As Pupilas do Senhor Reitor/XXXIV

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XXXIV


Uma noite, depois de dormido o primeiro sono, ergueu-se Pedro, como solícito proprietário, para ir rondar um pinhal, distante da casa, onde, segundo informações recebidas, se tinham ultimamente praticado alguns roubos de pinheiros.

Ao vê-lo sair, o criado mais velho da casa, o mesmo ao qual vimos Daniel disposto a fazer compreender a teoria dos eclipses, quis acompanhá-lo.

— Deixe-me ir contigo, Sr. Pedrinho.

— Vai-te daí, homem; eu não sou nenhuma criança, para precisar de companhia.

— Mas...

— Deita-te; já te disse.

E o noivo de Clara saiu, de espingarda ao ombro, e assobiando uma toada popular.

Apesar da quase certeza que tinha de se não encontrar àquela hora com o principal e constante objeto dos seus mais gratos pensamentos, dirigiu o itinerário, com prejuízo da economia de tempo, pela rua em que morava Clara.

É que é já um prazer contemplar os muros, a cujo abrigo se sabe repousar a mulher que se ama; prazer inocente, entre os que mais o são, e que, desde tempos imemoriais, os amantes saboreiam.

Fique a leitora sabendo que, muitas vezes, enquanto dorme, se lhe estão fixados nas janelas, desapiedadamente cerradas e obscuras, os olhos ardorosos de alguns desses tresnoitados passeadores.

À medida que se aproximava do lugar, que o obrigara a este rodeio, ia diminuindo Pedro a velocidade da marcha.

Chegou perto do muro do quintal, e, insensivelmente parou. Lembrou-lhe que bem podia ser que, apesar do adiantado da hora, Clara estivesse acordada, pensando nele talvez. Que amante deixaria de fazer, nas mesmas circunstâncias, iguais suposições?

Como meio de verificação, pôs-se a cantar: Meia noite, tudo dorme;

Só eu não posso dormir;

Pois não me deixa este amor,

Que me fizeste sentir. Depois de pequena pausa, continuou:

Este amor que é minha vida,

Vida do meu coração,

Atrás do qual meus... A interrupção foi devida a certo rumor, que Pedro julgou ouvir dentro do quintal. Calou-se por isso, e pôs-se a escutar.

Tudo caiu em silêncio.

Aplicando, porém, o ouvido à fechadura, pareceu-lhe perceber o murmúrio de vozes abafadas.

— Quem anda aí dentro?! - perguntou em voz alta Pedro, batendo à porta.

Ninguém lhe respondeu.

Continuou a escutar, e de novo julgou distinguir o mesmo som.

Ia interrogar outra vez, mas, refletindo mudou de plano.

Continuou o seu caminho cantando: Este amor, que é minha vida,

Vida do meu coração,

Atrás do qual meus suspiros

E meus pensamentos vão. E seguiu, cantando assim, até certa distância da casa; e depois, retrocedendo, voltou com todas as cautelas, para junto da porta donde viera o rumor que o estava inquietando.

— Se fossem ladrões - pensava Pedro - que haviam de fazer as pobres raparigas, neste sítio solitário, e sem braço de homem em casa para as defender?

E este pensamento decidiu-o a não sair dali sem averiguar aquilo.

O seu estratagema prometia produzir efeito. Desta vez não era possível a ilusão. As vozes percebiam-se distintamente , e como em conversa acalorada, e, entre elas. Pedro julgou reconhecer uma de mulher.

Então, sentiu ele um doloroso constrangimento de coração. Uma idéia terrível, súbita e sinistra, como a luz do relâmpago, lhe iluminou o espírito, e, pela primeira vez, concebeu suspeitas que o fizeram estremecer.

— Se Clara... - murmurou, subjugado por aquela idéia. E um tremor convulso passou-lhe pelos membros com tal violência, que o constrangeu a apoiar-se à ombreira da porta para não cair. Naquele estado, a pulsação febril das artérias das fontes, impediu-o de escutar mais nada; o coração palpitava-lhe tão agitado que o ouviu bater.

O som das vozes tornava-se mais audível, como se aproximassem da porta as pessoas que assim conversavam. Pedro levou maquinalmente a mão ao gatilho da espingarda e ficou à espera com a vista fixa e a respiração reprimida. Era terrível o seu olhar naquele momento.

Ouviu-se o voltar da chave na fechadura, a porta abriu-se lentamente, e um diálogo, travado a meia voz, chegou aos ouvidos de Pedro; mas a energia da vertigem, que lhe tomara os sentidos, não lhe deixava perceber, senão de maneira confusa.

— Foi para lhe dizer isto, só para lhe dizer isto, que consenti em ouvi-lo aqui - dizia a voz feminina - Bem vê que seria uma loucura , se continuasse; mais do que uma loucura, seria um pecado até. Agora espero que cumpra a sua promessa. Mostre que é homem de bem. Adeus.

— Adeus - respondia-lhe outra voz - E perdoe-me se não posso ainda dizer friamente esta palavra. Mas verá se saberei emendar-me. Obrigado pela confiança que teve em mim. Adeus.

E, depois disto, um homem, todo envolvido numa capa comprida, saiu da porta do quintal, tendo antes apertado a mão, que se lhe estendia de dentro.

Pedro mal tinha ouvido, e mal conseguia ver tudo aquilo; passava-lhe pelos olhos como que uma nuvem de fogo. Correu para este visitador noturno com a impetuosidade, de que o animava a raiva e, apontando-lhe ao peito a espingarda, gritou com um rugido aterrador:

— Alto, miserável! Pára, ou está morto!

O homem ficou imóvel.

Dentro do quintal ouviu-se então um grito dilacerante, e a porta, violentamente impelida, veio fechar-se de encontro aos batentes.

Pedro rompeu para o desconhecido, que recuou diante dele.

— Quem és? Quero conhecer-te antes de te matar, infame!

E como o embuçado cada vez procurasse ocultar-se mais, Pedro lançou-lhe a mão, e, com um movimento rápido, descobriu-lhe o rosto, arrojando no chão a capa com que se envolvia. O luar bateu em cheio nas feições do outro.

Reconheceu Daniel.

É inexprimível em linguagem conhecida o que neste momento se passou no coração do pobre rapaz.

— Daniel! - bradou ele sufocado, pela intensidade da comoção que recebera.

Daniel conservava-se mudo e abatido. Dir-se-ia fulminado.

Houve um longo espaço de silêncio.

Pedro sentiu que se lhe formava no coração uma tempestade medonha; um raio de razão que lhe luzia ainda, inspirou-o para dizer em voz já cava e abafada:

— Por alma de nossa mãe, Daniel, por alma de nossa mãe, sai daqui, se não queres que suceda alguma desgraça.

— Ouve Pedro, escuta-me - tentou dizer Daniel; mas as palavras a custo se lhe articulavam, e a voz prendia-se na garganta.

— Daniel, foge, foge daqui, se me não queres perder! foge, irmão! - bradava Pedro, e, como que já sem consciência, contraiam-se-lhe espamodicamente os dedos sobre o gatilho da espingarda.

Daniel ia falar-lhe ainda, quando sentiu uma mão pousar-lhe no ombro, e, em seguida, um homem que, durante o ocorrido se aproximara do lugar, veio interromper-se entre ele e o irmão.

— Retire-se - exclamou este homem com voz severa, voltando-se para Daniel - Eu tinha previsto esta desgraça.

Era o reitor.

Ia a dirigir-se depois a Pedro, mas já não o encontrou ali.

O padre estremeceu.

— Meu Deus, é preciso evitar algum crime. O rapaz vai louco.

Pedro batia violentamente com a coronha da espingarda na porta do quintal, que pouco lhe poderia resistir.

Daniel vendo-o ia correr em defesa da mulher, cujo futuro perdera talvez irreparavelmente.

O padre susteve-o com energia, pouco de esperar naquela idade avançada.

— Retire-se - bradou com voz vibrante exaltada - Não está ainda satisfeito com a sua obra? Quer acabar de perder aquela pobre rapariga?

— Mas ele vai matá-la!

— Estou eu aqui para velar por ela. Cabe-me esse direito, que me foi conferido por sua mãe no leito, onde agonizava. Retire-se.

O reitor naquele momento transformara-se; sublimara-se a ponto de exercer um império completo na vontade de Daniel; no olhar do velho parecia haver não sei que influxo magnético, que obrigou Daniel a baixar a cabeça e a retirar-se, constrangido por irresistível impulso.

Pedro tinha arremetido contra a porta do quintal com verdadeira desesperação. Um pensamento sinistro o dominava; a raiva do ciúme e da vingança perturbava-lhe a razão.

Afinal a porta cedeu. Pedro penetrou no quintal como verdadeiro louco; empeceu-lhe, porém, os passos uma mulher que lhe caiu aos pés, bradando:

— Pedro, Pedro, não cause, não queira causar a minha perdição.

Este grito fê-lo recuar. A voz desta mulher, que o implorava assim. Pedro passou da agitação do delírio à imobilidade do letargo.

— Que é isso? - bradou, enfim, como ao acordar de um mau sonho. - Margarida aqui?

Era efetivamente Margarida a mulher, que de joelhos e mãos erguidas lhe jazia aos pés.

Desenhava-se no rosto da simpática irmã de Clara o mais violento desespero; e quem sabe o que lhe ia no coração.

Era pois Margarida a que tivera a entrevista com Daniel? Abençoada suspeita iluminou pela primeira vez as trevas do espírito atribulado do pobre Pedro! Abençoada lhe chamei, pelo conforto que gerou; porque na horrível tortura de coração daquele desgraçado, foi um bálsamo consolador.

— Margarida - disse-lhe ele, trêmulo de incerteza e de esperança - fale-me a verdade. Em nome de Deus, diga-me; quem estava aqui com Daniel? Diga-me, diga-me tudo pelo Salvador.

Houve um momento de silêncio. Margarida parecia hesitar; por fora da porta apareciam já alguns rostos curiosos, que chegavam atraídos pelo ruído.

— Quem estava aqui com Daniel? - perguntou Pedro.

Na alma de Margarida alguma coisa se passou de terrivelmente doloroso que quase a fez desfalecer.

Fechando os olhos, como quem adota uma resolução desesperada, como quem se despenha num abismo, respondeu com voz tremula, mas perfeitamente inteligível:

— Era eu!

A turbação em que estava não lhe impedia de perceber o sussurro das vozes que, de fora da porta, acolheu esta resposta.

Pedro, alheio a tudo que o rodeava, ergueu as mãos para o céu; e rebentando-lhe as lágrimas dos olhos, exclamou:

— Bendito seja Deus! Sirva de remissão dos meus pecados o tormento destes poucos instantes.

Quando o pároco chegou, encontrou-os nesta posição.

Caminhou com o rosto severo para a mulher que via ajoelhada, mas recuou também, espantado, ao reconhecer Margarida.

— Margarida! Pois era?... O reitor suspendeu-se, antes de concluir, como se um pensamento súbito lhe ocorrera. - Não pode ser, não pode ser. - E aproximando-se de Margarida, tomou-lhe o braço, com energia, bradando-lhe: - Que quer dizer isto, minha filha? Que fazes tu aqui?

Margarida juntou as mãos, e, olhando para o reitor com uma expressão particular, respondeu:

— Peço misericórdia!

— Para que culpa, minha filha?! - perguntou o padre, que não tirava os olhos dela.

— Para a minha...

— Para a... Entendo! - disse ele, como falando para si. - E devo eu consentir que?... Talvez que tenha razão - continuou, fitando em Margarida um olhar de bondade e quase de respeita, e acrescentou a meia voz: - Seja como quiseste, como Deus to inspirou decerto. - Depois voltando-se para Pedro: - E que tens mais que ver aqui, homem!

— Tenho que pedir perdão a todos.

O reitor empurrou-o amigavelmente pelos ombros, dizendo-lhe:

— Vai, vai. Deixa isso para outra vez. Não temos agora vagar para justificações.

— Mas, Sr. Reitor.

— Então! Vai para a tua vida, Pedro. E não me andes mais de espingardas, que são más companhias.

Dando depois com os olhos nos poucos espectadores desta cena, que se conservavam boquiabertos à porta, exclamou, todo irritado:

— E vocês que fazem aí pasmados? Quem vos chamou cá? Não sois tão prontos para o trabalho. Andar! e ter cautela com a língua. Ouviram?

Pedro saiu cabisbaixo. Os grupos dispersaram.

Logo que os viu retirar, o padre levantou Margarida, que se conservava de joelhos e quase exânime e disse-lhe comovido.

— Foi um sacrifício heróico, Margarida, para o qual poucas teriam fortalezas.

— Um sacrifício?

— Sim, não é a mim que iludiste, filha, que te conheço bem e há muito. Vai ter com a verdadeira culpada e...

— Não a condene , Sr. Reitor; o seu anjo bom não a abandonou ainda esta vez.

— Bem sei - respondeu o reitor. - Pois não te vejo eu aqui? Mas vai, e acaba a tua obra abençoada, confortando-a e chamando-a ao caminho do arrependimento. Eu também tenho a minha tarefa. E dou graças a Deus por ter permitido que os meus deveres paroquiais me conservassem por fora até estas horas. Até amanhã, minha filha;

E o reitor saiu, mas em vez de tomar o caminho de casa, voltou na direção oposta.