As Pupilas do Senhor Reitor/XXVI

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XXVI


Quando contaram a João Semana o que se passou entre Daniel e a família dos Esquinas, o velho cirurgião não o quis acreditar. Teve, porém, de ceder à unanimidade das opiniões, e então não se fartou o nosso bom homem de benzer-se, de espantado.

João Semana era intolerante em coisas de moral, e principalmente médica. Para bons ditos, anedotas e contos, ainda que às vezes temperados com o sal de Bocácio, de La Fontaine e da rainha da Navarra, tinha grande indulgência o velho clínico, que, por toda parte, os contava também, sem escolha de auditório, nem de ocasião; mas a menor aventura que de longe sequer se aproximasse do gênero das que ele fazia crônica de tão boa vontade, dificilmente encontraria remissão no seu tribunal. Se o réu era um colega, crescia então de ponto a austeridade. Por isso o procedimento de Daniel encontrou nele um severíssimo juiz.

Forçoso é, porém, dizer que uma circunstância havia em todo aquele episódio, que, mais que nenhuma, o escandalizava. De fato, conquanto manifestamente não o dissesse, o que em extremo o irritava era Daniel ter caído na fragilidade de fazer versos. João Semana não tinha em grande conta de coisa séria a poesia; e então poesia daquela? Inda se fosse um soneto, vá. O soneto tem um aspecto sério, grave e discreto, que não derroga a dignidade de ninguém. Qualquer desembargador, cônego, ministro de estado honorário, ou lente jubilado - quatro das mais sérias entidades sociais - pode fazer um soneto, sem agravo da sisudez oficial; mas aquela poesia travessa, ligeira, folgazã, de Daniel, poesia de um gênero novo para João Semana, poesias sem musas nem Apolo, fê-lo sair fora de si.

Joana teve que o ouvir naquele dia.

— Aí está o que você faz, aí está - dizia ele - por sua causa, pela desastrada lembrança que teve de mandar aquele doido em meu lugar, é que tudo isto sucedeu. Sempre tem lembranças!

— Deixe lá, Sr. João, olhem a grande coisa! - respondia a criada. - Ora! afinal de contas não passa de uma brincadeira. Fosse a rapariga seriazinha, e não tivesse aquela cabeça que nós todos sabemos, que já nada disso acontecia.

— Ela não é que tem a culpa.

— Não tem? Pois quem? Ele? Não que ele é rapaz. Nada lhe fica mal.

— Que diz você? Nada lhe fica mal? Então um cirurgião ou médico pode lá ter essas liberdades? Onde é que se viu um homem da nossa posição fazer versos? Não tem vergonha.

— Ora adeus! São rapazes.

— E a dar-lhe! São rapazes, são rapazes, e acabou-se. Boa desculpa! Essas e outras é que deitam a perder a classe.

— Mas que perde o Sr. João Semana com isso?

— Que perco?

O facultativo, por mais que fez, não conseguiu efetivamente dizer o que perdia; por isso passado algum tempo, continuou:

— Não é bonito aquilo, não; não é.

— Pois sim, não digo que seja; mas com os anos passa-lhe o fogo. Verá.

Em geral, nos tribunais femininos os delitos da natureza daqueles de que João Semana acusava Daniel, são julgados como Joana acabava de julgar este. Grande magnanimidade para com o homem e severo rigor para com a mulher. Entrem lá na explicação do fato os que tiverem estudado. Eu, por mim, registro-o apenas.

Houve longa discussão entre a criada e o amo, a este respeito; discussão que não deu em resultado a vitória a nenhum dos contendores - fato vulgar em quase todas as discussões. - Ela suscitou, porém, em Joana o desejo de se informar melhor das particularidades do delito e da extensão dele.

Em cumprimento desse desejo, tomou a criada do João Semana a sua capa de pano e partiu, logo que pôde, a colher noções.

Depois de muito andar, de muito perguntar e ouvir, e de muito ralhar, em defesa de Daniel, ainda que de si para si, a lisonjeasse um pouco a comparação, que todos estabeleciam entre e João Semana, em grande proveito do último, deu consigo a Sr.ª Joana... onde? Em casa das duas pupilas do reitor.

Foi Margarida quem lhe falou. Passados os usuais cumprimentos, e depois de tentar recusar o oferecimento do cálice de vinho que Margarida lhe fazia, e que afinal sempre aceitava, trouxe a Sr.ª Joana à conversa o assunto que a procurava.

— Então, diga-me cá uma coisa, menina. Que lhe parece o nosso cirurgião novo.

Margarida fitou os olhos em Joana, como para adivinhar-lhe nas feições o sentido da imprevista pergunta.

— Que me parece? Que me há de parecer?

— Sim; não acha que está um bonito médico para uma rapariga doente o mandar chamar? - continuou Joana, sorrindo.

Ignorando ao que a velha criada de João Semana queria aludir, a pupila do reitor, a seu pesar, sobressaltou-se com esta interrogação.

— Mas por que me pergunta você isso?

— Pois não sabe?! Ora a menina, há de andar sempre fora deste mundo! Aposto que não sabe o que por aí vai com Daniel?

— Não - respondeu Margarida, sem já, poder disfarçar a sua curiosidade, à qual certa inquietação, por ela mesmo mal explicada, se vinha misturar.

— É o que eu digo! tornava Joana.

— Mas então que há?

A Sr.ª Joana com a melhor boa vontade informou Margarida da história da menina Francisca; já se sabe com muita severidade de comentários para ela, e a costumada indulgência para com Daniel.

— Aquela bandeira de torre - dizia ela - volta-se para onde lhe sopram. Louvado seja Deus! Não há olhos para que se não enfeite. E ainda o acusam a ele! Faz muito bem: é rapaz. Eu sei que para cirurgião devia ter mais juízo; devia, mas ora!... Hoje em dia, já se não repara nessas coisas. E depois, ele é uma criança e se a Chica não lhe desse trela... estou que se não atreveria a...Em todo o caso, menina, é sempre bom traze-lo de olho. Aquela cabeça, benza-a Deus, não vale grande coisa, não. Sempre assim foi. Como a Clarita lhe casa agora na família, é natural que ele venha por aqui. Cautela menina! Eu bem sei que com certa gente não faz ele farinha, mas...

Margarida forcejou por sorrir às recomendações de Joana, mas conseguiu-o mal. Aquelas palavras atravessavam-lhe o coração.

Afligia-a a leviandade de Daniel.

Estava-lhe, pois, destinada a cruel provação de um desengano destes?

As almas delicadas, como a dela, sofrem intensamente, sempre que vêem projetar-se uma sombra na imagem daqueles, a quem as suas afeições iluminavam de ideal. Ver abaixar-se à região das paixões menos elevadas e nobres, o coração que se tinham costumado a fantasiar, palpitando-o só de generosos instintos, é para as ferir de desalento, ou para as atormentar de desespero.

Joana continuava:

— A menina ri-se! É o que lhe digo. Não lhe dêem muita confiança. Não que ele tenha mau coração. Credo! Conheço-o desde pequeno. Aquilo não faz mal a uma pomba, mas enquanto ao mais... O Padre Santo Antônio nos acuda! Eu digo, que se eu fosse a rapariga... Mas... que tem, que está tão falta de cor, menina? Não está bem?... Que sente?

— Nada - respondeu Margarida, procurando mostrar-se tranqüila. - Não tenho nada. É que está aqui muito abafado...

E, levantando-se, caminhou para a janela, a disfarçar a sua perturbação e a respirar o ar mais livre, que chegava dali, batido pela folhagem das árvores.

— Não que olhe que sempre hoje está um calor! - disse Joana - Mas isso também há de ser debilidade. A menina foi sempre de pouco comer. Beba uma água de caldo, que isso passa-lhe. Ou serão vertigens? Olhe que não é outra coisa. Eu também as tenho e daquelas! As vezes parece que se me parte a cabeça. É como se me tropitasse cá dentro um regimento de cavalaria. O que é muito bom para isso... sabe?

Não se pode calcular para que longa enumeração de receitas tomava fôlego a Sr.ª Joana, cujos conhecimentos terapêuticos a convivência com João Semana enriquecera, se Margarida a não interrompesse, dizendo-lhe da janela:

— Mas quem sabe lá se a inclinação do Sr. Daniel por essa rapariga é sincera?

E, ao dizer isto, passava a mão pela fronte, como se de fato a tivesse tomado uma vertigem.

— Boa! - exclamou Joana. - Sempre tem coisas! A menina então não sabe nem quem é o Daniel, nem a Chica da Esquina.

— Então ele é assim incapaz de gostar de alguém? - perguntou Margarida, com afetada indiferença.

— Ele? Ele gosta de todas. Lá por isso... Vá perguntar ao sobrinho do regedor, que viveu com ele quando andou lá no Porto a estudar para padre... e olhe que também saiu um padre!... de se lhe tirar o chapéu; não tem dúvida nenhuma... mas vá-lhe perguntar quem é o menino. Gostar da Chica?

Neste ponto a Sr.ª Joana fez um gesto, muito de seu; fungou ruidosamente, torcendo o nariz, fechando o olho esquerdo e prolongando o lábio inferior - conjunto de sinais fisionômicos, que valia um discurso.

Em seguida continuou:

— Olhe que ele soube-me muito bem dizer, no outro dia, que só lhe fazia conta mulher que tivesse cem mil cruzados e que a queria da cidade. E ia agora gostar da Chica? estava indo! A menina está a ler.

Esta conversa torturava Margarida. Joana sem o saber, era de uma crueldade inquisitorial. A sua loquacidade prometia longa duração, se as badaladas do meio dia, na torre da igreja paroquial, a não viessem por em sustos de chegar a casa depois de seu amo.

— Aí, meio dia já! Senhor me dê paciência - exclamou ela, juntando as mãos. - E eu que tenho o jantar tão atrasado! Adeus, menina, adeus, sem mais.

E tomando, toda açodada, a capa que tinha pousado, e ajeitando à pressa o lenço engomado que trazia na cabeça, ia a sair, rosnando a oração meridiana:

— Bendita e louvada seja a hora em que meu Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, padeceu e...

Mas, ao transpor o limiar da porta, achou-se inesperadamente em frente de Clara, que a obrigou a parar.

Segundo o costume, vinham radiantes de alegria as simpáticas feições da irmã de Margarida.

Ao ver Joana, saiu-lhe dos lábios uma exclamação de prazer:

— Viva! Já não há quem a veja, Sr.ª Joana! Eu até principiei a rezar-lhe todas as noites por alma um padre-nosso e uma ave-maria.

Joana, a quem tanto quadrava este gênio folgazão e descuidado de Clara, tinha por costume fingir, na presença dela, que o não podia sofrer; mas o jeito que, a seu pesar, lhe tomava a boca, inutilizava-lhe a dissimulação.

— Olhem os meus pecados! - disse ela, voltando para a sala. - Inda mais esta! Boa te vai? Estou bem aviada!...

Clara pusera a olhá-la com atenção e espanto afetado!...

— Então que tafularia é esta?! Lenço novo de cassa! Já reparaste, Guida? E arrecadas! Ai! Estou para morrer. O mundo perde-se! Agora é que o digo.

— É para que você veja - disse Joana, custando-lhe a manter a serenidade.

— Ó Joana, você irá casar-se?

— Olhem, olhem... ela aí vem com as suas tolices! Tenha juízo.

— Não, mas... sério, isto tem que se lhe diga... E penteada! Ai, e penteada!

— Que penteada? que penteada? Cuida que todas são como ela. Sempre está uma mulher casada.

— Ainda não, se faz favor.

— Pobre do homem! melhor sorte merecia aquele Pedro, que tão bom mocinho era... e é.

— Ah! Como ela diz isto! Querem ver que... Queres tu ver Guida, que... Pois será com ele? Veja o que faz Joana, olhe que eu...

— Adeus! Sabe o que mais? Não estou para a aturar. Deixe-me ir embora, ande.

— Embora? Isto é que não vai daqui tão cedo.

— E Jesus, Senhor! Deixe-me ir, que é meio dia, e faz-se-me tarde. O meu amo está a espera... Valha-me deus! Ora o que me havia de aparecer?

— O seu amo? Ainda há pouco ele ia para a banda dos Casais.

— Num momento põe-se em casa. Deixe-me ir menina.

— Não vai.

— Olhem que praga! Então? Isto não tem graça nenhuma. Não vê ali a Margarida como tem juízo.

— Venha com isso a ver se me mete em brios.

— Ai, cuida que eu tenho os seus cuidados? menina, deixe-me ir embora. Que seca!

— Deixe-a ir, Clara, deixa, que pode fazer falta - disse por fim Margarida, que as estivera escutando distraída.

— Vá lá; em atenção à Guida. Mas há de vir então pelo quintal que lhe quero dar um ramo para o Sr. João Semana.

— Não que ele está agora mesmo à espera dos seus ramos; nem dorme com a lembrança.

— Há de levar-lhe um ramo de meu mando. Já disse. Amores antigos não esquecem.

— Olhe, deixe antes isso para o cirurgião novo, que esse é que não lho enjeita.

— Quem? o Sr. Daniel! Ai, é verdade... Tu sabes, Guida? - disse Clara, rindo - A Chica do tendeiro...

— Sei, sei - respondeu Margarida, levantando-se com vivacidade.

— Sempre tem uma cabecinha o tal senhor meu cunhado! Mas eu por mim sou ainda pelo João Semana. Olha, Joana, diz-lhe você que me faças uns versos também? Assim como os do outro.

— Ai, vai já fazê-los; pode esperar por isso.

— Uns versos como os tais da... trigueira... Não eram os da trigueira?

— Sim, sim; tudo se há de arranjar.

— É verdade, que já sei uns que serviam.

E, saindo com Joana para o quintal, Clara pôs-se a cantar: Morena, morena

Dos olhos rasgados

Teus olhos, morena

São os meus pecados.