As Pupilas do Senhor Reitor/XII

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XII


Ao deixar José das Dornas, na tenda do seu vizinho da esquina, o reitor, apoiado na grossa bengala de cana, companheira fiel das fadigas de muitos anos, foi seguindo pelos caminhos poucos cômodos de sua paróquia, entrando na casa dos mais pobres, onde levava a esmola e o conforto das doutrinas evangélicas que tão singelamente sabia pregar.

Era esta, para ele, tarefa habitual.

Sentava-se com familiaridade à cabeceira do jornaleiro doente, ele próprio lhe arrefecia os caldos, lhe temperava os remédios e lhos ajudava a tomar; guiava com conselhos e ensinava com o exemplo os enfermeiros que, entre a gente pobre dos campos, são quase sempre os mais pequenos da família, aqueles que, pela idade, representam ainda uma parte pouco produtiva da receita; porque os outros reclamam-nos as exigências do trabalho.

No cumprimento desta obra de misericórdia, atravessou o reitor quase toda a aldeia, e com o coração apertado pelos infortúnios que vira, e desafogada a consciência pelo bem que fizera, continuava placidamente a sua tarefa abençoada.

Depois de muito andar e de muito consolar misérias, parou por algum tempo por debaixo das faias, que assombravam um largo terreiro, e sentou-se com o fim de ganhar forças para prosseguir.

Enquanto descansava foi dar balanço às algibeiras, que trouxera bem providas de casa. Este balanço foi desanimador para os projetos ulteriores do velho. A esmola, essa sublime gastadora, que nunca abandonava a direita do pároco nestas visitas pastorais, havia-lhe esgotado o capital, sem que ele desse por isso.

O reitor mostrou-se mortificado; não que lamentasse o dinheiro gasto assim, mas porque estava longe de casa, e tinha ainda mais infelizes a socorrer.

Poucas cogitações financeiras de um ministro de Estado, perante um deficit no orçamento, valem as do pároco naquela ocasião. Apertando entre o indicador e o pólex o lábio inferior e com o olhar imóvel próprio das profundas abstrações do espírito, conservou-se por bastante tempo irresoluto, entre o prosseguir a sua visita com as mãos vazias, e o transferir para outra vez o complemento dela.

Nem um nem outro alvitre lhe agradavam porém.

De vez em quando tornava a procurar nas algibeiras, a ver se lhe passava despercebida alguma moeda, que o tirasse de maiores dificuldades. Mas de nada lhe valia a pesquisa.

Enfim levantou-se; radiava-lhe a fisionomia com um ar de resolução como se afinal lhe ocorrera o pensamento desejado; e foi já com andar firme e decidido que continuou o seu caminho, murmurando consigo mesmo não sei que palavras pouco perceptíveis, acompanhada ás vezes de certa mímica de mãos.

Depois de trezentos passos, pouco mais ou menos, dados assim, achou-se o reitor defronte de uma casa branca, cujas funções eram bem indicadas pelo ramo de loureiro que pendia à porta e pelo coro e vozes e ruído de gargalhadas e juras, que vinham do interior dela.

O padre tomou a direção desta casa.

Não o surpreendeu o espetáculo que presenciou, porque o esperava.

Alguns lavradores e homens de ofício, sentados à volta de uma banca de madeira, todos formidavelmente munidos de grandes copos de vinho, estavam ali recebendo simultâneas as comoções de beberronia e de jogo de parar. Cada um deles seguia de olhos atentos as evoluções do baralho de cartas, moído e sebento, que um banqueiro, igualmente dotado desta última qualidade, executava a prestidigitação de consumado artista; o ardor do ganho, a recíproca desconfiança que os animavam, rompiam ainda através dos densos nevoeiros que pareciam toldar aquelas vistas avinhadas.

Havia um considerável monte de cobre e alguma prata no meio a mesa e montes parciais, mais ou menos bem providos, ao lado de cada jogador. A cada sorte, que se decidia entre um silêncio e ansiedade de suspender quase a respiração, seguia-se um vozear infernal composto de exclamações de júbilo dos felizes e pragas dos sacrificados.

O reitor assomou ao limiar da porta, em um desses momentos de tumulto. Discutia-se, quase tão desordenadamente como nas mais importantes sessões dos nossos parlamentos, a legalidade e a inteireza da mão última do jogo.

A correr parelhas com a pouca moderação das palavras, só a das libações do vinho. Os copos vazavam-se e enchiam-se com rapidez pasmosa, e o taberneiro a cada um que se despejava traçava um sinal a giz na porta vermelha da cozinha.

O aparecimento do reitor causou sensação.

O primeiro movimento dos circunstantes ao darem por ele, foi o de esconderem as cartas e o dinheiro; mas, na impossibilidade de o fazer a tempo, levantaram-se e, com ar de embaraço, tiraram o chapéu e baixaram os olhos.

Houve um momento de silêncio, empregado por o reitor em reconhecer os delinqüentes, e durante o qual estes não ousaram levantar os olhos.

— Não é regedor, sosseguem - disse enfim o, reitor ainda no, limar da porta - e pena é que não o seja para vos meter a todos na cadeia. - E adiantando-se na taberna, continuou: - Santa vida esta! Assim é que é ganhar o reino do céu! Sim, senhores! Aqui estão uns poucos de santos varões, que empregam bem o seu tempo! Respeitáveis e exemplares patriarcas, de quem muito se pode esperar como educadores de família! Sim, senhores! - E, mudando para um tom mais severo: - Vossas mulheres estafam-se com o trabalho, para dar um bocado de pão negro aos filhos e a vós esta vida regalada, não é assim? Ainda agora encontrei o teu pequeno, Manuel, que pedia esmola pela porta dos vizinhos; não tens vergonha? - Tua mulher, Francisco, estava há pouco de cama e teve de mandar à cidade a filha mais nova com uma canastra de hortaliça, com que ela mal podia; ia a vergar, a pobre pequena. Achas isso bonito? Teu irmão, João, ainda não há três dias que foi pedir emprestado, chorando, ao José das Dornas, dinheiro para pagar ao mestre da fábrica, em que traz o filho na cidade; talvez tu não tivesses para lho emprestares? - Não há muito o pobre José Maia se me queixou a mim, de que tu, Damião, ainda lhe não tinhas pago por inteiro o preço daqueles bois que lhe compraste. Mas que importam essas pequenas coisas? Que importa lá a miséria que vai por casa, se não falta o dinheiro para o vinho e para o jogo! Isso é o que se quer! E tu - acrescentou voltando-se para o taberneiro, que, de trás do mostrador, assistia calado a toda essa cena: - Tu vais engordando à custa destas misérias todas. Passam fome as mulheres e as crianças, para te encher as gavetas e a barriga! Ó Santo Deus! - e tanta desgraça, que por aí vai, e tanta gente sem pão para comer!

— Essa é boa! o meu ofício é vender vinho, vendo-o; faço o meu dever - resmungou o taberneiro despeitado.

— Fazes também o teu dever, enchendo com outro tanto de água as pipas de vinho que vendes? e permitindo em tua casa estes costumes proibidos pelos homens e amaldiçoados de Deus? - estes jogos infernais, que têm levado tantas cabeças à forca, e tantas almas ao inferno? É esse também o teu ofício? Pois deixa estar avisarei o regedor, para que te dê a recompensa, por o bem que o cumpres.

O taberneiro não redargüiu.

O reitor voltou-se de novo para os jogadores, ainda silenciosos.

— Chego ao meio de vós com as mãos e as algibeiras vazias. Vede. O dinheiro, com que sai de casa, ficou-me por esses caminhos, alguns nas casas de muitos dos que vejo agora aqui. A esses não estou disposto a perdoar a dívida, pois vejo que não precisavam da esmola, que eu lhes dei; os outros, que têm para perder no pecado, também hão de ter para a obra de misericórdia, ou tisnada trazem já a alma pelo fogo do inferno. Tenho ainda muitos pobres para ver, e não trago já dinheiro comigo. Peço esmola para os pobres - prosseguiu o reitor em voz alta, e aproximando-se da mesa - quem não dará aqui esmola para os pobres? - Amanhã, continuando vós nesta vida, eu pedirei também esmola para vós. Lembrai-vos disso.

E a um por um estendia o chapéu, fitando-os com um gesto nobre de composta severidade.

O respeito que lhe impunha a figura do ancião, pedindo desinteressadamente pela pobreza, e em muitos, a voz da consciência, coroaram do melhor êxito a inspiração do pároco.

Houve quem lhe despejasse no chapéu todo o dinheiro que tinha diante de si.

— E tu?

— Não tenho nada - respondeu este homem com ar abatido - perdi e devo.

— Não tens nada! - redargüiu o padre com amargura - tens sim; tens cinco filhos e uma velha mãe moribunda.

O homem cobriu o rosto, para ocultar as lágrimas.

— A que vem esse choro agora? Pois julgavas tu que matarias a fome à tua família por essa maneira? Para que te deu Deus os braços robustos, homem, e o peito valente, se os negas ao trabalho? - E voltando-se para os jogadores que sabia mais abastados prosseguiu com maior veemência: - E vós tivestes alma para vos entregardes a este jogo danado com um homem, que punha em cima da mesa o pão e o sangue dos seus filhos e de sua mãe! Vergonha e desgraça sobre vós, miseráveis, se dentro de um dia não compensardes o mal que fizestes, abrindo por vossas mãos a este pai e filho desnaturado a carreira do trabalho, que é da honra igualmente - dentro de um dia como podeis e deveis. Eu vos forçarei a isso . Homens, que tão bens servis para perder, servi um dia ao menos para salvar. Não podes pagar?... Alguém pagará a tua parte.

— Não pode pagar, não - confirmou o taberneiro - que a mim me deve ele uma conta, e não pequena, de vinho.

— Ah, sim? - disse o reitor, voltando-se para o da observação. - Pois hás de ser tu que pagarás a parte dele. Ainda não deste nada. Dá-me a sua dívida.

— Mas, Sr. Reitor... - balbuciou o taberneiro.

— Consideras-te mais que os outros! Só se for por seres o mais culpado.

— Não, senhor... De boa vontade lha perdôo, lá por isso... - e acrescentou falando consigo o taberneiro: - Não cedo grande coisa, que perdida a tinha eu há muito.

Depois desta abundante colheita, o reitor continuou:

— Compensem ao menos com esta boa ação o pensamento diabólico, que vos juntou aqui. E agora ide para vossas casas, e para o trabalho. Lembrai-vos que mal vai a família e a fazenda do que se esquece na taberna assim; e retenha-vos essa lembrança, se ainda não tendes endurecido de todo o coração. O que entra rico nestas casa, sai a pedir; se entrar pobre, sai criminoso. Ide. Fugi às tentações destes inimigos - isto dizia tomando as cartas da mesa - e fazei como eu quando as tiverdes à mão. - E, com um rápido movimento do braço, fez voar todo o baralho até ao fogo, que em pouco tempo o reduziu a cinzas.

E pondo outra vez o chapéu na cabeça, saiu da sala.

Após ele foram saindo também os jovens consócios da taberna, que não se sentiam com alma de continuar ali.

Para alguns tinha de ser a última tentação.

O que menos contrito se mostrou foi o dono do estabelecimento que deu ao diabo a intervenção do pároco na pacífica diversão de meia dúzia de fregueses honestos e tementes a Deus. No entretanto o reitor ia prosseguindo a sua visita e distribuindo pelos necessitados o dinheiro dos ociosos. Sorria de satisfação o velho, ao fazê-lo.

— As grandes ventanias - monologava ele - são também um mal para o lavrador, porque lhe derrubam as searas, mas... como se não podem evitar... que se faz? - levantam-se nos montes as asas de um moinho, e elas aí estão aproveitadas. Aproveitemos pois também da loucura má desses perdulários, já que pude acabar com ela de todo. Se a água é muita nas presas, não se deixa extravasar à toa, abre-se um regueiro, que a leve onde ela seja precisa. Ó Santo Deus! e então que há por aí terras tão sequinhas de água! Doer-me-ia a consciência se tivesse enchido a bolsa com as esmolas dos laboriosos e poupados; mas com as destes... ora... folgo e orgulho-me.