As Pupilas do Senhor Reitor/XV

Wikisource, a biblioteca livre
< As Pupilas do Senhor Reitor
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XV


Pedro foi quem, ao cerrar da noite, pôs fim a este interrogatório, que levava jeito de eternizar-se.

— Vem daí dar um passeio, Daniel; e de caminho hei de mostrar-te a minha mulher... a que há de ser.

— Ah!... é verdade que estás para casar. Estimo que ma dês ocasião de tomar desde já conhecimento com a que dentro em pouco chamarei irmã. Espero encontrá-la digna de ti. Vamos lá.

— Ide, ide, rapazes - observou José das Dornas - Vais ver uma guapa cachopa, Daniel. Mas tu conhecê-la... É uma filha dos Meadas.

— Ah!... sim... tenho uma idéia.

Cumpre-me confessar que Daniel não tinha tal idéia das filhas do Meadas. Enquanto esteve no Porto e até nos curtos intervalos de férias que passara na terra, vivera ele muito estranho à vida do campo, para se recordar ainda das alcunhas, pelas quais, na aldeia, mais geralmente são conhecidas as famílias, do que ainda pelos verdadeiros nomes e sobrenomes.

José das Dornas é que tinha uma idéia ao dizer aquilo; era a de fazer lembrar ao filho o episódio da infância, que decidira da sua vida inteira.

Mas, ainda sob o risco de indispor o ânimo das leitoras contra uma das principais personagens desta singelíssima história, farei aqui a desagradável, mas conscenciosa declaração, de que a imagem de Margarida andava, por aquele tempo, tão desvanecida já na memória de Daniel, que nem o nome, pelo qual fora sempre designada na terra a família de Margarida, lhe pôde avivar os traços.

Havia muitos anos que Daniel observava um sistema de vida, que de todo o trazia desafeito dos hábitos campestres e indiferente ás coisas e pessoas da localidade que o vira nascer.

Encarnara-se intimamente nele o espírito das cidades. As momentosas questões que ocupavam as cabeças sérias da aldeia, faziam-no sorrir: as distrações que entretinham as mais levianas, obrigavam-no a bocejar.

Daniel não deixara mentir o prognóstico que aquelas duas boas velhas, das quais não sei se o leitor ainda se lembrará, tinham feito do jovem estudante de latim ao verem-no passar, sobraçando os livros, para a casa do reitor. Durante os seus anos de estudo fora efetivamente o filho de José das Dornas herói de numerosas aventuras de amor, de mui diverso caráter.

Deixando-se impressionar de circunstâncias insignificantes, que outro espírito, menos exaltado, receberia com indiferença, andava ele quase de contínuo sob o império, fértil em deleitosas sensações, de uma paixão nascente.

Este coração, eminentemente acessível e irritável, não tivera quase, até final, um instante de sossego.

Eu disse este coração - quase me estou arrependendo de me ter servido da palavra.

Entraria de fato, como elemento destas paixões efêmeras, tão instantâneas como a combustão da pólvora, essa víscera simpática que, a despeito dos médicos e da medicina, eu julgo o sacrário augusto dos sublimes e duradouros sentimentos que constituem o dote mais valioso do nosso patrimônio moral? Não sei; antes me quer parecer que não.

Daniel amava de imaginação; nem eu vejo bem como pudesse amar de outra maneira quem, por vezes, se deixou levar por futilidades quase ridículas.

O coração não é tão sujeito a fraquezas desta ordem; ou eu ando muito enganado.

Houve, por exemplo, uma mulher que, durante alguns meses, conseguiu assenhorar-se dos pensamentos do nosso herói pela maneira individualíssima e inimitável, com que sabia dizer aquele gracioso ágora minhoto, tão levianamente criticado pela gente da capital.

Ora diga-me se é este um fenômeno do coração, e não antes um como desvario da cabeça, mais azada a tais singularidades.

Mas o que é certo que, fosse pela cabeça, fosse pelo coração, Daniel achara-se, em todas as ocasiões que viera a férias, suficientemente apaixonado para escapar à influências das formosas da sua terra. Envolvia-o uma como que atmosfera de isolamento - para me servir de uma frase da língua científica - e nesse ambiente não floresciam os amores bucólicos.

Raras vezes mostrou recordar-se daquelas suas afeições de criança, que tantas lágrimas lhe tinham já feito verter.

Só um dia em que, passeando nos campos, chegara por acaso ao pequeno outeiro, onde sucedera a inocente cena de idílio, tão mal encarada pelo reitor, foi que lhe veio à idéia essa passagem da infância, já quase esquecida; e a imaginação lhe apresentou então o vulto, suave e meigo da pequena Guida, como uma visão momentânea, rodeada pelo branco perfume da poesia e da saudade.

Lembrou-se dessa vez de perguntar por ela. Disseram-lhe que tendo ficado órfã de pai e mãe, vivia só com a irmã e que ensinava meninas - tarefa que raras vezes lhe permitia sair de casa.

Daniel nunca mais renovou a pergunta.

Fora isto talvez dois anos antes da sua vinda definitiva para aldeia. Não admira, pois, que com estas disposições mentais estivesse muito longe de pensar em Margarida, quando, com segunda intenção, o pai pronunciou o apelido da família da noiva de seu irmão.

Foi como por demais que Daniel disse ter uma idéia desse apelido, o qual lhe soara quase como novo.

Acompanhando Pedro, levava ele, portanto, o espírito inteiramente despreocupado, e somente um pouco movido pela curiosidade de ver a destinada esposa de seu irmão mais velho.

Tinha-se por conhecedor em belezas femininas, e agradava-lhe sempre a análise, aplicada a esta especialidade estética.

Àquela hora do dia são os caminhos a aldeia muito freqüentados pela gente que regressa do trabalho a casa.

Os dois irmãos a cada passo se encontravam com vários grupos de aldeões - homens, mulheres e crianças - que todos os saudavam com as fórmulas sabidas; -"guarde-os Deus" - e "louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", - às quais ambos correspondiam com outras análogas.

Subiam eles a encosta de uma pequena colina, no alto da qual, sob o fundo magnífico do céu ainda iluminado pelos últimos rubores do crepúsculo, se delineava o vulto negro de uma cruz de granito, quando lhes chegou aos ouvidos o som de vozes longínquas, cantando concertadas; simultaneamente pararam a escutá-las.

Pouco a pouco, a música tornava-se mais distinta, e cedo, ao lado do cruzeiro, desenharam-se também as figuras graciosas de um bando de raparigas, que voltavam à aldeia, entoando em coro uma saudação à Virgem Maria - a predileta da piedade popular. Harmonizavam-se tão bem aquelas vozes frescas e juvenis; combinava-se tão admiravelmente a poética melancolia do lugar e da hora com a daquela toada singelíssima, que Daniel sentiu-se comovido.

Os dois irmãos puseram-se de lado para deixar passar as raparigas; e nem o mais estouvado deles teve coragem de interromper com a menor frase de galanteio o coro piedoso que elas, sem interrupção, continuaram cantando; e até de todo se perderem as vozes pela distância, conservaram-se ambos silenciosos e imóveis.

Como se esta cena reconciliasse Daniel com a vida do campo, logo que prosseguiram o caminho, ele exclamou, mais para si talvez do que para o irmão.

— Digam o que quiserem, há na aldeia belezas magníficas. A cena é inexcedível - e isto dizia, correndo com a vista o horizonte vasto que o rodeava - e as personagens, às vezes, são bem dignas de atenção!

As raparigas do coro tinham-lhe ensinado a apreciar um gênero de beleza, a que, até então fora indiferente.

Preciso é também que se diga desta vez, trazia Daniel, por exceção, o coração, ou como quiserem, a cabeça em disponibilidade - circunstância que não pouco concorreu para o efeito produzido.

Chegaram enfim a casa das irmãs.

Era uma pequena, modesta, mas graciosa habitação, um pouco fora já do centro do povoado.

A solidão em que ela ficava, própria a fomentar saudades, sem quebrantar com desalentos, agradaria aos menos poetas. Havia tanto sussurrar de folhagem, tanta pureza de ares, tanto desafogo de horizontes em volta dela, que uma íntima serenidade se insinuava na alma do que parava ali. A tênue claridade daquela ameníssima noite de estio mais realçava ainda a poesia do lugar.

A casa era toda caiada de branco; abria para a rua duas largas janelas envidraçadas que alguns pequenos vasos de flores adornavam. De um e de outro lado prolongava-se um lanço de muro de sólida alvenaria, igualmente caiado, e que a folhagem do pomar interior sobrepujava, caindo para o caminho as balsâminas em festões verdes e floridos.

Foi à porta deste muro que Pedro bateu familiarmente, dizendo para Daniel que estava saboreando o prazer daquela perspectiva.

— É aqui.

Uma voz e mulher correspondeu ao sinal de Pedro.

Era a de Margarida.

— Sou eu, Margarida, abre - disse Pedro - Sou eu e uma visita.

Passados alguns momentos, a porta girou nos gonzos, abrindo passagem para um vasto pátio ou quinteiro, assombrado de ramadas, o qual, naquele momento, atravessavam ainda algumas aves domésticas, retardadas, a procurarem o abrigo das capoeiras.

Margarida que fora a que abrira a porta, ao ver Daniel, retirou-se sobressaltada para a quase obscuridade, que interiormente projetava a ombreira.

— Não se assuste, Margarida - disse Pedro sorrindo ao perceber-lhe o movimento. - Não se assuste ; é tudo gente da casa. Este é o meu irmão, Daniel, o nosso cirurgião novo. Esta é a minha cunhada, que já assim lhe posso chamar - acrescentou, voltando-se para o irmão - é muito acanhada, e por isso não repares...

Daniel dirigiu um cumprimento distraído a Margarida, cujas feições não pôde distinguir pela pouca luz que as iluminava. Demais eram estas feições, como já atrás dissemos, daquelas que exigem um exame mais demorado para se lhes sentir toda a sua beleza.

Podia dizer-se delas o mesmo que destas óperas, privadas de combinações brilhantes, que não deixam impressão em quem uma só vez as escuta; mas acabam por patentear segredos em harmonia aos ouvidos que repetidamente as recebem, segredos que nunca se esquecem.

— Onde está a Clara? - perguntou Pedro, entrando, seguido do irmão.

— No poço, julgo eu - respondeu Margarida, com a voz ainda trêmula de comoção.

E, muito tempo depois de os ver passar, ali se conservou imóvel, com o olhar vago, a fronte inclinada e o seio inquieto. O que ia neste momento por o coração da pobre rapariga? Adivinha-o decerto a leitora, se já pensou na delicada sensibilidade deste caráter de mulher.

A indiferença, com que Daniel passara por ela, o modo por que a saudara, a frieza com que lhe ouvira o nome... tudo lhe mostrou que a não conhecia já.

Dolorosa descoberta para aquela alma, tanto mais amorável, quanto mais se encobria de manifestar os seus tesouros de afetos!

Foi com certa revolta de delicadeza feminina, com uma quase má vontade contra si própria, que ela, sondando o íntimo do coração, reconheceu o sentimento que o inquietava assim.

Como que se interrogava com a severidade do mentor para com o discípulo mal encaminhado.

— Que loucura é esta, mulher? Pois ainda tens dessas criancices, doida? Que pensavas tu? Que esperavas? Era acaso possível que ele se lembrasse de ti?... E para quê? Não foi melhor que se esquecesse? Dize.

Em situações como esta, opera-se em nós uma espécie de separação em duas entidades de sentir contrário.

Arvora-se uma em juiz, interroga da maneira que vimos, fala em nome da razão, julga, repreende, condena a outra quando, sob o severo exame da primeira, mais subjugada parece, conserva, na sua humilhação, intato o espírito de independência; assim como, curvada a cabeça às admoestações da preceptora, a pequena discípula sente em si o instinto de rebelião, que mal pode reprimir.

Em Margarida também se dava este antagonismo. Faltava-lhe a razão, como dissemos; mais baixo, como a medo, murmurava-lhe outra coisa não sei que voz mais atendida por ela.

— Podias - segredava-lhe essa voz - podias e devias esperar que ele se lembrasse, sim. Acaso o esqueceste, tu?

Diga-se a verdade. Até aquele momento, Margarida conservava uma ilusão, muito escondida dos outros e de si, mas nunca mais de todo extinta.

Avaliando, por os seus, os sentimentos dos mais, não podia convencer-se de que, em Daniel, estivessem inteiramente apagados os vestígios daquela infância, gozada em comum por ambos. Pensava que ele a reconheceria logo, ao vê-la, que lhe não ouviria pronunciar o nome, sem que a memória o repetisse; que o primeiro olhar seria fértil em recordações, que bastariam só para ressuscitar o passado inteiro.

Enganara-se; conheceu que se enganara, agora que o vira passar-lhe assim; e apesar de toda a força de sua razão, Margarida sentiu enevoarem-se-lhe os olhos de lágrimas, e a alma de melancolias.

Afinal de contas a boa da rapariga tinha um coração de mulher.

Perdoem-lhe esta fraqueza. Não há caráter humano que as não tenha iguais; assim fora possível sujeitá-las à rigorosa análise dos seus recônditos mistérios.