As Minas de Prata/III/XXI

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As Minas de Prata por José de Alencar
Onde o acaso representa seu papel de bufo na tragédia humana


Na tarde em que D. Francisco de Aguilar ameaçou a filha com sua eterna maldição, Ávila, ao partir daí, se encaminhou para a casa de D. Luísa de Paiva.

Ia visitar Elvira, a quem não vira depois de quatro dias, atrapalhado como andava com a sua festa e o desafio que se lhe seguiu.

A tarde estava a findar; restavam apenas alguns instantes de crepúsculo.

Elvira, recostada em um coxim defronte do balcão, contemplava o pôr do sol. Nos arrebóis que cambiavam cores às nuvens até que de todo se desvaneciam na sombra lívida, figurava ela os vários afetos de sua alma; também os sonhos vivaces e as esperanças douradas se apagavam na palidez de uma acerba recordação.

A donzela chegara ao termo de sua convalescença, e contudo nem a rosa voltara à face, nem o sorriso ao lábio; estava branca e melancólica, como um lírio partido.

Vendo Ávila, que chegava, seu belo semblante cobriu-se de uma expressão dolorosa.

— Escusai-me, Elvira, por não ter vindo estes últimos dias; razão maior...

— Não careceis de justificar-vos, Cristóvão. Não pudestes vir... Não me queixo, menos vos acuso.

— Tamanha indulgência, senhora, bem se parece com indiferença.

A donzela dirigiu ao céu os olhos e um sorriso sublime de resignação.

Houve uma pausa. Estes corações, cheios como estavam a transbordar, se refrangiam ao toque um do outro.

— Estais de todo convalescida, Elvira. Não credes que já seria tempo de fixarmos o prazo?

— Qual prazo, Cristóvão?

— Para o nosso recebimento.

— Ah!

— Não me respondeis?

Elvira tirou os olhos do chão e levou-os ao semblante do cavalheiro, que estremeceu até o fundo d'alma, recebendo o choque daqueles dois raios límpidos e cintilantes:

— Respondei-me vós primeiro. Ainda me quereis, Cristóvão?

— Duvidais de meus sentimentos, Elvira! Eles não mudaram.

— Estais bem certo disto?

— Que singular ideia é a vossa!

— Pois, Cristóvão, respondei-me pelas mesmas, não por outras palavras. Pergunto-vos eu se ainda me quereis?

— Quero-vos, Elvira!

A donzela sorriu amargamente.

— Por que este coração, que ao de longe conhece o rumor de vossos passos, e vos pressente antes que vos vejam os olhos, por que ficou ele agora frio e mudo ouvindo-vos?... Esta não é a voz com que outrora me dizíeis as mesmas palavras!... Oh! não vos iludis, Cristóvão, já não sois o mesmo!

— Não estou aqui a vossos pés, senhora?

— O que vos tem junto de mim, não é mais o amor, não; é a honra. O coração ardente e extremoso que outrora por mim se estremecia, morreu; mas o coração grande e generoso, que eu admirei, este é o que me resta. Sois e sereis sempre o mesmo cavalheiro nobre e leal, Cristóvão; em vossa consciência vos julgais apesar de tudo obrigado pelos vossos juramentos, porém eu vos absolvo deles. Rejeito o sacrifício que me quereis fazer de vossa felicidade. Se alguém deve sofrer de um erro, que foi meu e só meu, não há de ser o inocente!

— O que nas minhas ações pode ter feito nascer em vosso espírito semelhantes suspeitas? balbuciou Ávila.

Elvira travou-lhe da mão e cerrou-a com força:

— Em vossa consciência, Cristóvão, dizei-me: sois feliz hoje como fostes nos tempos de nosso malfadado amor?...

Cristóvão emudeceu; sua alma soluçou no peito, mas não veio aos lábios.

— Vedes?... Não sabe mentir vossa boca!... Felicidade, vos não posso dar mais neste mundo!

O cavalheiro curvou a fronte; as lágrimas rebentavam de seus olhos e banhavam-lhe as faces. Como a linfa que borbulha do bambu quando o rompem, era esse o pranto de uma alma dilacerada.

Elvira não chorava; já seus olhos estavam estanques de lágrimas e seu coração mirrado e seco da dor. Ela olhava tristemente o mancebo; e o pranto que desfiava de suas pálpebras, cada gota que tombava, era um resquício do extinto amor a transudar do nobre coração que a adorara outrora!

Passado um longo e silencioso momento, Cristóvão despediu-se de Elvira. Não se disse nessa despedida mais palavra do que costumavam nos dias passados; entretanto quando as duas mãos cerradas um instante soltaram-se uma da outra, ambas estas criaturas sentiram partir-se o último fio que ainda ligava suas almas.

Ávila, chegado a casa, ordenou que não tirassem os jaezes ao cavalo, e subiu ao gabinete para escrever. A carta era para Elvira, e continha estas poucas palavras:


Tendes razão, Elvira; a mentida felicidade deste mundo já não existe para nós; porém outra melhor e eterna nos aguarda na mansão celeste. Essa fé me anima e inspira. Vou lá esperar-vos, esposa minha!


Tendo cerrado a carta que recomendou a seu escudeiro levasse a quem era dirigida, ajustou as armas e desceu ao pátio para montar de novo a cavalo e partir.

Onde ia ele àquela hora da noite, desacompanhado e sombrio?... Ia em busca da morte; ia arremessar a existência no primeiro abismo que o acaso lhe deparasse em caminho. Punha já o pé no estribo quando um cavalo a galope estacou à porta e apeou-se um cavaleiro.

Era D. Francisco. O fidalgo apertou a mão ao mancebo e levou-o até acima:

— Sei tudo, cavalheiro!

— A que aludis, D. Francisco?

— Venho de casa de D. Lopo. Compreendeis agora?

— Não; de todo não compreendo.

— O comendador referiu-me a causa do primeiro e do segundo desafio vosso. Estais enamorado louco da minha Inesita, D. Cristóvão!...

— Asseguro-vos, D. Francisco, que vos enganaram!

— Não tendes já necessidade de esconder os vossos sentimentos, amigo!... Sabeis se vos estimo; o único obstáculo que se opunha à vossa ventura, neste momento, está removido. Conseguiu vosso valor o fim a que se propôs; D. Lopo obteve de mim permissão para retirar seu pedido, e eu corri à vossa casa para ser o portador de tão boa nova e o núncio de vossa felicidade. Abraçai-me, D. Cristóvão.

O mancebo ouvira espavorido as palavras do fidalgo; mas no meio desse espasmo percebia-se a explosão do júbilo que lhe causava a nova da renúncia de D. Lopo. A mão de Inês estava outra vez livre! Esse pensamento atravessara a atonia de seu espírito, como um raio brilhante do sol filtra entre as nuvens.

O castelhano cerrou em seus braços o mancebo e prosseguiu:

— Quando ao ler a carta de D. Lopo, e depois às suas primeiras palavras, conheci que, como o primeiro, o segundo ajuste de casamento para minha filha tinha de ser desfeito, não imaginais, D. Cristóvão, qual desespero foi o meu! Tive ímpetos de esbofetear aquele homem, apesar de prostrado no leito!... Estava decidido a abandonar de uma vez esta terra, que tão fértil há sido para mim em dissabores; por estes dias deve partir a frota do Reino; ela me levaria e todos os meus a melhor porto!

— Pudestes pensar nisto, D. Francisco? Uma tão rápida viagem!... disse Cristóvão estremecendo.

— Para mim não fora rápida, senão bem demorada. De suplício cruel seria cada um dia mais que ficasse nesta terra, alvo dos remoques de toda a gente!... Felizmente tudo acabou pelo melhor e com bastante satisfação minha, pois com sinceridade vos digo, que não escolhera outro esposo para Inês, se de princípio conhecesse vossos sentimentos; e dou-me por bem pago do mal passado pelo bem que trouxe!

Cristóvão emudecera de novo; estava agora a debater-se em uma luta terrível travada entre dois opostos sentimentos.

— Abalou-vos tanto a alegre nova, que de todo vos tomou a voz? insistiu D. Francisco. Estais aí tão calado!...

— Tão inesperado foi o que me anunciastes! balbuciou Cristóvão.

— Pois deixo-vos só para que melhor vos habitueis à ventura. Amanhã vos espero cedo para que apresenteis vossa homenagem a Inês!

— Amanhã?

— Depois do que há passado deveis compreender minha impaciência! Em quinze dias estas bodas hão de estar feitas e concluídas.

Cristóvão ergueu-se resoluto:

— Uma coisa exijo eu porém.

— Qual?

— Segredo inviolável. Ninguém mais, além de nós ambos, deve saber deste consórcio até o dia em que se ele celebrar. Haveis também de sentir a necessidade dessa medida, para evitar os dizeres e murmurações da gente.

— Neste ponto ainda são conformes nossos pareceres. O sigilo será inviolável.

D. Francisco cumpriu sua promessa. O enxoval da noiva, que podia denunciar as próximas bodas, já de há muito estava preparado e só esperava pelo dia. Sedas, finas batistas e outras lençarias abertas de renda e crivo ou recamadas de mimoso lavor, enchiam os baús de cedro aromático, cobertos de charão e vindos da Índia. Os ricos adereços de diamantes, rubis e pérolas estavam encerrados nos cofres de sândalo, embutidos de ouro. Nada faltava, senão o feliz cavalheiro, para a gentil senhora de todas estas lindas galanterias.

No seguinte dia, indo a Nazaré, teve Cristóvão com Inesita este curto diálogo:

— Dizei-me, D. Inês!... Tendes alguma esperança de que D. Francisco consinta um dia em vosso casamento?...

Inesita sorriu:

— A esperança é o fôlego d'alma; quando ela se apaga, não há mais vida aí!... Mas bem sei eu que só um milagre pode obter isso de meu pai.

— E sem esse consentimento não sereis esposa do homem a quem amais?

— Na terra, não.

— Oh! se lhe quisésseis como vos ele quer!

— Tudo quanto era meu lhe dei, pois só vivo dele!... Minha pessoa não me pertence, mas a meu senhor e pai. Subtraí-la a seu poder só o pode Deus, meu criador!...

Cristóvão ficou algum tempo com os olhos fitos nela, e cheios de ardente fulgor. Depois partiu brusco e rápido.

Correram os dias.

Em Nazaré faziam-se aprestos para uma grande festa. Artesãos e mecânicos fabricavam várias obras, como arcos e pavilhões, ou renovavam as tapeçarias da casa; em frente ao edifício se dispunham as colunas que deviam servir aos vários fogos de artifício. Este desusado movimento excitou muito a curiosidade de todos; mas D. Francisco teve logo o cuidado de aplacá-la, declarando que pretendia comemorar naquele ano o seu natalício com uma festa, qual nunca se vira na Bahia.

Na véspera Cristóvão aproximou-se de Inesita. A donzela andava contente desde que se desfizera seu casamento com o comendador; essa liberdade era ao menos uma sombra de ventura para ela, que não podia ter a realidade. Não estar destinada a nenhum outro, era pertencer, embora de longe e por pensamento a Estácio. Reparou pois ela na tristeza profunda de Ávila e no tom grave com que lhe falou.

— Pondes vossa confiança em mim? perguntou-lhe o mancebo.

— Em quem a pusera, se a retirasse de vós? Não sois o irmão de Estácio, e meu portanto? Não me arrancastes já por duas vezes ao meu fatal destino?...

— Pois se depositais vossa fé neste amigo e irmão vosso, ouvi e guardai bem minhas palavras.

Ávila refletiu no que ia dizer:

— Qualquer coisa que aconteça, por mais espantosa que pareça, não vos abandone a esperança. Sereis feliz, eu o juro sob minha vida e honra.

— Mas então!... Nova desgraça me ameaça?

— Nada mais vos posso dizer!... Esperança e fé.

Chegou o dia da festa. Era já por tarde, e ainda Inesita não recebera as ordens de seu pai, que a mandara aguardar em companhia de D. Ismênia. Foi quase ao anoitecer, quando começaram de acender as luzes, que o castelhano veio buscar a donzela e levou-a pela mão até sua recâmera.

Entrando, Inesita sentiu-se gelada, como se penetrara em um túmulo. Ali estavam sobre os coxins as suas roupas de noivado, as cândidas vestes da inocência, o véu do pudor, a coroa da virgem, o ramalhete da castidade.

— Esta noite sereis conduzida ao altar, Inês! disse o fidalgo.

A donzela curvou a fronte, cruzando as mãos ao seio em atitude de mártir.

— Sabereis em tempo qual o esposo que vos escolhi!...

Que importava a Inesita quem ele fosse? Abandonou às suas aias, para que amortalhassem de galas e riquezas, um corpo morto. Quando terminaram esse triste ofício de ornar a vítima do himeneu, Inesita ergueu-se e foi direito ao trumó; sua mão buscou alguma coisa na gaveta.

— Ainda não! murmurou. Ele me disse que esperasse apesar de tudo.

Escondeu o objeto no seio. Chegou então D. Francisco, e guiou a filha pela mão às salas, cheias já de damas e cavalheiros. Para a sala do dossel arrastavam naquele instante a cadeira onde D. Ismênia, também coberta de alfaias e sedas, assistia surpresa àquela festa incompreensível. Inesita foi levada a uma cadeira ao lado de sua mãe e aí ficou estática e alheia ao que passava em torno.

De repente viu Cristóvão, trajando com aprimorada elegância, chegar-se a ela trazido por D. Francisco, e saudá-la. A presença do mancebo a reanimou; lembrara-se de suas palavras da véspera, e sentiu o calor da esperança aquecer de novo seu coração gelado. Entanto D. Francisco oferecia-lhe a mão, e seguidos pelas damas e cavalheiros desceram as escadarias e tomaram na direção da capela.

Era noite.

As estrelas recamavam o azul do céu; e as brisas do mar derramavam pelo espaço os perfumes das jaqueiras de Itaparica.

A casa de D. Francisco nadava em luz. Desde o chão até o cimo, cingiam-na coroas de fogos entrelaçadas com os festões de rosas e grinaldas de várias flores.

As árvores mostravam por entre a verde folhagem os globos multicolores das luminárias, que pareciam frutos de rubis e safiras pendentes dos ramos.

Ao longe ressoavam os arpejos da música de envolta com o alegre vozear dos convivas, cuja multidão ondeava pela calçada.

Em sinal de seu regozijo e para dar maior esplendor e animação à festa, mandara o fidalgo que se franqueassem as portas, e mais tarde se distribuíssem comezainas e vinhos ao povo; grande cópia dele, excitada pelo banquete tanto como pela curiosidade, apinhava já os arredores.

Nesse momento um cavalheiro embuçado em negro manto penetrou na pinha de gente que, derivando do edifício principal, se condensava para a asa direita, onde se via armada uma galeria formada com arcos de flores e rases das mais lindas ramagens.

Essa arcada servia de passagem entre o edifício principal e outro de menores proporções, cuja fachada gótica alvejava entre o verde-escuro dos cinamomos à luz das tochas.

O embuçado estremeceu. Esse pequeno edifício era a capela; lá estava a cruz negra a apontar para o céu, e a fumaça do incenso, que enroscava-se em espirais e subia às nuvens.

A seus ouvidos ressoavam como dobres de finado as vozes e chacotas do popular, que parlava das bodas e da formosa noiva.

— Bem me dizia o coração! murmurou o embuçado. Amanhã seria tarde.

Afagando o punho da espada, redobrou de esforços; porém a multidão era de tal modo compacta, que ainda desta vez a sua tentativa foi baldada.

Ligeira ondulação percorreu a turba de uma à outra extremidade. Era o cortejo que atravessava para a capela, e o povo que se conchegava para vê-lo passar.

A donzela movia-se automaticamente; seus olhos feridos pelas luzes das tochas, que iluminavam o altar, deslumbraram-se. Parecia-lhe que não era ela quem andava, mas a capela, aberta como uma cratera de chamas que avançava mais e mais até devorá-la. Assim achou-se aos pés do sacerdote que oficiava, e à direita de um cavalheiro, de quem apenas sentia o vulto.

Ergueu os olhos ao Cristo que dominava o altar; daí abaixou-os ao sacerdote e depois ao homem a quem iam sacrificá-la. Seus olhos cegaram-se de horror; pasma ficou e morta a pupila. O seu desposado era Cristóvão, o homem que na véspera a encorajava em seu amor, o amigo dedicado de Estácio!...

A nobre alma de Inesita condensou-se toda em um assomo de soberba indignação. Alçou o talhe para afrontar bem em face o desleal e traidor; seu lábio olímpio o fustigou com uma sílaba só:

— Vós!...

Torrente de indignação, gemidos de leoa, ondas de sarcasmo, grito de ameaça, tudo ali estava naquela voz breve e ríspida.

— Perdão! murmurou Cristóvão curvando a fronte.

Tomado de um surdo desespero, por não poder atravessar de chofre aquele muro de carne que se opunha à sua passagem, o embuçado, concentrando as forças, metera ombros à multidão, como se fora uma alavanca e foi levando-a por diante.

Entrava já o cortejo na capela, quando afinal conseguiu o desconhecido chegar à porta; nova barreira, e mais formidável pela estreiteza do lugar, se ergueu à sua passagem; porém a grande massa de povo, que vinha após, levou por diante a mó de gente que tomava a entrada; o embuçado achou-se de repente em meio da capela.

Tinha-se enchido de coragem e contudo sucumbiu diante do espetáculo que viram seus olhos alucinados.

Aos pés do deão, revestido dos hábitos episcopais, uma dama e um cavalheiro estavam ajoelhados, esperando o instante de receberem a bênção nupcial.

Na posição em que se achava não podia o desconhecido ver-lhes o rosto que tinham voltado para o altar; mas a dama, não carecia de a verem seus olhos, pois já seu coração a adivinhara.

O mancebo sorriu; seu olhar terrível correu o cortejo de brilhantes cavalheiros, à frente dos quais aparecia

no match[editar]

D. Francisco de Aguilar; a mão, que desde o princípio tinha ao peito, comprimindo as pulsações precípites do coração, abateu-a sobre o punho da espada. Já o ferro lampejava, e o pé promovera o passo ardido... Novo e mais forte abalo prostrou o valente mancebo.

Inesita volvera o semblante para fitar seu desposado. Que deslumbrante beleza!... Sua pupila negra cintilava, e desferia sobre o cavalheiro raios esplêndidos; tinha na fronte uma auréola de rainha; dos lábios fluía um sorriso fulgurante, que exaltava toda sua pessoa. O desposado parecia ao contrário esmagado pela emoção; tinha a cabeça baixa, e nem ousava erguer as vistas para a formosa noiva.

A alma do embuçado gemeu em sua aflição:

— Senhor Deus! Ela o ama.

E abandonou o punho da espada leal! Que podia ela contra tamanha desventura! Inesita o traía; tinha deixado de pertencer-lhe; já não precisava do seu amparo; nem ele tinha já o direito de perturbar a cerimônia religiosa. Seu direito agora era só um, o da vingança; não contra ela, mísera mulher, mas contra quem lha roubara. Bateu de leve na espada como se a acalentara, ou lhe recomendasse paciência; e aguardou o fim da cerimônia.

Viu impassível a bênção nupcial; era um homem morto, já sem sensibilidade para a dor; a desgraça batia nele, como o sopro da tempestade no flanco de uma rocha. Mas a mesma rocha dura e impenetrável, um dia a abala e dilacera o raio.

Assim foi ele. Ao terminar a cerimônia ergueram-se os noivos. Ele não viu, nem ouviu mais nada; quando recobrou os espíritos, estava na capela erma e apenas iluminada por algumas tochas; uma vaga lembrança do que o desacordara, tinha ficado impressa em seu espírito, como o sinal de uma queimadura recente na epiderma.

— Cristóvão!... soluçavam os ecos de sua alma! Cristóvão, meu amigo, meu irmão!

Era realmente Garcia de Ávila que se erguera dos pés do sacerdote e oferecera a mão a Inesita para voltar às salas do festim. Tinham ambos passado por diante daquele vulto estático sem nele reparar. As danças os esperavam; à sua chegada começara o baile, cujo ruído alegre derramava-se pela serenidade daquela noite de maio.

Quando o cortejo saíra da capela e após ele o popular, outro embuçado chegou à porta e examinou com atenção a figura do desconhecido; havia alguns instantes que ele o entrevira na multidão, e se pusera à busca. Encontrando-o agora, e confirmando suas suspeitas, aproximou-se lentamente.

Era João Fogaça.

O forasteiro tomou, sem proferir palavra, a mão do embuçado e apertou-a ao coração. Esse coração rude, mas leal, compreendia a dor que assolava aquela nobre alma traída. Passados alguns instantes de respeitoso silêncio, falou com voz submissa e fraca, como se receasse ofender essa dor recente e viva.

— Depois do que acabam de ver meus olhos, só esperava que chegásseis, para cumprir a palavra que vos dei, e partir-me!... O papel, que vos foi roubado, está em mãos do doutor: aqui tendes o recibo.

O embuçado tomou maquinalmente o objeto que João Fogaça lhe apresentava:

— Careceis de mim, Sr. Estácio?... Dizei-o sem medo! Tendes aqui um amigo!

— Não proferi tal nome!... De nada careço senão que me abraceis!... O contato de um coração leal como o vosso há de fazer bem a esse meu transido e morto pela mais negra perfídia.

João Fogaça apertou o embuçado em seus braços, e sentiu os olhos úmidos de lágrimas:

— Parto esta alvorada. Vou-me ao sertão com minha mulher, para não mais tornar. O que presenciei agora me enjoou do mundo. Antes quero a companhia das feras!

— Feliz quem pode, como vós, salvar dele sua felicidade, para abrigá-la longe da vista dos homens!...

Abraçaram-se de novo por despedida. João Fogaça saiu da capela e afastou-se rápido; ele tinha medo do que ia suceder, ali, naquela noite.

Entretanto corria o tempo alegre e festivo nas salas ricamente adereçadas. As danças figuradas trançavam coreias de damas e cavalheiros, que ondulavam garbosamente ao som cadente da música.

Fora, em torno ao edifício iluminado, agitava-se a chusma do popular, soltando ledos descantes e levantando brindes aos noivos; os pajens corriam de um a outro lado com tabuleiros de viandas e outras provisões, ou com canjirões e botelhas, distribuindo a eito comezainas e bebidas.

Duas pessoas unicamente, e eram os heróis da festa, não tomavam parte no geral regozijo.

Inesita estava ansiada; dir-se-ia que esperava com impaciência uma nova que tardava. Contemplando-a, percebia-se a violência que ela empregava para reter dentro de si uma alma que esforçava por irromper e vazar-se; mas não obstante a sua resistência de vez em quando desprendiam-se chispas ardentes, que incendiavam o olhar e fulgiam no sorriso. Nunca maior paixão e mais possante cólera vulcanizou um coração de mulher.

Cristóvão estremecia de momento a momento. Volvia então os olhos em torno, como se receasse ver surgir-lhe em face um espectro medonho. Parecia que um remorso pungente o acicalava. Mas logo após a dor desse remordimento, ele conseguia dominar-se: a inquietação cedia à costumada tristeza; e sobre esta derramava-se uma doce serenidade.

Ninguém em tudo isso reparara. A impaciência da donzela e o sobressalto do cavalheiro perdiam-se nos rumores festivos do sarau.

Mas de repente um calafrio arrepiou toda aquela multidão contente e jubilosa. A voz da morte, estridente, lúgubre, atravessou o burburinho harmonioso da festa. A respiração estacou no seio da multidão; todos quedaram-se opressos, inquirindo com os olhos sobre o estranho sucesso, e sem ânimo de soltar dos lábios a palavra que o terror ali gelara.

Havia causa para a terrível comoção.

O sino da capela tocava a finados; esses dobres lentos e fúnebres traspassavam o coração como os gemidos de uma longa e cruel agonia. Ao mesmo tempo, sem que se soubesse donde, nem como viera, derramava-se pela turba uma voz sinistra: que aparecera na capela uma cova aberta, sobre a qual haviam semeado flores de laranja.

D. Francisco, sabedor do sucesso, tratou de conhecer a verdade. Eis o que se pôde saber de positivo.

Depois da celebração das núpcias a capela ficara deserta, mas iluminada ainda por algumas tochas. Sem que ninguém visse como, apareceu de repente fechada; mas isto não deu causa a reparo, senão quando a gente, que girava cerca, começou de ouvir umas pancadas, como se estivessem cavando a terra. Houve então quem se benzesse e mal agourasse daquele rumor em dia de bodas; mas o vozear da turba abafou os ecos subterrâneos; e o prazer breve esvaneceu o susto.

Decorrido algum tempo um pajem, que andava com um pichel a distribuir vinho entre os grupos, avistou junto à capela um embuçado cosido com a parede.

— Já brindastes a senhora D. Inês e seu nobre desposado, homem?

— Ainda não! respondeu-lhe uma voz surda.

— Tomai então de beber!

— Que trazeis aí?

— Ora esta! Vinho e do bom!

— Pois eu quero sangue!

O pajem recuou espavorido; porém mão de ferro travou-lhe do punho e o arrastou. Viu-se ele súbito transportado à capela; no centro estava aberta uma cova com quatro tocheiros nos cantos. O vulto embuçado mostrou-a e desapareceu; instantes depois o sino começara de tocar a finados. De terror perdeu o pajem conhecimento; recobrando os sentidos, andou esvairado a correr de um a outro lado em busca da porta, antes que acertasse com ela e pudesse escapar-se à visão horrível.

D. Francisco e Cristóvão encaminharam-se para a capela a fim de averiguar do conto, e a maior parte dos convivas os acompanhou. Não fora alucinação do pajem: a cova lá estava aberta, com os tocheiros nos cantos, e as flores de laranja em torno.

— Não passa de um mau gracejo! disse D. Francisco rindo para dissipar a terrível impressão.

Mas todos viram a lividez que lhe jaspeava o semblante, e o tremor convulsivo que dele se apoderara. A música, um instante interrompida, derramou novas torrentes de harmonia; as danças foram outra vez trançadas; fogos de artifício e invenções se queimaram para divertir os convivas; porém não foi mais possível reanimar a festa.

O gelo do túmulo pesava agora sobre a turba há pouco prazenteira e folgazã.

Contavam algumas damas uma circunstância notável. Inesita, ao saber do acontecido, não mostrara o menor susto. Estava ela ouvindo os dobres do sino com um sorriso doce, como se escutara a mais suave melodia, quando lhe vieram contar da cova aberta de fresco na capela. Voltou-se para as amigas e disse-lhes mansamente, com uma voz meiga:

— É a minha!... Fizeram bem de abri-la.

Cristóvão entrou na sala; tinha percorrido toda a capela e a quinta em busca do embuçado. Pouco depois voltou D. Francisco e os cavalheiros que procederam a igual pesquisa, ao sair da capela, acompanhados de pajens com tochas. Nada absolutamente viram de suspeito.

Eram mais de nove horas.

O cortejo, que devia conduzir os noivos a suas casas, começou a desfilar. Inesita subiu ao seu palanquim dourado, aberto em forma de uma concha, e forrado de veludos e sedas; as outras damas tinham palanquins vistosos, embora menos ricos. Cristóvão, D. Francisco e os cavalheiros montavam luzidos corcéis, custosamente ajaezados. Na frente ia a música, concertando vários toques muito alegres.

Quando chegava a procissão nupcial perto à casa de Cristóvão, iluminada em festa e adereçada para receber sua nova senhora, repararam as pessoas que iam adiante, em um vulto de mulher a atravessar a rua. Quem quer que fosse, desapareceu na porta, por entre a numerosa criadagem, ali agrupada para saudar os noivos.

A suntuosa ceia estava posta em uma sala do edifício, que formava o centro de formoso pavilhão, unido às casas de morada por uma passagem de varanda.

A longa mesa carregada de iguarias, vinhos e frutas, esperava os numerosos convivas. Cavalheiros e damas a cercaram para honrar os seus hóspedes e brindar novamente as felizes bodas.

Logo em princípio do banquete Cristóvão dirigiu-se aos seus convivas:

— Senhores, que me fizestes a mercê muito subida de acompanhar-me nesta noite de minha felicidade, tenho outra graça de maior quilate que pedir-vos; e de vossa generosidade espero não a recusareis.

— A demora é o tempo de a declarardes! respondeu D. Francisco. Fio dos senhores que todos porfiam em vos dar gosto e prazer!

— Certo! exclamaram os fidalgos. Ordenai de nós como vos aprouver.

— Empenho-me convosco, senhores meus, para que nenhum deixe esta sala do banquete antes de meia-noite passada; porque para esta hora reservo o melhor e mais apurado da festa.

— Artifícios de fogo? exclamaram uns.

— Algum baile à francesa? acudiram outros.

— Aposto eu por uma serenata!

— Vê-lo-eis, senhores!...

Cristóvão dirigiu-se a Inês:

— Permitireis, senhora, que me afaste um instante de vossa presença, pois é para mais alegre torná-la nesta vossa casa?

D. Inês pôs os olhos no seu desposado e lhe disse com uma voz profunda:

— Ide, senhor!

Ávila misturou-se entre os hóspedes, e na confusão da turba desapareceu sem que o percebessem.

Recolhido ao gabinete, Cristóvão como que arrojou de si a tristeza que o oprimia. Seu rosto agora estava mais sereno; seu lábio, se ainda não o inflorava o sorriso, também já não o confrangia o íntimo sofrer; o olhar não vagava mais perplexo e tímido pela turba, como lhe sucedera no sarau; mas fitava avante com firmeza e calma o alvo de seus pensamentos. Dir-se-ia que era a presença dos convivas que o entristecera e atormentara.

O mancebo tirou do seio um manuscrito que releu atentamente e lacrou. Isto feito, chamou seu escudeiro:

— Afonso, toma esta missiva. Quando meia-noite soar, a entregarás a D. Francisco de Aguilar na mesa do banquete, e lhe dirás de minha parte que a leia a todos.

Cristóvão atalhou as palavras com um rir franco e aberto:

— É uma alegre surpresa que preparo a todos!

Alegrou-se Afonso de ver seu amo alegre, e recebeu o lacrado.

— Depois que houveres entregado a D. Francisco, ouve-me bem: fecharás a porta que comunica o pavilhão; e a ninguém deixarás penetrar nestes aposentos.

— Farei como ordenais!

— Vai. À meia-noite em ponto!...

Saído o pajem, fechou o cavalheiro a porta, e foi sentar-se junto à mesa na cadeira de espaldar. Pôs ao lado o punhal, e afundou-se em seus pensamentos.

Um rumor o despertou.

O vulto negro do embuçado estava de pé, diante dele.

Cristóvão ergueu-se lentamente.

O manto escorregou das espáduas ao longo do corpo armado do cavalheiro negro. O sombreiro abatido ao chão por um gesto rápido, mostrou o lívido semblante de Estácio, e especialmente a fronte vasta que esmagava com o peso do seu vulcão aquele busto já vergado pela dor.

— Estácio!...

Distinguiu-se este nome no estalar do grito rouco que prorrompeu do peito de Ávila.

Os lábios de Estácio entreabriram-se; mas antes que a palavra escapasse, cerraram-lhe os dentes; ergueu lentamente o braço esquerdo, e desenvolvendo-o num gesto enérgico, apontou com o índex para o centro da sala. Cristóvão obedeceu ao senho imperioso, retrocedendo cada passo que promovia o outro.

Chegados a meio do aposento, Estácio levou a mão ao flanco e a lâmina terrível de sua espada lampejou, vibrando sinistros clarões.

Cristóvão de braços cruzados o contemplava agora imerso em tristeza profunda.

Mas um sorriso brotou nesse pélago de dores, que era sua alma, e lhe subiu aos lábios.

Desembainhou a espada.