As Pupilas do Senhor Reitor/XVI

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XVI


Os dois irmãos dirigiram-se ao lugar onde, segundo as indicações de Margarida, deviam encontrar Clara.

O ranger da bomba do poço, e a voz da alegre rapariga, que cantava - pois nela dir-se-ia ser o canto, como nas aves, a mais natural expressão - serviam-lhes de guia.

Tomando por uma rua extensa, revestida de limoeiros, através de cuja espessura coava já, a custo, a claridade nascente do luar, conseguiram aproximar-se, sem que fossem percebidos.

Clara cantava: Vem livrar-me com teus olhos,

Que eu por eles me perdi;

Dá-me a vida com teus beijos,

Já que por beijos morri. Porém, ao voltar naturalmente a cabeça, descobriu Pedro na companhia do irmão; vendo-se surpreendida assim, interrompeu de súbito o trabalho e o canto, e meia confusa, saudou-os com os olhos baixos e a voz embaraçada.

Foi curta a apresentação, e em nada cerimoniática. Pedro odiava etiquetas, ou antes, ignorava-as.

A figura de Clara, inundada pelos raios de lua, que já se levantava esplêndida no horizonte, fez conceber a Daniel uma subida opinião do bom gosto do seu irmão.

Não era Daniel homem para se coibir, por acanhamentos, em observação, que tanto o deleitava. Sem disfarces, nem precauções, analisava, feição por feição, aquela fisionomia simpática, e como que lhe delineava com a vista o perfil, onde se continuavam graciosamente, por suaves inflexões, as mais elegantes curvas.

Clara, adivinhando-se objeto daquela inspeção minuciosa de conhecedor e entusiasta, não ousava erguer os olhos. Dir-se-ia que, magnificamente condensados, os raios visuais, que a envolviam daquela maneira, lhe tomavam os movimentos até mal a deixarem respirar.

Pedro sentia certo desvanecimento, lendo a tácita aprovação da sua escolha, na expressão do olhar do irmão.

Clara conseguiu afinar dominar o enleio dos primeiros instantes, dirigindo-se a Pedro:

— Então isto faz-se? - disse ela, ainda não de todo serenada da primeira confusão, e descendo e apertando nos punhos as mangas da camisa, que tinha arregaçadas - Trazer assim uma visita, sem dizer nada à gente.

— É meu irmão - dizia Pedro sorrindo.

— Que tem que seja? Não é para assim vir ter com uma pessoa, que anda cá no seu trabalho. E sem fazer barulho, então! - Ora sempre! - Ora sempre! - E ao dizer isto, lançava para o noivo um olhar que, tentando ser de repreensão, só conseguiu enlevá-lo.

— Olhe, Clarinha - disse Daniel, adiantando-se e dando às palavras o tom de amigável familiaridade - O culpado fui eu. Mas que quer? É costume antigo que tomei. Quando era rapaz, gostava já muito de ouvir os rouxinóis que cantavam nos laranjais da nossa casa; mas eles, percebendo-me, calavam-se. Sabe o que eu fazia então? Ia-me devagarinho, pé ante pé, onde eles estavam, e lá me ficava a ouvi-los cantar horas e horas. Foi o que fiz agora.

A lisonja não desagradou de todo a Clara, que respondeu gracejando:

— Os rouxinóis já não cantam neste tempo.

— Mas cantam outras vozes sonoras como as deles e mais felizes ainda; pois nem as fazem calar as neves do inverno, nem os ardores do estio. Era uma dessas que nós paramos para ouvir.

Clara, sentindo-se pouco à vontade para responder ao galanteio, disfarçou-se, afastando-se como para regar as flores de um alegrete vizinho.

Pedro aproximou-se dela.

— Nunca mais - murmurou-lhe a rapariga ao ouvido - tornes a fazer uma destas, Pedro. Também não sei como a Guida vos deixou entrar assim. Eu lho direi.

— Ora vamos, Clara - disse Pedro, auxiliando-a na tarefa da rega - não vás agora ralhar com a Margarida, que mais embaraçada ficou ela do que tu.

— Sim!? Pois ai está, vês? Não tinha razão para isso. A Margarida é outra coisa. O Sr. Daniel não falou ainda com a Margarida? - continuou Clara, já mais senhora sua, e fazendo uso desimpedido do olhar, que fitou no interpelado. - Ela é que saberia responder bem. Quando quer, sabe dizer coisas... Até o Sr. Reitor, muitas vezes, não tem que lhe responda. O Pedro que o diga.

Pedro fez um sinal de assentimento.

Este duo em honra de Margarida não causou grande impressão em Daniel, que continuava a fitar Clara com persistente atenção, encantado pelo timbre daquela voz, por aqueles movimentos, cheios de graça e de vida, e pela inimitável expressão do olhar, meio de bondade e meio de malícia, que ainda a branca claridade da lua fazia realçar o seu fulgor.

A conversa tomou, pouco a pouco, familiar e jovial caráter de intimidade. Só, alguma vez, uma frase mais cortesã de Daniel vinha tirar a Clara a frieza de ânimo necessária à resposta - isto com grande estranheza sua, pois não se tinha por demasiado tímida.

— Pobre João Semana! dizia Clara em um dos seus momentos de malícia. - Quem mais o chamará agora, depois de haver na terra médico novo?

— Está enganada; - respondeu Daniel - quando mais ninguém o chamasse, teria por si a melhor de todas as freguesias, a das raparigas.

— Agora? E então por que o haviam de querer?

— Porque os médicos novos tem o mau costume de desejarem saber das doenças do coração, e dessas não querem elas tratar.

— Não sei por que não; pois não são tão perigosas? Eu sempre ouvi dizer que se morria disso.

— Se se morre? Morre-se a todo momento até. Mas, pelos modos, é um morrer de que se gosta.

— Deixe lá; sempre é morte, não pode ser muito boa.

— Ora! Morre-se a cantar: Dá-me a vida com teus beijos,

Já que por beijos morri, Não era assim que se dizia?

Clara não pode suster o riso, e Pedro fez coro com ela.

— Ora, responda: se o médico tomasse a receita a sério, e quisesse dar vida à sua doente?

— Isso mais devagar.

— Aí tem: é por esse motivo que não é bom consultar os médicos novos. O João Semana é que não é capaz dessas atenções, julgo eu... E que as tivesse...

Tal foi a feição predominante do resto do diálogo, que só terminou quando a lua ia já alta no firmamento, com toda a pompa de um desanuviado plenilúnio.

— Sabes tu - dizia Daniel ao irmão quando juntos se retiravam - que não podia escolher mais galante noiva? Em toda a aldeia não há outra decerto que se lhe ponha a par.

Isto foi dito já na rua, mas próximo da porta do quintal onde se demorara Clara, a cujos ouvidos chegaram distintamente estas palavras de Daniel.

Se elas lhe poderiam ser indiferentes, pergunto eu às leitoras bonitas. Sendo sinceras comigo, não se atreverão a condenar este sentimento de vaidade, que moveu o coração de Clara. Se a vaidade constituísse pecado capital, talvez que certa particularidade do paraíso muçulmano tivesse sua razão de ser.

Clara era pouco reservada.

Tudo quanto sentia, fossem tristezas, fossem alegrias, vinha-lhe do coração aos lábios, por um movimento de expansão irreprimível.

Procurando, pois, a irmã, contou-lhe tudo quanto lhe dissera Daniel, o que ela lhe respondera, e, finalmente, as últimas palavras, que lhe havia escutado.

Margarida não foi senhora de seu coração a ponto de não sentir certa amargura, ao comparar a intensidade da impressão produzida por sua irmã no ânimo de Daniel, que péla primeira vez a via, à indiferença, com que ela fora desatendida - ela, por quem deviam falar tantas memórias do passado.

Eu já disse que Margarida não era de natureza tão superior, que não tivesse dessas desculpáveis fraquezas. Muito para apreciar é já a placidez nas ações, se como ela, se não desmente nunca; seria exigência demasiada e um excessivo querer apurar a natureza humana ao grau da perfeição quase divina, pretender que, no mundo oculto dos pensamentos e dos afetos, reine também a inalterável serenidade, que só pode ser de anjos, e nunca de criaturas, a quem de contínuo os vendavais das paixões salteiam.

O que posso assegurar a respeito de Margarida - e já não é pouco assegurar - é que este movimento de ciúme - nem eu sei se tal nome lhe posso dar - se envenenou, convertendo-se em má vontade contra o objeto, que lho desafiara.

Margarida não sentiu, para com a irmã, nenhum desses odiozinhos feminis, que em tantas tempestades se desencadeiam às vezes.

Calou-se, sorriu até, e pensou consigo:

— E de que me serviria se fosse de outra sorte? Melhor é que a memória lhe seja sempre infiel; melhor, muito melhor para o sossego do meu espírito. Ainda bem.

Era ainda a razão que falava; mas o coração? Aí, o coração!...

É inevitável a luta, sempre que a um espírito vigoroso e lúcido anda associado um coração que sente, que se comove sob a influência dos estímulos naturais dos afetos humanos.

Quando o coração é de gelo, a razão dirige desafogada, imperturbável, em linha reta, o caminho da vida; quando a razão abdica e o coração domina, o movimento é irregular, mas livre; caprichoso, mas resoluto; funesto, mas incessante; porém se o coração e a cabeça medem forças iguais, a cada momento param para lutar, como atletas destemidos. De qualquer lado que tenha de se decidira vitória, será disputada, até o último instante, pelo contendor vencido; a pausa terá sido inevitável; a reação enérgica; e a crise violenta.

Podem passar ignoradas de todo as peripécias desse combate íntimo; mas a aparente tranqüilidade exterior mais lhe exacerbará a crueza.

Margarida escutou por muito tempo a irmã, sem saber como acolher aquelas ingênuas confidências; afinal lembrou-lhe, sorrindo, que devia ser menos sensível à opinião de estranhos quem, dentro em tão pouco tempo, ia ligar o seu destino ao destino de outro.

Clara possuía um gênio, com o qual não se davam as apreensões. Não calculava conseqüências. A vida para ela era o presente. Raras vezes lhe lembrava o passado; o futuro não lhe tomava muitos momentos de meditação também. As palavras e os atos irrefletidos eram nela freqüentes. De nada suspeitava. A sua confiança em todos e em tudo chegava a ser perigosa. Um inesgotável fundo de generosidade, elemento principal daquele caráter simpático, levava-a ao cepticismo em relação à malevolência e à má fé que outros possuíssem. Parecia muitas vezes afrontar a opinião do mundo, e não era por a desprezar, mas porque não pensava nela.

Quem possui um caráter assim, se se não perde, se se não perde inocentemente, é porque tem a defendê-lo a Providência, porque o abrigam as asas do seu anjo da guarda.

Ouvindo depois a observação da irmã, Clara desatou a rir.

— Que me estás aí a dizer, Guida? Que me estás tu a dizer? Então, por eu me casar, devo deixar de fazer gosto de mim? Olha, eu não me quero com gente muito sisuda. A ti perdôo-te, porque enfim... és muito boa também, mas ainda assim não perdias se ... - E, mudando subitamente de tom, acrescentou com um pouco de malícia na voz e no olhar: - Ora diz-me cá uma coisa, Guida, com toda essa tua seriedade, não gostarias também que um rapaz, assim como Daniel, dissesse de ti o mesmo? Anda, confessa.

— Doida!

— Tu és mais velha, bem sei, mas eu sou dentro em pouco mulher casada e por isso posso fazer-te destas perguntas já. Anda, responde.

Esta jovialidade de Clara não foi recebida pela irmã sem confusão.

Em vez de responder, limitou-se a apertá-la nos braços, dizendo-lhe quase ao ouvido:

— Então, Clara! É preciso ser menos criança. Quem está para tão cedo tomar canseiras de família... A falar a verdade...

— E cuidas tu que me hão de tirar esta alegria as tais canseiras? Ai. Guida isso é que não. Com'assim... Olha, eu já não nasci para tristezas.

— E talvez seja melhor - disse Margarida, respondendo a Clara, e pode ser que, em parte, à seus próprios pensamentos.