As Pupilas do Senhor Reitor/XXV

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XXV


Pedro era caçador e dos apaixonados. Dizendo eu isto, já o, leitor, se não é um homem fadado por Deus para felicidades excepcionais cá na Terra, em qual assunto falaria ao irmão o primogênito de José das Dornas.

De fato, quem haverá aí que, por mais de uma vez, não tenha visto irem-se-lhe duas horas seguidas pelo menos, duas horas de tempo preciosos a escutar uma dessas intermináveis descrições de caça, de astúcia de galgos e perdigueiros, de singularidades de tiros; de manhas de lebre, galinholas, garças e perdizes, com que Nemrods desapiedados fazem cair sobre seus irmãos em Adão todo o peso da sua paixão venatória?

Ao princípio acolheu Daniel de bom grado a nova diversão que lhe oferecia o assunto, ao qual não era adverso também. As duas primeiras aventuras de caça escutou-as com atenção não afetada.

Tratava-se de uma caçada de lebres, na qual Pedro obrara maravilhas, com a coadjuvação de um cão, de que ainda agora sentia saudades.

Era um longo romance, que daria para muitos capítulos. Permitam-me que lhes registre aqui ao menos o argumento, o qual, mutatis mutandis, serve para todos do mesmo gênero.

De como se originou o projeto da caça - O que se disse por essa ocasião - Escolha da época - Princípios gerais que devem regular o caçador nessa escolha - Descrição da partida - Enumeração e descrição dos caçadores - Apreciação filosófica das suas qualidades venatórias - Divagação sobre os dotes indispensáveis ao bom caçador - Condições meteorológicas da madrugada, no dia da surtida - Reflexões sobre a influência dela nos destinos prováveis da empresa - Esboço topográfico do campo de ação - Impaciência dos cães - Sinais característicos de um cão de boa raça - Projeto inédito do narrador sobre a educação canina - Algumas considerações sobre a melhor qualidade de espingarda, de pólvora e vestuário mais acomodado ao gênero de caça em questão - Exame do problema: "se é preferível almoçar antes da partida ou no campo" - Primeiros indícios de caça - Alvitres dos caçadores - Análise crítica de cada um dos alvitres, concluindo pela demonstração da vantagem do narrador, o qual prevalece sempre - O primeiro tiro e a primeira lebre morta - O autor atribui, com a possível modéstia, a glória de ambos a si próprio - Novos episódios, alguns lances felizes dos companheiros e muito mais desastrados - De como o autor deu, em certo caso, prova de grande prudência, contemporizando, e em outro, soube ser arrojado, como devia. - Notável contraste nisto com todos os companheiros - Descrição de um aguaceiro, trovoada ou vadeação de um rio, e efeitos próximos e remotos que teve sobre os caçadores - De como se jantou - Amarguras estomacais e provações musculares - Campanha da tarde - Bom emprego do último tiro - Dificuldades que trouxe a noite - Confusão dos companheiros e frieza de ânimo no autor - Considerações sobre a maneira de se orientar no caminho um caçador perdido - Algumas palavras sobre o melhor sistema de cozinha a caça - Preceitos do regime alimentar do cão - Recapitulação de tudo quanto se disse - Peroração em honra da casa em geral e da caça da lebre em particular - Transição para outra história.

Todos estes capítulos, difusamente desenvolvidos, ouviu portanto Daniel, com mostras de curiosidade. A terceira história, porém, já o mais indiferente; a quarta recebeu-a com bocejos, a moda de comentários; a quinta com impaciência manifesta; a sexta com inquietação; a sétima com horror - horror que foi crescendo gradualmente até a duodécima.

Pedro fazia então o elogio fúnebre do perdigueiro, que, havia um mês, lhe tinha morrido.

— Olha que era um animal aquele, Daniel, que parecia que entendia uma pessoa! Eu nunca vi bicho mais fino! Se tu o visses no monte! Aquilo era um azougue. Um dia, tinha ido, eu, o Luís do mestre-escola e o Francisco do alferes.

— Isto que horas serão? - perguntou Daniel, a ver se desviava de si a história iminente.

— Vai nas três - respondeu Pedro, e continuou: Mas íamos nós todos... aí, é verdade, ia também o Domingos cabo-mor... oh!... mas esse não mata um pardal. Tem aquele diabo um costume...

— Que insuportável calor! - bradava Daniel, tão pouco à vontade no leito, como se fora de Procusto.

— Hoje está quente, está - concordou o irmão, e continuou: - Mas tem aquele diabo um costume, que por mais que eu lhe diga, não é capaz de perder.

Daniel colocou a almofada do travesseiros sobre os ouvidos para não ouvir.

— O costume é o seguinte: Tu sabes que no tempo das perdizes...

Foi neste momento que entrou o reitor no quarto.

— No tempo as perdizes, no tempo das perdizes, tanto mentes, quanto dizes. É manha velha de caçador. Gabo-te os vagares, Pedro! Nem que um homem viesse a este mundo para andar de arma, ao ombro e polvorinho a tiracolo, por montes e vales, tiro aqui, tiro acolá, vida de galgo, atrás da lebre; e a casa por aí sabe Deus como!

— Isto era para conversar um bocado - disse Pedro, sorrindo a esta objurgatória do padre.

Daniel ia erguer-se; o reitor não lho permitiu.

— À vontade, à vontade; quem acabou de ouvir uma ladainha de Santo Huberto, como eu imagino... ainda se fosse só imaginar; - como eu infelizmente, sei por experiência também - não deve sentir-se com grandes forças para se ter em pé.

Daniel sorriu.

— Mas veja lá, Daniel - continuou o padre - veja você este seu irmão. Que homem de casa aqui se está preparando! Esquecido a taramelar, e o trabalho da eira entregue aos criados que, quando eu passei, bem pouco se cansavam com ele. Tudo vai ao deus-dará nesta casa, depois que o maldito vício da caça virou a cabeça a este homem! Olha que um chefe de família, Pedro, não é só responsável por si, mas também por toda a sua gente - parentes e criados. - Ele é que deve dar o exemplo. e eu, para te dizer a verdade, não gostei nada de ver aquela doida da Maria, lá embaixo com os meliantes dos teus criados, que só sabem tanger violas e dançar, como ainda agora o fazem. Eu, apesar da coisa não ser comigo, que não sou dono da casa, sempre lhes fui ralhando, para de todo não perder o tempo. Agora tu...

— Pois os vadios estavam a cantar, e com o trabalho por fazer?

— Boa dúvida! Onde o patrão dorme, ressonam os criados. E fazem muito bem.

— Ora eu lhes vou ar já a cantiga.

E, distraído da sua paixão favorita, Pedro saiu do quarto, com direção à eira.

— É um bom rapaz! - disse o reitor ao vê-lo sair.

— Isso é. Pedro há de vir a dar um excelente pai de família - acrescentou Daniel.

— Para isso basta-lhe o grande fundo de moralidade daquela alma! - replicou o padre, indo buscar uma cadeira que aproximou da cabeceira do leito, no qual Daniel, a instâncias dele, se conservava ainda.

Daniel seguia com a vista e os movimentos e gestos do padre, e suspeitava que ele tinha alguma coisa a dizer-lhe.

— A moralidade - continuava este - é a primeira condição para a felicidade do homem. Como pode querer que o respeitem, o que não sabe respeitar os outros, nem respeitar-se a si próprio?

— Temos sermão - pensava Daniel. - Onde quer ele chegar?

De repente o reitor, como se lhe acudira uma idéia imprevista, disse, fitando os olhos em Daniel e em tom que procurou fazer natural:

— É verdade, ó Daniel, então você tem casamento contratado, e não dá parte à gente?

— Eu!?... Casamento?... - exclamou Daniel, deveras admirado, e sentando-se no leito.

— Casamento, sim. Ainda agora me asseguraram.

— E quem é a noiva que me destinam?

— Uma vizinha sua. É aqui a filha do João da Esquina.

— Ah! Isso sim - disse Daniel, sorrindo-se e deitando-se outra vez.

— Isso sim? Não leve o caso a rir, que o negócio é muito sério. Porventura não haverá fundamentos para a notícia que me deram?

— Eu tenho ido a casa dela, é verdade.

— Ah!

— Mas... como médico...

— Não está má medicina a sua! Então que tratamento lhe aconselhou?

— Confortativo - respondeu Daniel gracejando.

— Ah! e o boticário entenderia as receitas que escreveu?

— Nem todos os conselhos médicos precisam do auxílio do boticário. Os banhos do mar, os passeios, os leites de jumenta, e as diferentes prescrições do tratamento moral, por exemplo.

— Estou vendo que foi um tratamento moral que fez.

— Exatamente.

— Olhem que cegueira a do João da Esquina, e a de seu pai, e a minha até, que não vimos que era uma carta de guia para bom caminho, uns mandamentos para a salvação do corpo, e não sei se da alma também, o que ainda há pouco lemos!

— O quê? Pois leram?... - perguntou Daniel com vivacidade, e erguendo-se outra vez.

— Lemos, sim. Mas não entendemos. Veja lá: a mim pareceu-me aquilo uma coisa desaforada; e ao João da Esquina, então? Esse não descansou enquanto não teve de nós a promessa solene de que o obrigaríamos, a si, uma reparação.

Daniel tinha já os pés no pavimento.

— Uma reparação? Por quê?... A quem?...

— Olhem que inocência! precisa talvez que eu lhe responda?

— E que espécie de reparação hei de eu...

— A única devida a uma rapariga, a quem...

— A quem?...

— Cuja boa fama se perdeu!

— Então acusam-me de ter perdido a boa fama daquela menina, e querem constranger-me talvez a casar com ela! - exclamou Daniel sobressaltado, e pondo-se a pé num ímpeto, como se o picasse uma víbora.

— Quem mais o constrangerá há de ser a consciência, que ainda não emudeceu de todo em si.

— Não constrange, não. Não me julgo moralmente obrigado a reparação de qualidade alguma. A menina Francisca... tem uma cabeça... bonita, na verdade, realmente bonita.

— Está bom, está bom. Que tenho eu com essas bonitezas? Isso não vem agora a nada.

— Bonita, digo eu, mas leve, leve como uma bola de sabão - continuou Daniel.

— É defeito de muita gente.

— Achei-a triste, tão triste por ser trigueira... veja que doidice aquela!... que entendi... - não entraria isso nos meus deveres de médico? - entendi que a devia curar. Ora, pensando que para este efeito valeria mais um galanteio do que todas as drogas medicinais...

— Então, então... - disse o reitor, um pouco despeitado com o tom leviano de Daniel - deu agora em gracejar comigo?

— Não gracejo. É que realmente o meu procedimento... não digo que fosse de uma sisudez exemplar, mas não merece as cores negras com que lho pintaram, nem reclama as medidas extremas e violentas que me propõem. Um casamento impossível!

— Impossível! O que aí vai! Não o fazia tão fidalgo! Com que então...

— Olhe, Sr. Reitor - disse Daniel, tomando ar mais sério - vou falar-lhe com toda a sinceridade. Eu sou bastante leviano; conheço que o sou. De ordinário, não me canso muito a calcular conseqüências, antes de dar um passo qualquer. Caminho de olhos fechados em muitos atos da vida, e sobretudo quando só eu lhe posso vir a sentir os efeitos maus. Mas há uma coisa em que não me costumo a pensar levianamente. É no casamento. Se um dia me vir casado...

— Rezarei a todos os santos por sua mulher? Estou certo que será bem preciso.

— Se um dia me vir casado, suponha que encontrei uma mulher, por quem sinto alguma coisa além do amor, por quem sinto o respeito e a confiança que se devem a uma mãe de família. Não tenho sido muito escrupuloso em contrair certa ordem de ligações, é verdade; porém nunca me lembrei de fazer dessas mulheres que amei, nem quando a paixão me cegava mais, os anjos familiares a quem entregamos o nosso futuro inteiro. Neste sentido tem-me espantado o arrojo de muitos. E não é isto tenção formada em mim contra o casamento; mas é que acho muito grave a missão de esposa e de mãe, para a entregar assim levianamente em quaisquer bonitas mãos, só porque são bonitas.

— Isso lá é verdade - disse o reitor, que não previa que nestas palavras aprovadoras assinava sua capitulação.

Daniel, ainda que tivesse sido sincero no que dizia, não desestimou ver assim o reitor quase voltado para o seu lado e prosseguiu com mais ardor:

— Ora quem quiser que tente fazer daquela menina, que sabe os verbos, uma boa mãe de família; eu por mim é que não farei a experiência. Era uma tremenda responsabilidade que tomava para com meus futuros filhos.

— Não, não vamos também agora a fazer da pequena pior que o que ela é, - observou o reitor. A cabeça é um pouco estouvada, sim, mas o fundo é bom, e passados anos... Mas, homem dos meus pecados, se você pensa assim - e nisso não serei eu que lhe diga que pensa mal - para que se mete nestes enredos? Para que dá ocasião a que os outros se julguem com direito a...

— Tem razão, Sr. Reitor. Eu não me quero apresentar como inocente. Digo humildemente: peccavi. Mas que quer? Onde se encontram as facilidades... nem todos tem força para se vencer. E depois, olhe que nos faz falta deveras a capa egípcia de José, para a sacudir dos ombros em ocasiões de aperto.

— Adeus! Aí torna com as suas! - disse o reitor, custando-lhe a disfarçar um sorriso.

O certo é, porém, que o padre estava aplacado. Tranqüilizou Daniel, contando-lhe tudo que tinha sucedido. Fez-lhe um longo sermão de moral, afirmando-lhe no fim que, se não fosse por saber a família Esquina "useira e vezeira" nestas tentativas de especular casamentos de vantagem, e nem sempre por meios justificáveis, seria menos indulgente.

Daniel fez voto de emenda, e protestou ser aquela a sua última rapaziada.

Graças, porém, à loquacidade da Sr.ª Teresa a história dos versos transpirou e causou escândalo na aldeia. Não se falou em outra coisa, durante algumas semanas. Os pais olharam Daniel com desconfiança; os rapazes, com ciúmes; as raparigas, com curiosidade. O trio de línguas da casa dos Esquina cantou a palinódia a respeito de Daniel, e com valentia não menor que a empregada nas loas, com que primeiro o tinham celebrado.

Por todos os lados da aldeia ressoaram os coros. O nível da reputação de João Semana subiu no conceito público. Daniel confirmou sua reputação de libertino e de homem perigoso. Ele é que era indiferente a isso tudo. Dava-lhe poucos cuidados o futuro de sua vida clínica assim tão ameaçado. Continuava gozando, com resignação, se não com prazer, os ócios daquele viver de morgado. As suas maiores distrações eram o passeio, a caça e a pesca.

Na menina Francisca já não pensava. Desprestigiou-a de todo aquela conspiração matrimonial. Do ódio, com o qual daí em diante o honraram os progenitores da menina, nunca ele se lembrou.