As Mulheres de Mantilha/X

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As Mulheres de Mantilha por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo X


Depois da retirada de Angelo Maria deixou-se como esquecida na sala em sombria meditação.

A entrevista confidencial que acabava de ler com o misero mancebo que se prestava a ser instrumento cego e indigno de planos sinistros, indicava bem que um abysmo de odiento resentimento já separava o coração de Maria do de Alexandre Cardoso, se é que algum dia ella amara verdadeiramente o ajudante official da sala; mas a paixão deste pela filha de Jeronymo Lirio explicando muito, não explica bastante os sentimentos que agitavão e movião os dissimulados furores da bella cortezã.

Além dos ciumes e das apprehenções de perda de influencia que essa paixão provocava, a vaidade de Maria tinha recebido da mão de Alexandre Cardoso o golpe mais profundo e doloroso.

E' indispensavel voltar um pouco atrás para se apanhar a ponta do fio desta intriga que promette desenvolver-se.

No seculo decimo oitavo e ainda em principios do actual erão muito notaveis e curiosas as ceremonias da festa de Nossa Senhora do Rosario em diversas capitanias do Brasil e especialmente na do Rio de Janeiro.

Erão os pretos livres, emancipados, e em grande parte os escravos que tomavão á si as solemnidades da devoção de Nossa Senhora do Rosario, e os senhores dos escravos devotos concorrião por elles com elevadas quantias.

Os principaes festeiros tomavão o titulo de rei e rainha, e se apresentavão na igreja trajando vestidos magnificos e com signaes e apparato de realeza, tendo côrte mais ou menos numerosa de principes e creados de ambos os sexos, trazendo tambem vestidos apropriados e ás vezes ricamente extravagantes.

Acabada a missa solemne de manhã, e o Te-Deum ao anoitecer, o rei e a rainha de Nossa Senhora do Rosario com toda a sua corte dançavão pelas ruas ou em tablados horas inteiras as suas danças d'Africa, algumas das quaes já modificadas pela influencia dos costumes da colonia-portugueza da America e sempre ao som dos seus rudes instrumentos especiaes.

Á parte o ridiculo da comica realeza que se misturava assim com o divino culto, era pelo menos divertido aquelle espectaculo que os pretos davão nas ruas, e tornava-se notavel a despeza que fazião os senhores para vestir com riqueza e luxo os seus escravos que devião ser principes ou creados e principalmente rei e rainha da festa de Nossa Senhora do Rosario.

Em 1765 a festa foi brilhante e ostentosa na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, cujos habitantes, terminadas na igreja do Rosario as agradas solemnidades, acudirão em massa ao campo do mesmo nome ainda pouco povoado para assistir ás danças e gozar a illuminação.

Foi na noite desse dia que Alexandre Cardoso vio pela primeira vez a familia de Jeronymo Lirio, sentindo-se arrebatado na contemplação da belleza de Ignez.

Ou porque houvese notado esse arrebatamento ou por outro qualquer motivo, Maria retirara-se cedo do campo do Rosario, onde ostentara formosura e esplendido luxo.

As onze horas da noite as danças tinhão terminado; ia porém começar o fogo de artificio e a multidão se augmentava ainda.

Em algumas barracas improvisadas muitas familias ceiavão alegremente e em uma casa de um só pavimento porém espaçosa e transformada nesse dia era casa de pasto. Alexandre Cardoso e uns vinte officiaes dos regimentos velho e novo dominavão absolutamente: raros paisanos, e esses amigos dos officiaes ali se achavão; mas em compensação abundavão na sala immensa alegres moças que fazião tolerar uma duzia de mulheres de mantilha, sem duvida velhas mães ou parentas que as acompanhavão.

Desde que se respeitava a mantilha, a mulher que a trazia, guardava com facilidade o incognito: ora, os officiaes tendo em conta de velhas as amantilhadas, as deixavão em tranquillo abandono.

A cêa era abundante, embora muito trivial e mais de cem garrafas já linhão sido despejadas.

De subito virão entrar na sala e logo recuar um official do regimento novo.

— O tenente Gonçalo Pereira! gritarão uns.

— O tenente anachoreta! bradarão outros.

— Vão busca-lo preso á ordem de Baccho e Venus! exclamou Alexandre Cardoso.

Alguns officiaes sahirão e pouco depois voltarão com o tenente Gonçalo Pereira, que não quizera negar-se ao convite de camaradas, mas que, sentando-se á mesa, ceiou e bebeu com sobriedade e decencia.

As cabeças começavão a tontear.

Alexandre Cardoso bebia, e requestava uma bella e travessa morena que fizera sentar á seu lado.

A morena que bebera já tres calices de vinho principiava a tornar-se eloquente.

Alexandre Cardoso acabava de jurar-lhe amor eterno sob a condição de merecer-lhe um beijo diante da assembléa.

— Um beijo á preço de amor eterno valia a pena; mas quantos amores eternos é capaz de sentir o senhor tenente-coronel em uma noite?

A morena fallava em voz alta.

— Porque o perguntas, meu anjo?

— Porque ainda ha duas horas era um dos dous lirios que o transportava; agora sou eu que o captivo; e dentro em pouco.....

— Dentro em pouco?......

— É uma cousa que todos sabem.... dentro em pouco a formosa Maria lhe tomará contas desta noite.

E a morena, empunhando o copo exclamou:

— Viva o sultão!

Os officiaes e as moças beberão, e depois desatarão á rir.

Alexandre Cardoso tinha afogado a dignidade em vinho.

— Meu anjo, disse elle; o lirio mais novo é a mais formosa; tu porém és a mais linda e voluptuosa.... a victoria é tua.

— E Maria?...

— É um livro de historia antiga que ás vezes releio pela força do habito.

— É bella....

— E toda ella não vale os olhos que tens....palavra de honra!

— Sei que não posso comparar-me com ella! sou bonita; porém Maria é formosa....

— Toma-lhe o luxo e a riqueza, e verás que a aniquilas, eclypsando-lhe as graças! tu és um cherubim! não é, senhores?....

— Pois bem; dou-lhe um beijo, se, á seu convite, todos aqui me proclamarem mais bella, que Maria.

— Como te chamas?.... perguntou Alexandre Cardoso, enchendo pela vigesima vez o copo.

— Iduvirges.

— Viva Iduvirges mil vezes mais bella que Maria! exclamou Alexandre Cardoso.

— Viva Iduvirges mais bella que Maria! responderão quasi todos, bebendo.

— Ouviste?

— Mas aquelle senhor não bebeu, e portanto não dou-lhe o beijo; disse Iduvirges, mostrando Gonçalo Pereira.

— Tenente Gonçalo Pereira! quer estorvar-me o gozo de um beijo?....

— Não, senhor tenente-coronel; respondeu Gonçalo; beije mil vezes Iduvirges; mas eu não direi que Iduvirges é mais bella que Maria.

— Está vendo?... disse Iduvirges um pouco resentida, mas fingindo-se calma; —perdeu o beijo.

E voltando-se para Gonçalo Pereira, accrescentou:

— Obrigada, senhor tenente; pois que salvou-me da seducção.

— Que lambida é aquella Iduvirges! murmurou outra moça de iguaes costumes ao ouvido do official que lhe ficava ao lado.

— Mas eu protesto contra á injustiça de que sou victima; tornou Alexandre Cardoso com palavra já difficil pelo excesso das libações; protesto duas vezes: primeiro contra o tenente que se improvisa cavalleiro de dama que não é sua; e contra Iduvirges que me sacrifica á impertinencia e á abelhudice de um cavalleiro que não é seu.

— O senhor tenente-coronel está sem duvida gracejando, quando falla em impertinencia e abelhudice; respondeu Gonçalo corando.

Alexandre Cardoso muito occupado de Iduvirges, não ouvio a resposta do tenente, a quem outros officiaes tratarão de serenar.

— Estou no meu direito, negando-lhe o beijo; disse Iduvirges, fallando sempre em alta voz, e a rir sem saber de que ou sómente para melhor mostrar seus dentes lindissimos; estou no meu direito, pois que se declarou uma opinião contra mim, e eu exigia por condição todas á meu favor.

Alexandre Cardoso insistia ridiculamente.

— Agora, senhor tenente-coronel, só lhe daria um beijo, se diante de Maria o senhor fosse capaz de declarar-me mais formosa que ella....

— Sou capaz...

— Na sua presença...... não creio.

O vinho tinha já embotado todos os sentimentos de delicadeza e de generosidade no animo de Alexandre Cardoso; pois que elle usou responder:

— Já estou muito aborrecido de Maria....... tomei-a por vaidade, e conservo-a por.... eu sei? por costume.

— E' facil dize-lo aqui; mas diante della....

— Pois mandem-na chamar! exclamou Alexandre Cardoso.

Uma das incognitas e suppostas velhas ergueu-se, atirou com força a mantilha para traz, e disse:

— Estou presente!

Ouvio-se um grito de geral sorpreza, e seguirão-se breves e silenciosos momentos de assombro.

Maria ainda mais brilhante pela colera mostrava-se fulgurosa de formosura.

Iduvirges rompeu em indecente gargalhada.

Alexandre Cardoso sorria-se estupidamente.

— Arrastou-me aqui um sentimento que me envergonha; levarei d'aqui um sentimento que me será proficuo: lembrem-se que é do inferno que o levo!

E rindo-se por sua vez, mas com um rir que lhe decompunha os suaves traços do rosto, Maria proseguio em outro tom:

— Complete-se o escarneo.... eia! senhor Alexandre Cardoso! cumpra a palavra! declare em voz altisonante, se póde....... que Iduvirges é mais bella que Maria.... eia! bem vê que isto é essencial.... então?...

Alexandre Cardoso hesitava, olhando com o sorriso idiota da embriaguez ora para Iduvirges, ora para Maria.

Iduvirges teve a idéa de abater Maria sem comprehender a superioridade da cortezã formosa, instruida, e espirituosa sobre a bonita mas ignorante e rude rapariga do vida alegre; teve porém essa idéa, e notando a hesitação de Alexandre Cardoso, pisou-lhe com força o pé para que elle a olhasse, sorrio-se provocadoramente, e depois fechou os olhos, alongou um pouco o pescoço para o official, e com um leve movimento dextensor dos labios não lhe offereceu, pedio-lhe o beijo.

Alexandre Cardoso balbuciou sem consciencia e com um tom rouquenho:

— Iduvirges é mais bella que Maria.

E beijou tres vezes os labios de Iduvirges.

Quando Alexandre Cardoso, Iduvirges e os socios de orgia procurarão com os olhos a formosa cortezã, acharão somente a mantilha negra, que ella deixara esquecida, ou despresada no chão.

— Sabe que é aquella mantilha preta? perguntou um official á Gonçalo Pereira.

— Que é?

— E' a mortalha em que se enterrou o amor de Alexandre Cardoso e Maria.

. . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . .

O official que vira na mantilha deixada por Maria a mortalha do amor da cortezã e do ajudante official da sala do vice-rei, enganara-se completamente.

A ligação de Alexandre Cardoso e Iduvirges acabara no fim de uma semana, e tão friamente, como se tivesse durado á força um seculo.

Alexandre Cardoso envergonhado da scena de embriaguez em que se dera em espectaculo não procurára dar desculpas á Maria do seu escandaloso procedimento. Em verdade elle não sentia mais a paixão em que se abrazára pela esplendida cortezã; esta porém o prendia pelo seu espirito e pelas apparencias de comedimento, ostentação de luxo e de elegancia, e delicadezas de fino trato com que cobria de lavor as miserias do vicio.

Saudoso de Maria, Alexandre Cardoso não poude resistir á lembrança dos seus encantos por mais de oito dias e receioso de justificavel repulsa, não ousou ir logo á casa da sua amante; escreveu-lhe pois um bilhete pouco mais ou menos assim concebido:

« Maria—Oito dias tem me parecido oitenta annos: não posso mais. Um homem que se embriaga uma vez não é bebado; mas basta uma hora de embriaguez para enlouquece-lo: preciso ajoelhar-me á teus mimosos pés e limpar nelles os labios, que o sacrilegio nodoou. Maria! serás tão santa que possa perdoar-me?....—Alexandre. »

Uma hora depois o ajudante official da sala do vice-rei recebeu a seguinte resposta:

« Alexandre—Venus perdoa á Baccho. Vem.—Maria. »

A mão de Maria tinha intencionalmente errado, escrevendo: em vez de Venus, a deosa dos compassivos amores deveria ter escrito—Juno—a deosa das implacaveis vinganças.

A famosa cortezã tão caprichosa em seus amores, como violenta em seu odio, conservando viva e sempre profundamente dolorosa a memoria da orgia da noite da primeira dominga de Outubro, que é a data da festa de Nossa Senhora do Rosario, nem uma só vez, nem, se quer por um só instante lembrou-se de vingar-se em Iduvirges: muito vaidosa e soberba esqueceu em sua vida miseravel a bonita mas pobre e desgraçada victima da devassidão: em seu orgulho de rica e nobre, em sua presumpção de formosissima e fascinadora a cortezã altiva despresava aquella irmã pelo vicio, e della só se occuparia um minuto, se julgasse preciso mandar-lhe esmola.

Ha pretenções e tons aristocraticos em todas as classes, e até na classe da corrupção hedionda.

Maria esquecera pois Iduvirges; não esquecera porém o escarneo, os insultos, e a affronta que recebera de Alexandre Cardoso na orgia escandalosa.

O amor, ou a paixão do ajudante official da sala do vice-rei pela menina Ignez, filha de Jeronymo Lirio era pois sómente um incentivo concurrente que acendia as furias da terrivel Medéa.

Era por isso que Maria deixara-se como esquecida na sala em sombria meditação depois da retirada de Angelo.

Ella tinha mentido á Alexandre Cardoso, quando fizera suspeitar que no pateo do convento da Ajuda um namorado feliz gozara as vistas furtivas da menina Ignez, e tinha mentido á Angelo, quando o animára com a esperança de casamento com a filha mais moça de Jeronymo Lirio: nem sabia se houvera namorado de Ignez, nem ella até então pensara em casar Angelo.

Maria tinha um unico pensamento, uma unica ambição, um unico empenho; era vingar-se de Alexandre Cardoso.