As Minas de Prata/III/XX

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As Minas de Prata por José de Alencar
Estrangulação de uma derradeira esperança


Vamos caminho do Colégio.

Entrada a larga portaria, saudemos o nédio e pachorrento Irmão Bernardo; depois subindo a escadaria de pedra e enfiando o longo corredor, chegaremos à cela do P. Molina.

Ali está o visitador, com os cotovelos fincados na banca de jacarandá, as mãos espalmadas na larga fronte pensativa e o olhar vivo coando pela fresta dos negros cílios abatidos.

Medita o grande pensador.

Como a fênix, seu espírito renasce das próprias cinzas. Derrocada sua obra pela súbita intervenção de João Fogaça, o visitador obrigado a ceder à força, buscara asilo na cidade da Bahia. Salvara o roteiro, é certo; mas este agora estava reduzido a uma simples curiosidade.

De feito não só possuía Estácio a cópia dele, bastante para o guiar à jazida oculta das minas de prata; mas com a ideia que tivera o mancebo de apagar os vestígios e destruir os marcos deixados pelo pai, ficara sem nenhuma serventia o antigo manuscrito.

Era já impossível evitar que Estácio fizesse a descoberta das minas; e pois ainda que o jesuíta, ajudado da informação do P. Manuel Soares e de alguma indicação do roteiro, viesse ao cabo da empresa, não lograria o desejado efeito. O mancebo com certeza se havia de apresentar ao governador, ou mesmo a El-Rei com sua descoberta; e então mal iriam os negócios da Companhia.

Estácio era pois no momento atual, como fora em princípio, antes da posse do roteiro, o eixo da empresa; era necessário amoldá-lo; se de todo não coubesse isso no possível, então forçoso seria suprimi-lo, como um obstáculo. Ainda não tinha o espírito do visitador encarado esta segunda face do plano; por enquanto só trabalhava no primeiro desígnio.

Conhecia bem o jesuíta ao mancebo; já por diversas vezes, e sobre todas no Presídio de Santa Luzia, tomara o pulso àquele ânimo vigoroso. A luta engrandecia essa personalidade já de si opulenta, e lhe imprimia uma espécie de eletricidade moral. Não era que tal campeão atemorizasse o visitador; sentia-se ele com forças para o abater; mas destruir é uma coisa e outra mui diversa o vergar.

O coração de Estácio, como o cerne do robusto madeiro, só era flexível ao calor de um fogo doce que o embrandecesse. Grande chama podia abrasá-lo; não o inclinava. Resolveu pois o visitador tocar aquela alma pela generosidade e simpatia.

Trabalhar pela felicidade do mancebo, realizar as radiantes esperanças de seu amor, obter-lhe o impossível, a mão da nobre e formosa D. Inês, e esquivar-se na sombra, porém de modo que o mancebo lobrigasse o vulto de seu generoso protetor; essa foi a engenhosa traça combinada pelo jesuíta.

Consequência do plano assentado, era já a confissão de D. Ismênia, à qual sua palavra poderosa havia inspirado a força de pleitear em face do marido a causa de Estácio. Era também a carta de Lopo de Velasco a D. Francisco, notada e escrita do próprio punho do visitador.

É na seguinte manhã que achamos o P. Molina em atitude pensativa junto à banca. A maior porção de seu espírito se engolfa na meditação, novamente passando e repassando as probabilidades e circunstâncias de seus desígnios. Um raio porém de exuberante inteligência destaca, e filtrando no olhar, discorre em torno alerta e vivo. Admirável duplicidade do espírito, que é dom raro das organizações escolhidas.

Não era fácil de perceber o que assim distraía fora uma fração da mente recolhida do jesuíta. O aposento estava deserto, como a rua, para onde abria a janela do cubículo; nem um rumor, nem um vulto cruzava no espaço cheio de silêncio e claridade. Aos olhos do P. Molina porém não escapou, longe, na penumbra das folhas de um alto coqueiro de vizinho horto, certa mancha mais escura.

Desde sua chegada à Bahia percebera o frade que João Fogaça lhe tecia uma rede em torno. A cada instante ele sentia a vigilância do capitão de mato, que o envolvia como um ambiente. Foi necessário que o jesuíta se tivesse constantemente sobre as guardas para frustrar os esforços do adversário.

O capitão de mato tomara em ponto de honra o restituir a Estácio o roteiro, e desforrar-se do logro que lhe pregara Molina.

Chegado à Bahia, foi-se à casa de Mariquinhas, sua mulher, a quem abraçou:

— Afinal, eis-vos de volta, João! exclamou a moça.

— Para vós, não, Mariquinhas, ainda não voltei!

— Que dizeis com isto, que vos não entendo?

— Enquanto me não desempenhar cá de um negócio de honra, que me traz zonzo, não poderei entregar-me a vós, como tanto anseio.

— E por que então?

— Porque não prestarei para nada mais, se não for querer-vos com todas as forças de minha alma. Já sois minha mulher, que era ponto da minha quizília; o mais não tarda, fiai de mim.

E pôs-se a campo o forasteiro, com seus três sentidos. Quanta finura e astúcia cabiam no possível, foram empregadas, mas sem êxito. A sagacidade provada do jesuíta burlava os melhores planos. Afinal Fogaça, que não primava pela paciência, fatigou-se da luta demorada, e assentou de desfechar o golpe. Dias antes enviou ao visitador um recado escrito, notável pelo laconismo e vigor do estilo.

Dizia ele:


Se em uma semana, contada de hoje, segunda-feira, o papel que sabeis não estiver em minha mão, ou porque o haja eu tomado, ou porque mo tenhais restituído, juro-vos à fé de João Fogaça que vos arrependereis das manhas novas e velhas.

Tende-vos por advertido.


Sabia Molina que o capitão de mato era homem capaz de maiores façanhas, e pois não deixou de sentir certo temor lendo a missiva. Contudo fora vã para ele a ameaça, se ao mesmo tempo não considerasse na inutilidade do roteiro. Convinhalhe acabar com uma luta que desviava a sua atenção de outro ponto; mas por timbre assentou de não o fazer senão no último dia, que era esse em que estamos.

É quase supérfluo advertir, para quem já conhece Molina, que não se resolvera a abrir mão do velho manuscrito, sem a plena certeza de não ocultar ele algum segredo recôndito. Repassou-o dos mais poderosos agentes químicos, para o caso de haver entre a escritura aparente alguma simpática e invisível; estudou a forma, o tamanho e até as dobras do pergaminho. Quando se convenceu que toda a alma desse espojo a tinha ele influído em sua inteligência, então decidiu-se a restituí-lo.

Saíra entanto o visitador da longa meditação, e tomando a pena, escreveu em um quarto de papel estas palavras: — “O Senhor Fogaça pode vir”. — Embrulhado o escrito em uma moeda, achegou-se da janela e o arremessou na rua. O coqueiro ao longe estremeceu de leve, e uma sombra rápida cortara os ares ao longo da haste, como se um coco do cacho houvera caído. Molina voltou o rosto para o mar, simulando contemplar a barra; quando retrocedeu a vista o papel havia desaparecido, sem que ele soubesse por qual maneira isso fora.

Nesse instante arranharam à porta; pela fresta, que abriu o visitador, apareceu o rosto prazenteiro e insinuante do nosso amigo Fernão Cardim:

— Como V. Reverendíssima recomendou que, em vindo o Doutor Vaz, o avisassem...

— É ele chegado, padre provincial?

— Ainda não; mas vi-o atravessar, e se me não engano, já o ouço que sobe.

— Faça-me a graça, padre provincial, de o dirigir para cá.

Com pouco entrou Vaz Caminha, cada vez mais vergado pelos anos e acabrunhado ao peso de sua alma. Depois da usual urbanidade, começou o jesuíta:

— Estava ansioso por ver-vos, doutor, e mais por dar-vos certa nova que não esperais.

— As boas já as não espero, padre-mestre; às más porém estou por demais acostumado.

— Ótima é, e senão julgareis. Roto é o consórcio projetado do comendador de São Ivo com a Sr.a D. Inês.

— Ah! é o segundo!

— Com o terceiro parece que assim não acontecerá!

— Pois já há outro ajustado?

— Ainda não, mas breve; tudo caminha para aí.

— E com quem, se vos praz?

— A ser verdade o que sei, e o sei de boa fonte, será com vosso afilhado.

— Estácio?

— Estácio Correia, sim, a quem a Sr.a D. Ismênia tem no melhor conceito, pois o quer para esposo de sua filha.

— É possível, P. Molina?

— Sabei mais então que isto mesmo já o anunciou a seu marido em tom decidido; e bem diz o rifão que “a mulher quando teima é pior que a reima”.

— Outro anexim agora me lembra, padre-mestre: “Quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Por qual bom padroeiro alcançaria Estácio, desvalido e só, tanto favor?

O advogado pusera no rosto do frade olhos que lhe traspassavam o íntimo.

— Pela graça do Senhor, que é o melhor patrono dos infelizes.

Molina fez uma pausa:

— Doutor Vaz Caminha, já não tenho que esconder à vossa perspicácia. A luta em que andei empenhado cessou. Estácio a esta hora está senhor das minas de prata e possuidor de um novo roteiro escrito por indicação vossa.

— Me emprestais muita argúcia, padre-mestre!

— Ainda estais em guarda?... Esperai pelo resto. Minha incumbência, vindo ao Brasil, foi descobrir o roteiro de Robério Dias; outra não tive; levei-a ao cabo. A Providência transtornou os desígnios do vigário-geral da Companhia, inutilizando o manuscrito: vou pois restituí-lo a seu dono, pondo-o nas mãos de seu procurador.

— Tal não sou eu, já vo-lo disse de outra feita; amigo somente e mestre; nada tenho com os negócios de Estácio.

O advogado era levado a recusar, por uma repugnância espontânea, semelhante à do paladar que rejeita uma substância amarga. Essa restituição ocultava decerto uma insídia que ele não podia logo perscrutar, mas sentia insinuar-se.

— Nada se vos pode ocultar, doutor. Desconfiais ainda da restituição que vou fazer-vos? Pois então sabei que não a faço de boa vontade, mas forçado. Lede isto.

Era o bilhete do Fogaça. Em comentário a ele contou o P. Molina como lhe servira o capitão de mato de instrumento para subtrair o roteiro.

— Não quero chamar sobre a cabeça de inocentes os males de feito só meu; por isso estou decidido a abrir mão do papel. Pelo interesse de Estácio pensava eu que não convinha pôr em mão de terceiro um segredo de tanta importância, pois sem dúvida não esquecestes que o roteiro de Robério, se agora nada vale como guia, vale muito como prova da existência das minas. E caso tal boato chegue a El-Rei, ou mesmo aos governadores por ele postos nos Estados do Brasil...

— Há de chegar, sem dúvida, P. Molina; porque esse é o caminho direito, a estrada real; e Estácio, se me ouviu, nunca em sua vida trilhará outra.

— Bem vos conheço, Senhor Vaz Caminha; sois o homem da justiça, vir probus. Mas, entre nós, podeis afirmar que a justiça esteja sempre na seda do trono? Creio eu que as mais das vezes anda a rojo no estrado, onde a calcam os reis com as alparcatas de veludo. Lembrai vosso amigo Robério Dias, condenado como traidor...

— É sempre falível o juízo dos homens; mas há o remédio da reparação.

— Tardio, quando não é vão.

— Embora; o mundo não foi talhado à nossa vontade. Julguem os ministros da lei; os ministros da razão, como eu, pleiteiam; os da religião, como vós, P. Mestre, consolam.

— Não quero insistir, porque iria longe e fora de nosso sujeito a controvérsia. Siga Estácio a estrada real que vai a Aranjuez; mas vede que é essa a que mais infestam os salteadores. Por atalhos escapa-se à recova; no caminho trilhado há sempre emboscadas. Ofereci a Estácio em troca do segredo das minas de prata o mesmo que desejais para ele, e mais do que nunca há de obter; a reabilitação da memória de seu pai, largos haveres, fidalguia, e por cima a felicidade de possuir a mulher amada. Não aceitou; é negócio findo; restituo o que lhe pertence e desejo alcance quanto quis eu dar, ou ainda mais.

Bem compreendeu Vaz Caminha a força do argumento. De feito Estácio, apresentando-se com o roteiro, não obteria de El-Rei as vantagens, que um jogador da força da Companhia podia tirar da partida.

— Vejo uma dificuldade só, mas grande, no vosso plano. Se a Companhia pretende o segredo das minas é para as explorar às ocultas; e nesse caso como se reabilitaria a memória de Robério?

— E não pudera a Companhia alcançar da Coroa o reconhecimento de seu domínio?... Mal a conheceis, doutor.

O visitador ergueu-se e foi à porta espiar pelo corredor.

— Estácio breve estará de volta. Falai-lhe, P. Mestre. Quanto a mim, não entendo de tais coisas.

— Já desisti da empresa, Sr. Vaz Caminha. Em poucos dias conto regressar ao Reino.

Dizendo estas palavras, o jesuíta espreitava o corredor, como à espera de alguém. Ao cabo de instantes ouviram-se passos, e Fogaça apareceu introduzido pelo leigo cubiculário.

— Abancai-vos, sr. capitão; estávamos unicamente à vossa espera para concluir o negócio que sabeis. Resolvi fazer a restituição do papel pertencente a Estácio Correia. Este papel, vós o exigis de mim; mas tendes para isto poderes de seu dono?

— Não tenho poderes alguns, padre-mestre. Mas jurei ao Sr. Estácio, e a mim por estas barbas, entregar-lhe o que, por minha simplicidade e astúcia vossa, ele perdeu.

— Ah! se não tendes poderes, então permitireis que ponha o manuscrito em mão do Sr. Vaz Caminha aqui presente, como pessoa conjunta de Estácio, seu padrinho e mestre, de mim conhecido. Com ele vos havereis.

— Está direito, disse João Fogaça; somente como há morrer e viver, o sr. doutor me passará uma clareza disto para que eu me quite com o Sr. Estácio.

— Como vos parecer! respondeu o advogado.

O visitador então levantou uma ponta da pesada banca e tirou um chumaço de papel sujo e pulvurento que estava calçando a sapata do pé torneado; aberto o invólucro machucado, apareceu o roteiro.

Fogaça atirou ao ar em direção ao coqueiro um murro formidável:

— Bruto! Tão à mostra e não o vias!...

Molina riu-se; o advogado observou:

— Nada mais escondido, capitão, do que o argueiro que nos entra pelos olhos.

— Aqui tendes o roteiro, doutor!

— Certo que o não receberei assim: lacrai-o e aponde-lhe os selos para que o guarde eu.

— Primeiro certificai-vos da identidade. Reconheceis a letra de Robério?

— Vejo que é a própria.

Logo após se apartaram dali, o advogado levando o volume lacrado, e o capitão de mato com a devida clareza.

Só na cela, Molina agitou o corpo, como um homem que arremessa de si o torpor; de feito acabava de pôr o remate ao seu plano; podia libertar o espírito dele, e esperar tranquilo o desenlace. Mas não era o jesuíta homem que estivesse unicamente a uma só amarra. Estácio podia burlar sua esperança, e em vez de aceitar o pacto oferecido, insistir em revelar o segredo a El-Rei.

Debruçado agora à banca escreve o frade em um maço de pergaminho. Copia a suma do roteiro de Robério Dias, dando-lhe melhor estilo e imitando a letra de um antigo padre, filial do Colégio do Salvador, e ainda companheiro de Anchieta. Entre os alfarrábios da casa deixara ele autógrafos, dos quais aprendeu o visitador a copiar-lhe o caráter da letra.

O tal padre havia apostolado nos sertões de Jacobina, muito antes que o Moribeca por lá andasse. Com um roteiro de sua letra, envelhecido convenientemente por meios que fornecia a ciência, a Companhia disputaria o direito às minas, fundada na prioridade da descoberta. A prova que Estácio podia opor a isto, os marcos de Robério, ele a acabava de destruir.

O trabalho do visitador foi interrompido pelo leigo: trazia-lhe recado de uma dama que o esperava no confessionário. Vendo no corredor a cara embiocada da Brásia, adivinhou Molina quem a mandava:

— Dulce!

Esse nome murmurou-lhe no fundo d'alma. Seu primeiro pensamento foi subtrair-se ao pedido sob qualquer pretexto; mas viu no passo da dama uma luta que surgia, e teve por melhor desfechar logo o golpe decisivo. Seu tempo era precioso.

— Dizei à dona que desço já.

Dulce ao receber a resposta sobressaltou-se, como quem a não esperava; logo despediu para casa a aia. Aproximando-se do confessionário, que ficava mais na sombra, esperou trêmula e palpitante.

Veio Molina. Avançou lento e severo; a um aceno seu Dulce ajoelhou:

— Aqui estou a vossos pés, senhor; mas não para me confessar!...

— A que vindes então, pecadora, e por qual razão me dais um mundano tratamento, que não é aceito na casa de Deus por seus ministros?

— Vim para vos suplicar!

— Suplicai ao Onipotente!

— E a vós!... Por piedade restituí-me aquele que perdi e era o meu único bem e felicidade!...

— Sois então muito desgraçada? murmurou o frade com um ligeiro estremecimento na voz.

— Ah! exclamou Dulce travando-lhe da mão. Tendes compaixão de mim!... Obrigada!

— Deus ensinou a caridade! respondeu o frade esquivando a mão. Mas que posso eu em vosso bem?

A dama, através das grades do confessionário, pôs nele uns olhos cheios de exprobrações:

— Ainda pretendeis negar-vos à minha lembrança, que vos reconhece, Vilar, e vos está vendo como no dia em que o bom cura de Palos nos uniu para sempre? Oh! não useis de tamanha crueldade, como já uma vez fizestes. Desprezai-me embora, expulsai-me de vossa presença, mas dizei que sois o mesmo, o mesmo que eu amei, e ainda amo como no primeiro dia.

— Estais presa de uma alucinação, mulher! Por quem me tomais vós, que vos não compreendo? replicou o frade friamente.

— Sois meu marido!... Embalde tentareis fugir-me!

— Enlouqueceu a mísera! disse o P. Molina erguendo olhos ao céu.

— Não enlouqueci, não, apesar dos tormentos que por vós padeci durante quinze anos!... Meu amor, que me trouxe o martírio, salvou-me!

— Em suma que quereis de mim?

— É preciso que vo-lo repita?... Venho requerer-vos como meu marido que sois e me deveis amparo e proteção!

— Vejo que persistis em vossa loucura. Já não tenho que fazer aqui.

Dulce ergueu-se de um ímpeto e esbarrou a saída do frade:

— Esperai, que ainda não acabei!... Se não atenderdes ao justo pedido da mulher que abandonastes... Sabei que sou rica, e tenho os meios de coagir-vos.

— Ah! e quais são esses meios? disse o visitador sorrindo.

— Escarneceis?... Foi o melhor letrado desta terra, o Dr. Vaz Caminha, quem me aconselhou. Irei a Roma lançar-me aos pés do Santo Padre e ele me fará justiça!

— Que obtereis com isso?

— Ignorais?

— Pois vos pergunto!

— Oh! bem o sabeis!... Obterei que sejam anulados os votos, que fizestes, contra o sacramento...

— Como provareis que o frade que acusais seja realmente vosso marido?

— Não tenho eu a prova? disse Dulce tirando do seio a certidão.

— Tendes a prova de vosso casamento com um tal Vilar. Mas decerto não podereis provar que esse Vilar seja o P. Gusmão de Molina!

— Eu correrei toda a Espanha, e derramarei rios de dinheiro para o conseguir.

— Duvido muito!... Mas dado que chegueis a esse resultado, pensais ter ganho alguma coisa?...

— Oh! decerto!

— Não tereis ganho coisa alguma. O Santo Padre nada poderá em vosso favor.

— Vós me enganais!... O doutor me assegurou!

— Vosso pudor escondeu naturalmente do advogado uma circunstância delicada. Se lhe houvésseis dito que vosso noivo se apartara alguns minutos depois da cerimônia, deixando-vos donzela e casta...

— Que tem essa circunstância?

— O Dr. Vaz Caminha vos dissera que o matrimônio estava roto pelo voto posterior; e que já não tínheis marido.

Dulce ficou fulminada. O frade não se aproveitou de seu pasmo para retirar-se; ao contrário cruzou os braços, e a envolveu em seu olhar sombrio e pesado. A dama afinal arrastou-se outra vez de joelhos aos pés do sacerdote:

— Perdão!... Não quis ameaçar-vos! Não tenho a força, nem o direito de fazê-lo! Ainda que o tivesse, não recorreria a nenhuma justiça, nem da terra, nem do céu! Quero tudo dever à vossa generosidade e compaixão! Tende piedade desta mísera! Uma esmola de esperança, que vos ela suplica, não lhe recuseis!... Já não sois meu! A Igreja me roubou para si o esposo que me deu!... Eu me resignarei à desventura; porém ao menos o consolo de ver-vos, de vir alguma vez depositar a vossos pés neste confessionário, não meus pecados, pois outro não tenho senão o de amar-vos; mas as minhas tristezas e aflições. Que vos custa isto? Podeis ser fiel à vossa nova esposa, sem condenar a primeira ao martírio e ao desespero!...

Não foram estas as únicas lamentações que exalou a alma da desventurada, cheia a transbordar dos sofrimentos de tantos anos. Quando a palavra estancou no lábio seco e árido da formosa dama, as lágrimas rebentaram dos olhos. Opressa, ofegante, ela apoiou a fronte ao confessionário para não cair no pavimento.

O padre, que a ouvira todo o tempo taciturno e recolto, acurvou então o elevado talhe, e deixando cair na alma da mísera algumas palavras surdas, desapareceu:

— Vosso esposo, mísera!... Só no céu!...

Em princípio esmagada por esta cruel palavra, a dama ergueu-se com esforço sobre os joelhos, e pôs no altar uns olhos ardentes:

— Deus meu!... Ele assim o quer.