As Pupilas do Senhor Reitor/XI

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XI


Procedia-se com toda atividade aos preparativos do casamento contratado.

José das Dornas não cabia em si de contente. A formatura de um dos seus filhos, e a perspectiva do vantajoso casamento de outro eram para isso motivos de sobejo.

Acrescentem agora que o ano tinha sido fértil, que o enxoframento das suas vinhas prometia excelentes resultados, e poderão julgar se tinha ou não razão o robusto lavrador para andar satisfeito e para cantar, amiúde, a sua cantiga favorita:

Papagaio, pena verde,
Não venhas ao meu jardim;
Todas as penas se acabam,
Só as minhas não tem fim.

Depois de haver superintendido em todos os aprestes que se faziam na casa, para receber o novo adepto da ciência hipocrática, José das Dornas, cedendo àquela irresistível necessidade, tão geral em todos nós, de transmitir aos outros parte das nossas alegrias, comunicando-lhes a narração delas, saiu e transportou-se à loja do Sr. João da Esquina, ponto de reunião da mais escolhida sociedade da terra.

— Ora viva Sr. José das Dornas; passasse muito bem, é o que estimo - disse o merceeiro do fundo da loja, onde, em pé sobre um banco de pau, se ocupava a dependurar velas de sebo para satisfazer a requisição de um freguês.

— Deus seja aqui - respondeu José das Dornas, sentando-se familiarmente em um dos bancos, que havia por fora do mostrador.

— Muito calor, Dr. José - observou-se o merceeiro adiantando-se.

— De morrer - acrescentou o lavrador, tirando o chapéu e passando o lenço pela cabeça escalvada.

— E então que se diz de novo? - perguntou o outro, pagando-se da importância do gênero que acabava de aviar.

— Que se há de dizer? Que se vive, como Deus quer, e cada um pode. Os velhos, como eu, com os seus achaques. - Tal foi a resposta de José das Dornas, morto já por encontrar uma transição natural para falar do filho, sem quebra de modéstia paternal.

— Então já se sabe que o Padre Custóias é quem prega este ano o sermão da Senhora do Amparo? - disse João da Esquina, que sempre que perguntava o que ia de novo, é porque tinha alguma coisa a responder.

— Sim? - exclamou com afetada admiração José das Dornas, a quem naquele momento a notícia importava muito mediocremente.

— É verdade. E a filarmônica é que vai tocar.

— Então a festa é de espavento!

— A confraria tem no cofre perto de cem mil-réis.

— Está feito!

— E diga-me, Sr. José, que lhe parece da pega do nosso reitor com os do Amparo? Não acha que é um despotismo?

— Eu sei? Olhadas as coisas de certo modo, o homem não deixa de ter alguma razão.

— O quê, senhor, o quê? - exclamou indignado o merceeiro - Não tem razão nenhuma. Não me diga isso. Ora... pois fale a verdade. De quem é a cera das promessas que fazem à Senhora? Não é dela? A quem compete então o direito de a vender? À confraria, que é a sua procuradora. Isto é claro como água.

— Pois sim... não digo menos disso... mas... os direitos paroquiais... enfim, não sei, não sei - murmurava José das Dornas, ansioso por dar de mão ao assunto, sobredelicado para ele, que tinha amizade nos dois partidos, muito fora do seu propósito naquela ocasião.

— Que direitos, que direitos? Tortos lhe chamo eu. Eu bem sei o que aquilo é... Lembra-se do que o reitor de Cisnande fez ao do Mártir? Pois temos outra aqui.

— Homem - insistiu José das Dornas, deveras impaciente por não ver aproximar-se a conversa do tópico desejado, antes afastando-se cada vez mais dele. - Não diga isso do Padre Antônio; você bem sabe que o quinhão do nosso reitor é o quinhão dos pobres. Mas... eu dessas coisas não entendo, nem quero entender; parece-me contudo que era bom que andassem nisso com prudência e aconselhados por quem possa dizer alguma coisa a tal respeito.

— Então o juiz da confraria é algum tolo? Olhe que o João da Semana é homem para fazer frente ao reitor se...

Como já tivemos ocasião de dizer, João da Semana era, por aquele tempo, o único facultativo da freguesia, e lisonjeiramente conceituado na opinião pública da terra.

Desde que José das Dornas ouviu pronunciar o nome do velho cirurgião, alegrou-se por lhe parecer preparar-se a índole da conversa em sentido favorável ao assunto que ele mais pretendia tratar; por isso, logo se apressou em observar:

— João da Semana é homem fino, bem sei. Mas é também amigo velho do reitor; são amigos de tu, e por isso duvido que queira deixar ir as coisas ao mal. De mais a mais, está velho e...

A conjunção devia ser a ponte de passagem para o assunto suspirado; mas o merceeiro cortou-lhe no princípio.

— Velho, sim., mas robusto como poucos rapazes. Olhe vossemecê que aquela alminha já às cinco horas da manhã tem visitado mais de sete ou oito doentes.

José das Dornas julgou este terreno favorável para lançar os alicerces da ponte que queria construir.

— Isso lá é assim; bem precisa de quem o ajude; e dentro em pouco...

João da Esquina ainda desta vez lhe baldou a tentativa.

— Mas diz você que ele é amigo do reitor? Também eu sou; mas isso não quer dizer nada, o que é de direito...

— Pois sim; eu não digo menos que isso; mas enfim...um cirurgião tem o tempo tão ocupado... ainda se meu filho...

— Uma quarta de açúcar - bradou uma rapariga, que nesta ocasião entrava na loja, e por essa forma, uma vez mais, impediu que José das Dornas realizasse o seu intento.

Quando a freguesa se retirou ele, prosseguiu com constância digna de melhor sorte:

— Mas ainda, se meu filho...

O tendeiro, porém, que, com a transação que operara, tinha deixado escapar o fio da conversa, julgou que se tratava de Pedro e perguntou:

— Então quando casa ele com a Clarita dos Meadas?

— Veremos; provavelmente breve; chegando do Porto o outro rapaz...

— Olhe que foi bem bom arranjo, Sr. Zé - continuou o tendeiro com impertinente falta de percepção - Só o campo dos Bajuncos é uma tal peça de lavra!

— E sobretudo é boa cachopa a rapariga; lá isso é. Pois... quando vier o outro... - teimava o lavrador.

De novo um feirante veio interromper o discurso ao pobre do pai, que se vingou mandando-o interiormente ao diabo. Já ia desesperando de conseguir a realização do seu inocente propósito quando o reitor, passando pela porta da loja, lhe perguntou:

— Então vem hoje o homem ou não?

— Eu espero que sim, Sr. Reitor - disse José das Dornas, levantando-se e descobrindo-se. - Pelo menos não recebi notícias em contrário.

— Vê se me mandas avisar, logo que chegue que o hei de querer ir ver.

— Não há de haver dúvida.

— Adeus.

E o padre continuou seu caminho, cortejando amavelmente, com um movimento de bengala, João da Esquina, que apesar de partidário dos do Amparo, não colheu friamente a saudação. Mas afinal, graças às palavras do padre, tomou a conversa o rumo desejado de José das Dornas.

— Como que então temos cirurgião novo cá na terra? Ora Deus o ajude - disse João da Esquina.

— Enquanto João da Semana viver, há de custar a afreguesar-se o rapaz - observou o pai traindo no gesto, porém, convencimentos contrários ao que em palavra exprimia.

— Deixe lá. Há gente para ambos. A terra já vai dando para dois, graças a Deus. E o rapazinho saiu esperto!

— Lá isso diga-se o que é a verdade, não é agora por ser meu filho, mas todos o confessaram. Criança era ele ainda, e já o reitor se espantava da memória do rapaz. E se você visse, Sr. João, o livro que ele escreveu? Chamam-lhe lá teses, ou não sei quê. Pelo modos, sem escrever aquilo, não podem ter as cartas de examina. Eu tenho um que me mandou. Como sabe, eu daquilo nada entendo, mas bem vejo que é obra acabada e bem feita. Deixe estar que lho hei de trazer, para ver.

— Eu disso pouco sei dizer, não é a minha especialidade.

Não estamos habilitados para declarar aqui qual fosse a especialidade do Sr. João da Esquina.

— Pois sim, bem sei; - continuou o pai - mas sempre há de encontrar coisa que o perceba. O João da Semana também tem um que o Daniel lhe mandou, e disse-me que está coisa asseada; e o Sr. reitor afirmou-me que bem se conhece que o rapaz não se esqueceu do latim, porque em... geografia, parece-me que foi geografia que ele disse, nisto que ensina a escrever com letras dobradas, não tem nada que se lhe note.

— Bom é isso - replicou o tendeiro, já um pouco distraído a somar as parcelas do seu livro de assentos.

José das Dornas continuou:

— Quer saber, Sr. João? Olhe que, pelos modos, o rapaz até lá provou... Já sei que se vai admirar, mas olhe que é fato, assim o leu no fim do livro o Sr. Reitor, até lá provou... que não há doenças.

João da Esquina interrompeu efetivamente a sua tarefa, para fitar no seu interlocutor uns olhos espantados.

— Que não há doenças?!

— É verdade - respondeu o lavrador, saboreando em delícias a estupefação do seu vizinho.

— Essa agora! - dizia este ainda no mesmo tom de espanto - mas como se entende isso?

— Assim como eu digo.

— Ó Sr. José das Dornas, então que é este reumatismo que me não deixa mexer?

— Não sei. Diz ele que é outra coisa; lá lhe dá um nome, mas é tão arrevesado, que me não ficou.

— Que não há doenças! Essa lá me custa a engolir! Então para que andou o rapaz a estudar, e o que vem fazer para cá, se não há doenças? Faz o favor de me dizer?

— Ele não me disse que...

Mas João da Esquina estava muito ofendido nas suas crenças, para o deixar continuar:

— Que não há doenças! Sempre é uma, a falar a verdade! Não, não há! Que diabo viu ele então lá no hospital? Ora essa! E que disseram lá os... mestres a isso?

— É o que eu estou morto por lhe perguntar. Mas o Sr. João admira-se? E então se eu lhe disser que ele provou também que um homem é a mesma coisa que um macaco?

João da esquina fechou com impetuosidade o livro dos assentos.

— Irra! Está a caçoar comigo, Sr. José? Ele podia lá dizer semelhante coisa?

— Pergunte ao Sr. Reitor, que assim o explicou: pergunte, se não acredita.

— Eu não, pois... Macaco! Então eu sou macaco? Então vossemecê é macaco? Então ele é macaco? Então nós somos... Ora, isso não pode ser.

— Você, Sr. João, cuida que eles entendem as coisas assim como nós. Isso tem lá sentido.

— Outro sentido! Que diabo de sentido há de ter? Todos sabem o que é um homem, todos sabem o que é um macaco. Não vejo que outro sentido seja. Macaco! Irra! Não, essa agora é que me não entra cá.

— Ele, salvo seja - observou José das Dornas, rindo - aqueles diabos parecem às vezes mesmo gente, lá isso parecem; o Sr. João nunca os viu?

— Vi, vi; tenho visto muitos.

— Olhe que fazem coisas! Que, fora a alma, já se sabe...

— Pois sim; mas o... mas a cauda?

— Ah! lá isso... - respondeu o lavrador embaraçado.

— Ora então, aí tem - disse João da Esquina com ar triunfante, capaz de fulminar Lamarck.

— Deixe ver se me lembro de outras que ele provou...

— Não; essa já não é má! Mas, ó Sr. José, deveras ele disse?

— Ora essa, vizinho! Palavra que sim.

— Macacos! O rapaz não estava em si decerto. Macacos! Mas então que queria ele dizer afinal? Pois nós somos macacos, Sr. José? Ora diga?

— Não sei. Eles lá o lêem, lá o entendem.

— Vão para o diabo. Bem me importa a mim o que eles lêem e o que eles entendem. Não está má essa! Macacos!

Durante este solilóquio de João da Esquina, fazia José das Dornas por lembrar-se de mais outra das proposições, que publicamente sustentara seu filho, perante o júri escolar.

— Ah! é verdade - exclamou afinal. - esta também lhe vai fazer mossa. Já estou vendo... Diz que sustentou lá também que a gente, verdadeiramente, devia andar com as mãos pelo chão.

O gesto de tendeiro foi tão violento, que José das Dornas acrescentou como corretivo:

— Ele não diz isto bem assim, mas lá por umas outras palavras, que eu não tinha entendido, mas que o Sr. reitor explicou.

João da Esquina conservava sobre José das Dornas um olhar desconfiado.

— Vai me parecendo que o Sr. José tem estado mas é a caçoar comigo.

— Ó homem! Com a verdade com que eu falo, assim Deus salve a minha alma.

— Então com que havemos de andar a quatro como, com sua licença, as cavalgaduras?

— Não; ele tanto não quer dizer.

— Não quer? Mas se ele diz...

— Sim, mas ele não diz...

E os dois olhavam-se embaraçados. José das Dornas não podia resignar-se a tirar a conseqüência, um tanto dura, formulada pelo tendeiro; mas também não lhe corria escapula razoável. João da Esquina aguardava em vão a resposta.

Afinal José das Dornas saiu-se de entre as duas pontas dilemáticas deste " diz e não diz", graças a evasiva costumada em casos tais:

— Homem, eles lá sabem o que querem dizer na sua.

— Eu julgo que não é necessário ser grande doutor para defender isso. Mas que ande quem quiser com as mãos pelo chão, que eu por mim...

— Outro - continuava José das Dornas - Disse que há muito pouca diferença entre um ... um alimento ou elemento, diz que é a comida que a gente come, e um veneno.

João da Esquina já não podia espantar-se mais; limitou-se a observar com ironia:

— Pois, quando ele vier, cozinhe-lhe vossmecê um guisado de cabeças de fósforos com rosalgar, a ver como ele se dá. Se é a mesma coisa... Sempre ao que ouço! estes médicos de agora!

— Enfim, mostrou muito outra coisa o rapaz e de que eu agora não me lembro. Pelos modos deixou-os todos maravilhados.

— Se lhe parece que não!... sendo todas desse jaez.

Para os leitores, alheios a certas noções de ciência e que se sintam tentados, como o Sr. João da Esquina, a duvidar da veracidade de quanto José das Dornas referira, devo eu, em bem do caráter sisudo do honrado lavrador, acrescentar aqui, à maneira de nota elucidativa, informando-me com pessoa competente, soube que as proposições que tanto impressionaram o tendeiro tinham seus fundamentos em várias opiniões e teorias filosóficas mais ou menos à moda.

Daniel, com o amor extravagante natural a quem deixa aos vinte anos os bancos das escolas, afeiçoara-se àquelas proposições que, formuladas, pudessem aparentar-se mais paradoxais, não hesitando em levar às últimas conseqüências os princípios sistemáticos de algumas escolas e seitas.

Esta vulgar tentação da juventude não lhe granjeou grandes créditos no conceito de João da Esquina, a cujo bem senso repugnavam as asserções, que, pelo relatório do José das Dornas, lhe vieram assim, nuas e cruas, ao conhecimento.

Assim que o lavrador virou as costas, João da Esquina murmurou com os seus botões:

- Nada, para mim não serve o doutor. Se ele diz que não há doenças, que há de vir cá vir fazer? E depois, pôr-me em dieta de vidro moído e cebola albarrã ou outras coisas assim, e mandar-me a correr de quatro pelos montes. Nada. Quero-me com o João da Semana, que é homem sério, e não tem destas esquisitices da moda.