão, à vontade de quem o possuiu, e sobretudo quando o acha outro, que não o escolhido herdeiro da alma penada.

Encontrando a botija, os salteadores sem dúvida acreditariam que o ouro de que estava cheia se trocara em carvão; e deixariam em paz a casa de D. Dulce. Então quando se retirassem já aterrorizados com a superstição, esbarrariam nos quadrilheiros postados ali perto, e iriam chorar os seus pecados na cadeia até o dia do castigo.

O plano não podia ser mais bem concebido e realizado. Entretanto é mister confessar que Vaz Caminha naquele momento lamentava o trabalho que tomara; pois lhe parecia que o objeto não valia a pena de tanta fadiga e cuidado. Contudo sem fazer a este respeito a menor reflexão que pudesse magoar a dama, ele executou até o fim a empresa em que se empenhara, e não deu mostras do mínimo desgosto.

Logo que a laje ficou de novo assente e apagados os vestígios da recente obra, o advogado dispôs-se a partir.

— Antes de ir-vos, doutor, far-me-eis a graça de responder a uma pergunta.

— Ordenando vós, o farei pronto.

— A primeira noite que a esta vossa casa viestes, inquirindo eu de como chegastes ao conhecimento da trama urdida contra mim, recusastes satisfazer minha curiosidade. Entendi o motivo desse vosso proceder; receastes da fragilidade própria do meu sexo, que não me comprometesse ainda mais: eu própria vos dei razão contra mim.

— É exato quanto dizeis!

— Agora porém já está o cofre em segurança, e não há mais causa a receios; podeis afinal sem inconveniente satisfazer minha curiosidade.

— Era minha intenção; mesmo porque esta revelação vos servirá de aviso. A pessoa de quem ouvi a trama, a mesma que deu o primeiro fio para urdi-la, é de vossa casa e confiança.

— De minha casa!... Seria a velha Brásia?...

— Foi Lucas.

Vaz Caminha contou o acontecido no dia de Ano-Bom, e acrescentou:

— Preveni-vos contra ele e tratai de afastá-lo; mas não vos deis por achada!

A senhora ficou pasma; e já o doutor se havia retirado, que ainda a encontramos sob o domínio das preocupações despertadas por tão estranha revelação.

Fora mister conhecer o negro Lucas para bem avaliar da surpresa de Dulce.

Pouco tempo depois de chegado ao Brasil, na volta de sua primeira entrada ao sertão, encontrou Ramon, já perto da cidade, oculto no mato, um negro ainda boçal. Estava espojado ao chão, e quase moribundo. Averiguado o caso, fugira ele apenas desembarcado, e se escondera no mato resolvido a morrer a fome. Quando lhe apresentaram alimentos, no primeiro movimento, levado pela fome, precipitou-se para devorá-los; mas logo sobrepujou à vontade o instinto, cerrou os dentes e recusou obstinadamente qualquer nutrição. Ramon fez abrir-lhe a boca à força, e obrigou-o a engolir alguns tragos de vinho que o reanimasse; feito o que, mandou carregá-lo até sua casa.

A tenacidade do negro excitara o amor-próprio do branco a domá-lo.

Indagando, soube a qual mercador pertencia o africano e o comprou. Três dias lutou debalde contra aquela obstinação de jumento; o escravo com os queixos cerrados sofria impassível o suplício da fome diante das saborosas iguarias que lhe eram postas diante, e lhe entravam pelos olhos ou pelo olfato. Se não fossem as colheres de caldo e vinho que lhe faziam engolir à força, sem dúvida já teria sucumbido de inanição. Sua magreza era extrema; de extenuado e débil já nem sentado se podia ter.

Dulce teve curiosidade de ver essa vítima ou esse algoz de si mesmo; talvez pressentiu ela nesse suicídio lento e atroz uma dor imensa; e admirou-se de haver no mundo dores mais terríveis do que as tão bárbaras, que lhe tinham assolado o coração. Foi, inspirada desse misto de surpresa e compaixão, até a enxerga onde agonizava o moribundo.

Ao seu aspecto, desenhou-se no rosto da senhora a mais pungente aflição; as lágrimas borbotaram dos olhos e desfiaram ao longo das faces. O quadro era realmente de comover. Imagine-se a criatura expirando nas ânsias cruéis da morte pior, a morte esfaimada; e sobre isso a lembrança da condenação voluntária! A mitologia grega memora como um dos suplícios mais cruéis o de Tântalo. Se Tântalo, em vez de ser um condenado, fosse um suicida, o horror subiria de ponto!

Como um anjo da caridade, a formosa dona ajoelhou junto à enxerga, arrastada pelo sublime amor do próximo. Sua mão alva e mimosa suspendeu a cabeça imunda e encarapinhada do enfermo. Um instante só não hesitou. Ali, onde estavam, nos umbrais da eternidade, não havia senhora e escravo, mas unicamente o sofrimento e a consolação.

Quantas vezes depois não assistiram os lares brasileiros à reprodução daquela cena tocante e evangélica! E entretanto a um país como este, onde no seio de cada família se encontram as nobres filhas de Santa Isabel, insultam seus próprios cidadãos, indo mendigar a caridade estrangeira! Tristes tempos são estes em que precisa o nosso povo importar com as mercadorias as virtudes!

O escravo, ao movimento que fizera Dulce, entreabriu as pálpebras e estremeceu. Não compreendia o que viam os olhos; não sabia como surgira aquela aparição. Mas também os espíritos não trabalhavam; os sentidos sim, esses cediam a uma doce e inefável influência. O ódio entranhado que votara à raça cruel, por tê-lo arrancado às suas plagas africanas, reduzindo-o de príncipe que era lá, a escravo; esse rancor profundo se desvanecia como por encanto.

Quando pois a dona lhe apresentou uma taça cheia de cordial, pôs nas bordas os beiços, e vazou-a sem hesitar. A obstinação tenaz transformara-se agora em docilidade de cordeiro. Breve recobrou o escravo as forças com a saúde; e pôde entrar no serviço da casa, depois de batizado.

A dedicação que o escravo tinha pela senhora, estendeu-se a Ramon, de quem chegou a merecer a maior confiança, já pela amizade que mostrava, já pela invencível estupidez de que o supunha dotado. Algumas vezes pode ser essa no escravo uma qualidade preciosa, como é para os orientais a mudez. O espanhol assim acreditava; quando tratou de enterrar o cofre, não tomou contra a curiosidade do escravo as devidas precauções. Lucas não viu, mas suspeitou do que se fizera no oratório, quando o mandaram varrer as lajes. Essa suspeita porém não entrou em seu espírito; perpassou apenas.

Morto o senhor, e passando ao domínio de Dulce, achou-se Lucas em uma inércia contínua. Cessaram as viagens e o tráfego a que se habituara; a dama, com a vida retirada e tranquila que levava, não tinha que lhe dar a fazer, e com exceção de uma ou outra incumbência fora de casa, passava o negro todo o seu tempo desocupado.

Se já possuístes algum cão amigo vosso, haveis de ter notado a persistência com que o animal senta-se a alguma distância, com os olhos fixos em vossa pessoa, esperando o menor aceno, que o chame a vossos pés, e o ponha em movimento. Afinal porém fatigado dessa imobilidade, aflito porque não vos ocupais dele, o animal inquieta-se, rosna, aproxima-se, a princípio indeciso, depois vos salta aos peitos, enrola-se aos joelhos; apesar da vossa resistência, vos enche de carícias. Castigai-o embora, esse mesmo castigo o contenta; é uma relação entre vós e ele, é um sinal, embora doloroso, de vossa superioridade e sua obediência; é a constância do laço que prende o homem e o animal.

A afeição que tinha Lucas a Dulce era a afeição humilde e sincera do cão. À semelhança do rafeiro, ele também quedava-se dias e dias à espera de uma ordem da senhora, de uma ocupação em que se empregasse para bem dela.

Uma ocasião chegou-se a Dulce para falar-lhe:

— Senhora, dai trabalho a Lucas.

— Que trabalho?

— Mandai Lucas para o sertão, como ia com o defunto, buscar ouro para a senhora!

Dulce sorriu:

— Para que preciso eu de mais riquezas, do que me trouxe meu pai?... Talvez sem elas fosse eu mais feliz!

Dois átomos de ideia ficaram no cérebro obtuso do negro, como duas sementes que caem da árvore sobre a lomba de uma rocha. O vento para ali carrega ligeira camada de pó, que insinua-se pelos interstícios; envoltas nelas as sementes germinam, mas lentamente; o grelo, que desponta, só muito tarde consegue romper a fenda estreita do granito, e expandir-se afinal à luz e ao ar. Assim desenvolveram-se vagarosamente no espírito embotado do escravo os átomos que ali deixaram as palavras de Dulce.

Ao cabo talvez de um ano chegou Lucas a estas reflexões: Dulce não precisava do seu trabalho, porque já era por demais rica; essa riqueza não fazia a senhora contente. Nova e longa ruminação foi precisa para tirar dessas reflexões alguma coisa; afinal porém conseguiu e tal qual se devera esperar desse crânio de pedra. A lembrança do oratório lhe acudiu ao bestunto; e foi seu ponto de partida.

O negro conhecia o Brás de ir frequentemente à taberna mercar azeite, vinho e outros produtos do Reino e das Índias. O judengo, sempre incansável nos seus aumentos, não deixava de fazer falar o escravo, dando-lhe um pichel de aguardente para molhar a palavra. Lucas chupava o trago, mas não dizia coisa que prestasse. Nem um enredo de casa, nem algum objeto surripiado à senhora; nada enfim que deixasse lucro, ou esperança dele ao menos obtinha do ruim negro. Lucas era de uma fidelidade a toda prova, que só podia ser excedida pela sua discrição.

Desde porém que o africano se convenceu da funesta influência que tinha sobre a senhora e ele o tesouro enterrado no oratório, à primeira apalpadela do Brás vazou o segredo. O taberneiro rosnou de contente, como o rafeiro faminto que descobriu um bom osso a roer; o prazer entanto foi aguado pela recusa de Lucas em declarar o lugar certo onde estava o dinheiro escondido. De feito, o bruto humano receava que o Brás e sua gente penetrando na casa, ofendessem sua senhora; e recuara do seu propósito.

Por muito tempo batalhou o Brás com ele para lhe arrancar o resto do segredo; mas o negro era impenetrável. Ele ruminava o meio de levar ao cabo o seu intento, sem o menor susto para Dulce e sem a menor suspeita de cumplicidade, quando um inocente rato o inspirou. Estava Lucas banzando no terreiro, junto ao oitão de casa; acertou o rato de atravessar por diante dele, e ganhar o buraco aberto no alicerce da parede.

Lucas tinha achado a solução do seu problema. Foi isso no dia de Ano-Bom. Enviando-o Dulce com o recado à casa de Vaz Caminha, o negro aproveitou o ensejo, para de passagem, advertir o taberneiro da descoberta. Estavam os dois na adega, concluindo a trama, quando felizmente aparecera o advogado, a quem o negro não conhecia, mas ouviu nomear pelo Brás. Assim foi que o seguiu a distância ao sair da taberna e entregou-lhe a missiva da senhora.

Do mais que seguiu já se deu notícia. Lucas aguardava o resultado com a calma de sua bruta consciência; desaparecido o ouro, esperava ele que a senhora, pobre, viria a ser feliz, e o faria a ele contente, empregando-o em seu serviço. Se alguma leve inquietação o assaltava por vezes, era somente a respeito da tranquilidade e sossego da dona durante a empresa; e por isso estava ele sempre alerta fiscalizando o trabalho subterrâneo dos malfeitores.

Tinha, pois, razão de sobra D. Dulce para se admirar da revelação de Vaz Caminha. Não sabia a senhora do que mais duvidar: se da possibilidade de penetrar uma trama tão bem urdida naquele cérebro rijo; se da contradição de tão perverso intento com a fidelidade provada e a extrema afeição que sempre reconhecera no escravo.

Mandara a senhora que Brásia chamasse o negro. Este, apresentando-se à porta, evocou o pensamento de Dulce a seu projeto de interrogá-lo. Não era talvez muito prudente que uma frágil senhora se expusesse assim à brutalidade do escravo, receoso de severo castigo; mas ela estava tão habituada a subjugar, sob a sua palavra maviosa e gesto meigo, essa animalidade, que nem um instante hesitou:

— Lucas, tu és um mau escravo!

— Por que senhora diz isto?

— Fui sempre boa para ti; enquanto que tu, ingrato, te ajustaste com gente má, como tua raça, para roubar tua senhora.

— É mentira de quem disse!

— Negas? Não foste tu que convidaste os ladrões para minarem o chão de minha casa?... Que rumor é este? Talvez vieste agora mesmo de ajudá-los!...

O negro achatou-se fulminado.

— Senhora, Lucas disse onde estava o dinheiro para que eles tirassem tudo e levassem! Lucas não queria nada!...

— E por que razão me fizeste tu esse mal? Assim pagas os benefícios recebidos?...

Lucas arrancou do peito um arquejo e desapareceu da sala.

Pensou Dulce que ele fugia com receio do castigo, e estimou esse acontecimento que lhe poupava a dura necessidade de ser um instante severa; logo porém lhe ocorreu que a sua imprudência podia ter comprometido o plano tão bem combinado pelo doutor. Mas o mal estava feito.

Lucas não fugira; outro era o seu pensamento. Ganhando o terreiro, aproximou-se do oitão onde estava a boca da mina; um vulto agachado se aproximava do lado oposto, que o negro logo conheceu. Era o Anselmo.

— Estão trabalhando? perguntou ele.

— Estão!

— Ainda falta muito?

— Vai ver!

A surda voz de Lucas, que se espedaçava de encontro aos dentes rangidos, devia arripiar as carnes ao filho da Eufrásia; mas o bandido estava tão seguro da cumplicidade do negro, que nem sombra de receio lhe toldou o ânimo. E como podia ele suspeitar o que era passado?

A boca da mina formava um buraco suficiente para o corpo de um homem; oculto pelo matagal, durante o dia o tapavam os ladrões com uma grande pedra, que ali próximo jazia. Mal o Anselmo afundou pela cava, o negro com um salto de pantera arremeteu sobre, e esmagou o bandido, que rolou pela mina abaixo; então quanto encontrou ao alcance da mão, pedras, ramos secos, terra às braçadas, foi atirando pela boca da mina, de modo a sepultar nela como em uma cova os que aí se achavam. Houve dentro um grande rumor de gritos abafados; algumas cabeças surgiram à superfície que logo se abateram esmigalhadas com pedras. Ao cabo de uma hora quedou-se tudo; a mina estava completamente aterrada, e a laje selava, como lousa tumular, aquela sepultura onde jaziam o Anselmo e seus cúmplices.

Então o negro tornou a casa. Sua senhora se erguera espantada com o rumor subterrâneo que ouvira embaixo do leito.

— Senhora pode agora castigar Lucas!

— Que foste tu fazer?

— Entupir o buraco.

— E eles?... exclamou a senhora tomada de horrível suspeita.

— Eles não cavarão mais! respondeu o negro sereno.

— Foram-se?

— Para não tornar.

Mais tranquila à vista da resposta calma do escravo, a senhora interrogou-o de novo, e com seu tato de mulher arrancou-lhe a revelação do motivo por que tinha Lucas praticado aquela ação. Ela compreendeu perfeitamente essa anomalia do coração humano; e culpou-se a si mesma por não ter melhor domesticado esse urso amigo.

Por uma singular coincidência, a essa mesma hora era cercada a taberna do Brás, e a casa vizinha ocupada pela tia Eufrásia. O taberneiro e a adela foram conduzidos à cadeia; e os jogadores pilhados na tavolagem levados a palácio, onde o governador os repreendeu e fintou. D. Diogo, ao fato das maquinações do taberneiro e da parte que ele tinha no contrabando reiterado da costa, resolvera dar um exemplo de severidade; e mandara naquela noite executar a diligência anteriormente planejada.

Chegara entretanto a casa o Doutor Vaz Caminha e se acomodara, quando por volta da madrugada foi despertado em sobressalto. Chamavam-no a toda a pressa à casa de D. Mência que se finara durante a noite. A boa velhinha não andava boa desde a partida de Estácio; a conta de seus longos dias estava a esgotar-se. Recolheu à câmera e adormeceu mesmo vestida; a aia depois de muito cochilo, admirada que não a chamasse para tirar-lhe as roupas, entrou na câmera. D. Mência adormecera para sempre.

O advogado deu as providências que o caso exigia; e tornou com o coração cortado. D. Mência era dessas criaturas modestas que tomam bem pouco lugar na vida, a ponto de quase não se sentir o vácuo que elas deixam. Mas para Vaz Caminha ela representava a única família de Estácio. Parecia-lhe pois que seu afilhado ainda ia ficar mais só e mais órfão no mundo.

Em casa encontrou o advogado um vulto embuçado que o esperava na porta. Às primeiras palavras o reconheceu logo, e levou ao cartório. Era D. Fernando de Ataíde, que trocara as roupas de cavalheiro, pelo traje negro e severo dos eclesiásticos. O advogado estranhou essa mudança e ainda mais os surcos profundos que a dor cavava nas feições do mancebo.

Segunda vez lamentou Vaz Caminha a dura necessidade que o obrigara a assolar aquela existência.

— Vossa conjetura foi bem acertada, doutor. Minha... A menina de que fala o testamento do Sr. D. João de Ataíde é com efeito a alfeloeira... a Joaninha.

— Como o soubestes?

— Não foi sem custo. A princípio procurei tirar dela mesma o segredo ou ao menos alguma particularidade do seu nascimento; mas ela nada sabe, senão que a enjeitaram na rua, onde a parteira, sua madrinha, a achou. Voltei-me então para a velha, e embora se mostrasse ela sabedora de alguma coisa, ocultava por tal modo que era impossível nada colher.

— Creio bem; pois há tempos o tentei debalde.

— Afinal, vendo que nada obtinha, recorri ao meio extremo. Disse quem era, e acrescentei que buscava minha irmã para beneficiá-la, como me encomendara à sua hora derradeira minha mãe. Se, pois, me ela negasse, se oporia à felicidade da moça.

— Rendeu-se ela a estas razões?

— Tudo confessou. Chamada alta noite para assistir a uma dama, recebera aquela menina com uma soma, jurando à sua mãe que não revelaria jamais o que vira e ouvira. Então a velha espalhara a fábula, que corre entre o povo, de a ter achado na rua envolta em uma toalha.

— Sabia ela, porém, quem fosse a mãe da Joaninha?

— Ignorava; mas a toalha que ainda guarda trazia a marca das duas letras — V. A.

— Violante de Ataíde!

— Mísera mãe.

E o mancebo enxugou os olhos rasos de pranto.

— Que intenções foram as vossas procedendo a essas pesquisas?

— Ides saber, doutor, pois esse é o motivo que me traz.

Ele tirou do peito do gibão um maço de papéis.

— Aqui estão os títulos de quanto me coube em herança, e bem assim a cessão que faço de tudo a quem de direito pertence. Assim cumprido fica o testamento do Sr. D. João de Ataíde!

— Mas, Sr. D. Fernando, considerai...

— D. Fernando já não existe; este que aqui vedes, se o foi algum dia, não o é mais; e breve receberá o nome que melhor lhe quadra. Chamar-se-á João da Dor.

— Acaso pretendeis?

— É uma resolução inabalável e já em execução; portanto qualquer insistência vossa é inútil. Saído da casa de Deus para cumprir este dever, volvo ao abrigo onde me escondi da desgraça do mundo.

Vaz Caminha ergueu-se comovido.

— Dizei-me... Quando vos afundais na vossa legítima dor, não achais um pensamento de aversão por aquele que foi causa involuntária dela?

— Seguro-vos que não!... Em princípio senti por vós ódio entranhado; parecia-me que todo o mal, e não só o conhecimento dele, me vinha de vós! Depois não; agradeci o ter-me arrancado à falsa posição em que me achava, e na qual podia a fatalidade surpreender-me ainda mais cruelmente.

— Então na sinceridade de vossa alma me perdoastes?

— Se a ele perdoei!...

— Sois um santo, senhor! Deus vós abençoará em vosso sacrifício.

Retirou-se D. Fernando embuçado como viera. Vaz Caminha mandou logo sem mais detença chamar à casa a alfeloeira. Era aquele um encargo que lhe pesava demasiado e carecia de desempenhá-lo imediatamente.

Joaninha chegou sempre esperta e feiticeira, apesar das saudades que curtia com a ausência de Gil. Ouvindo de Vaz Caminha que estava rica de repente e possuidora de avultada fazenda, ela ergueu os ombros com desdém:

— E de que me serve isto agora? perguntou ao advogado, surpreso de seu desinteresse.

No fundo d'alma murmurou:

— Se com esses haveres pudesse eu comprar mais três anos por cima da idade de Gil, para que soubesse ele o que é amor!...

— Rapariga, disse-lhe Vaz Caminha, a vossa pergunta é de ânimo desinteressado, mas ignorante. Quando Deus confia de nós uma porção de fazenda, não é para que a usemos só em nosso proveito, mas para a distribuirmos com os necessitados.

— Sou uma cabeça tonta! Muita razão tendes, sr. licenciado. Ora pois, do que me chega assim de repente, ponde uma parte para aquela que me serviu de mãe; outra para uma pessoinha que eu cá sei; e terceira para distribuir em caldo na portaria dos conventos!

— Já achastes um préstimo, e louvável, à riqueza. Cuidareis disso com mais vagar; haveis de buscar uma pessoa segura que se encarregue de vossos negócios!

— Quem melhor do que vós?...

— Não o poderei, filha; sois menor e careceis um tutor. O que posso é requerer para que vos deem um capaz e inteiro. Conheceis mestre Bartolomeu Pires?

— O mestre de capela? Quem o não conhece!

— Vos serve ele?

— Qualquer, dês que o indicardes.

Joaninha foi-se afinal muito satisfeita, pensando no prazer que sentia a gente em fazer bem, e lembrando-se da alegria que Gil havia de ter, quando se visse dono de um bonito ginete, e alindado com finas roupas.

Ao lusco-fusco desse mesmo dia um féretro saía da modesta casa de Estácio, e levava ao seu último jazigo a finada D. Mência. Seguiam-no duas pessoas somente, Vaz Caminha e mestre Bartolomeu Pires.