As Pupilas do Senhor Reitor/XXXV

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XXXV


A cena a que, um tanto imprevistamente, fizemos, no último capitulo assistir o leitor, exige de nós algumas palavras de explicação. Releve-se-nos, portanto, a rápida digressão retrospectiva, em que vamos entrar.

Daniel, como tínhamos dito, prometera a si próprio falar uma vez ainda a Clara, para atenuar a má impressão que a sua última entrevista pudesse ter deixado no espírito da rapariga, e inspirar-lhe de novo a confiança perdida.

Parecerá talvez um meio singular este de corrigir os efeitos de um passo imprudente por outro mais imprudente ainda; mas a razão humana, sofismando com a maior candura do mundo, concebe muitas vezes projetos assim.

Em Daniel, sobretudo, eram freqüentes estas resoluções irrefletidas. Inspirava-lhas um sentimento de mal fundado brio; mas nem sempre era bastante a força do seu caráter para briosamente as sustentar até ao fim.

Não aprendera ainda a desconfiar de si, a ponto de fugir como devia, a essas ocasiões de tentação.

Foi por isso que, esquecido já das suas promessas a Clara, renovou outra vez os antigos passeios pelas circunvizinhanças da casa dela, sempre com esperança de obter a entrevista, que imaginara necessária à reivindicação do seu crédito.

Clara evitava, porém, todos os ensejos de se encontrar com ele, constrangendo-se até, para isso, a um estreita reclusão.

Depois da cena da fonte, prometera ela a sua irmã e ao reitor não falar com Daniel, até estar efetuado o casamento, que o pároco, mais do que nunca, procurou acelerar.

Assim todas as tentativas de Daniel para vê-la e falar-lhe, ou na rua ou na janela, saíam-lhe baldadas.

Longe de o desanimar, este mau êxito antes o estimulou, e irritado pelas dificuldades que encontrava, formou a resolução mais audaz.

Um dia, entrando no quarto, Clara encontrou no chão e próximo da janela, que deixara aberta, um papel dobrado.

Abriu e leu. Era um bilhete de Daniel a pedir-lhe, nos termos mais respeitosos, uma entrevista - a única. Alegava em favor da sua pretensão, o não poder resignar-se à desconsoladora idéia de ser mal conceituado por Clara; prometia e jurava respeitá-la como irmã, pois como tal a considerava já; e acrescentava que não deixaria de a perseguir , até que ela condescendesse a escutá-lo. Se receava, dizia ele no fim, que essa entrevista desse lugar a interpretações injuriosas, regulasse e impusesse elas as condições debaixo das quais a concederia.

Esta carta, que não primava em laconismo, parecia, em boa lógica, dispensar a entrevista requerida e na qual pouco mais restava a fazes do que desenvolver o tema, já tão extensamente assim parafraseado por escrito. mas a lógica não domina de ordinário situações daquelas.

Clara não respondeu ao bilhete e continuou, mais que nunca, a evitar Daniel.

De parte deste continuaram as imprudências, às quais servia de novo estímulo o despeito, esse poderoso fermento de paixões nas almas mais sujeitas a elas.

Outro bilhete, recebido por Clara da mesma maneira, instava ainda com maior veemência pela entrevista pedida.

Clara estava para referir tudo a Margarida, mas faltou-lhe o ânimo.

Este estado de coisas continuou por algum tempo mais; até que um dia Clara, animada de confiança em si, que não perdia nunca, e na boa fé, que depositava nas promessas dos outros, resolveu consentir em escutar Daniel.

Não lhe prometia ele ser essa a condição indispensável para não a perseguir de novo?

— Acabe-se pois este constrangimento em que vivo - dizia ela. - Que posso recear? A minha boa estrela não me abandonará. Formada essa resolução, seguia-se a regular maneira de a levar a efeito.

A curiosidade pública trazia muito vigiada a casa das duas irmãs; era pois difícil iludi-la. Demais, a promessa feita ao reitor e à Margarida embaraçava Clara. Daí, diversos expedientes lembrados, pesados e postos de lado, até enfim terminar pela adoção do pior de todos.

O excesso de prudência e as cautelas conduz muitas vezes a imprudências mais perigosas.

Clara comunicou a sua resolução a Daniel; este, exultando pela confiança que nela via transluzir, agradeceu-lhe com efusão, e prometeu a Clara, e a si próprio, mostrar-se digno dela.

Assim se preparava a entrevista, cujos resultados o leitor conhece já.

Margarida porém, que, observando as recomendações do pároco, continuava a espiar a irmã, não era de todo alheia ao que se passava.

Naquele dia sobretudo julgou perceber nos modos de Clara certa preocupação, que a fez mais vigilante.

Eram trindades quando Margarida ia, como costumava, fechar por suas próprias mãos a porta do quintal. Clara não lho permitiu; e com tal instância teimou em se encarregar desse cuidado, aquela noite, que Margarida teve pressentimento do que se estava preparando. Isto obrigou-a a ficar de pé, depois de se recolher ao quarto.

Apagou a luz para que lhe não suspeitassem a vigília, e não abandonou a janela.

Passado tempo, viu - e com que amargor da alma! confirmadas as suas suspeitas. Clara saia furtivamente de casa. Margarida não hesitou; e com passos incertos e o coração oprimido de tristeza, seguiu-a, sem ser sentida. Valeu-lhe para isso a espessura das árvores que orlavam os arruados do quintal.

Naquele momento, mais comovida das duas não era decerto Clara.

Enfim, ouviu-se o ruído de passos na rua exterior; a porta abriu-se, e Daniel apareceu.

A impressão que neste momento experimentou Margarida, foi tal, que, quase a fez sucumbir.

Cedo, porém, a reação daquela vontade enérgica, apesar de feminil, dominou a luta. Margarida continuou a observar.

Daniel, ao princípio, foi grave, e mostrou-se fiel à promessa que fizera; mas, pouco a pouco, influíram nele as condições singulares daquela entrevista. As palavras ganharam fogo e, em breve, animava-as já o entusiasmo impetuoso de vinte anos. Esquecia-se que viera para justificar-se, e ia agravando a culpa.

Clara, escutando-o, não conseguia disfarçar completamente a turbação que a dominava; mas foram sempre dignas da noiva de Pedro as palavras com que lhe respondia; assim a não traísse o tremor da voz, a ânsia de respirar, e, mais que tudo isso, o fato de se achar ali, só, naquela hora da noite, embora lhe atenuasse o delito o pensamento da generosidade, que a animara a cometê-lo.

Mas os instintos nobres de Daniel só por momentos se deixavam adormecer com as insidiosas carícias da fantasia; pouco bastava para os acordar vigorosos.

Desta vez produziu efeito a salutar cantiga de Pedro.

Escutando-o, ambos se sentiram arrependidos de se acharem ali. Viram claro toda a futilidade de motivos que, momentos antes, para eles justificavam de sobra este passo irrefletido, e curvaram a cabeça.

— É meu irmão - murmurou - que fará aqui por estas horas?

— Trazido talvez pela mão de Deus para... - disse, quase para si, Clara, no mesmo tom de voz.

— Adeus, Clara; perdoe esqueça mais esta imprudência minha. prometo-lhe que será a última. E de hoje em diante...

— Adeus.

Foi neste momento que Pedro os interrompeu pela primeira vez.

O resto já é sabido.

Quando, no momento em que Daniel saía, Clara reconheceu a voz do noivo, soltou um grito de terroso, e, fechando instintivamente a porta, caiu desfalecida na rua do quintal.

Foi então que Margarida correu, que a arrastou nos braços para longe daquele sítio, e depois, sacrificando a sua reputação ao futuro da irmã, veio cair aos pés de Pedro, como a verdadeira culpada.

O conceito que Pedro formava do caráter de Margarida não o tinha deixado imaginar sequer que pudesse ser ela a que aceitara a entrevista com o irmão. Apesar de todo o seu amor por Clara, era maior ainda a confiança que depositava em Margarida.

O que viu depois espantou-o, mas deu-lhe grande alívio.

Clara ignorou tudo quanto ultimamente se passara, pois durante todo este tempo, não recuperara os sentidos. A noite toda levou-a num quase delírio, no qual imaginava ver Pedro e Daniel travando uma luta fratricida.

Margarida, velando a cabeceira da doente, torcia as mãos de desespero.

— Meu Deus! Meu Deus! - dizia ela. - Se lhe não passa este delírio, tudo está perdido. Pedro saberá a verdade.

Pela madrugada, porém, Clara sossegou; um sono reparador acalmou-lhe a febre e, após ele, só ficou o abatimento e uma palidez geral que denunciava a crise terrível que tinha vivido.

Margarida, ao despertar dum sono, também inquieto, por que mal passara, encontrou-a acordada e já aparentemente tranqüila. Receando renovar-lhe a crise em nada lhe falou. Clara olhava-a em silêncio, mas como que não ousava também interrogá-la.

Afinal fez um esforço, fitou a irmã nos olhos arrasados de lágrimas e disse com desalento.

— Tudo está acabado! De hoje em diante, todos me apontarão ao dedo e me chamarão uma rapariga perdida.

Margarida não pode também reprimir as lágrimas.

— Que estás a dizer, Clarinha? Foi mau o passo que deste, foi; mas sossega. Eu, que te ouvi, sei que estás inocente.

— Ouviste?

— Tudo... Eu sabia... Eu suspeitava a verdade.

— Mas ele...

— Ele... Pedro? Nada sabe ainda.

— Nada sabe? Queres enganar-me, Margarida? Pois não surpreendeu ele o ... outro, quando...

— Mas ignora que fosses tu...

— Então quem julga que era?

Margarida calou-se embaraçada, e desviou a vista do olhar fixo da irmã.

— Não sei, mas... tenho a certeza de que ele não suspeita de ti... E sabes? é preciso fazer agora por te levantares, e alegrares-te, para que, se ele vier por aí, não conheça ao ver o estado em que estás, a verdade, ou suspeite mais do que a verdade; que é ainda muito pior. Vamos, veste-te; foi uma nuvem a de ontem; uma nuvem que passou. Hoje está um sol tão vivo - acrescentou, abrindo as portas das janelas - que dá força e alegria. Vê. Ora anda, levanta-te.

Enquanto Margarida assim falava, Clara parecia engolfada em profunda abstração. Afinal, como se nada tivesse percebido de quanto ultimamente Margarida lhe dissera, exclamou com vivacidade:

— Guida, eu quero saber como isto é. Pedro soube que estava uma mulher ontem à noite no jardim. Se, como dizes, ele não suspeita de mim, de quem pode pois suspeitar?

Margarida não respondeu, e abaixou os olhos perturbada.

— Guida, dize-me a verdade - continuou Clara mais inquieta já. - Pedro julga-me inocente.

— Julga.

— Quem é pois a seus olhos a culpada?

A confusão de Margarida serviu de resposta.

De pálidas que estavam, tingiram-se então de um rubor de indignação as faces de Clara. meia erguida no leito, os olhos animados, os lábios trêmulos, exclamou:

— Ele suspeita de ti! de ti! Margarida? Pedro suspeita de ti? E pôde ter um pensamento... e pôde imaginar que tu serias... Atreveu-se a acusar-te! Ele? Pedro! Mas diz-me, Guida, Como ele fez isso? Quem lhe deu esse direito?

— Fui eu.

— Tu!

— Sim, fui eu. Não lho poderei eu dar? - acrescentou Margarida, quase sorrindo, e, afastando os cabelos desordenados, que cobriam a fronte da irmã.

— Entendo. Perdeste-te para me salvar. Limpaste com os teus vestidos a lama dos meus, para me apresentares pura aos olhos do meu noivo, que com razão me supunha culpada! Entendo. Viste-me perdida, e fizeste como aquela criança que, há tempos, se afogou para livrar um irmão da corrente; salvaste-me, mas afundando-te. E havia eu de consentir nisso, Margarida? Tão má idéia fazes tu de mim, para imaginares que aceitaria tu um sacrifício igual? Não; quero que Pedro saiba tudo; que me perdoe ou que me despreze depois; a uma ou outra coisa me sujeitarei; mas sacudir sobre a tua cabeça a vergonha que chamei sobre mim, Oh! isso...

Margarida tomou-lhe afetuosamente as mãos e em tom persuasivo pôs-se a dizer:

— Ora escuta, Clarinha. Hás de primeiro ouvir-me com muito sossego e muito juízo e depois dirás se eu tenho razão. Queres contar a verdade a Pedro, dizes tu. Que fazes com isso? Torna-lo infeliz , fazes com que entre ele e o irmão exista sempre, daí por diante, um motivo para aversão; e a ti, que amas Pedro, apesar de uma leviandade de momentos, e a mim, que te amo, e a nós ambas, e a todos, a todos vais fazer infelizes. Eu que posso perder em que Pedro continue na mesma suspeita? Se ninguém mais a tem? - forçou-se ela a dizer, mas baixando os olhos, porque bem sabia que mentia. - Ele não é capaz de a divulgar. E depois, olha, Clarinha, quem nunca pensou em grandes futuros, não tem que ter saudades de projetos desfeitos. Eu já não formo projetos há muito; acredita. Cansei-me. Hoje recebo tudo da mesma maneira. E olha - continuou sorrindo - que dentro em pouco, chego a não diferenciar o que é bem do que é mal. Tenho-me feito assim. Que lhe hei eu de fazer? Mas tu, minha pobre irmã, que ainda fazes tantos projetos, não te custaria a perder o mais risonho de todos? De mais a mais, eu tenho uma dívida antiga a pagar-te, e não sossego enquanto a não pago. Lembras-te quando me vinhas ajudar nas tarefas, e repartias comigo a tua ração de merenda? São serviços que nunca mais esquecem. Deixa-me pagar-tos da maneira que posso. Se soubesses como é uma consolação para os pobres achar um meio de saldar as suas dívidas! Então, vamos, prometes não dizer nada?

— Guida, Guida! O que me pedes é impossível. Seria um grande pecado, se eu deixasse assim a outra expiar a falta que é toda minha.

— Clarinha, não vês que, de outra sorte, causas a desgraça de tantos?

Clara levou as mãos às faces e calou-se.

Neste momento, o reitor entrara de mansinho na sala. Pousara o chapéu e a bengala, e pusera-se a contemplar as duas irmãs, que lhe não sentiram a entrada.

Passado algum tempo de silêncio, Clara levantou de novo a cabeça, e com voz lacrimosa, exclamou:

— Pois deverei aceitar este sacrifício, meu Deus?

— Deves - respondeu o reitor, adiantando-se. - É necessário respeitar inspirações dos anjos como este! - e apontava para Margarida. - Eu também hesitei ao princípio, mas, depois que julguei melhor, resolvi obedecer-lhe. Minha filha, o que se passou na noite de ontem, tem-no por um aviso do céu. Dá graças a Deus por te não haver abandonado a tua boa estrela, e faz por nunca mais incorrer em um perigo daqueles. Mas aceita; não é só a tua felicidade que recebes do sacrifício da tua irmã, é a de Pedro e a de uma família inteira, é a da própria sacrificada, pois não é assim, Margarida?

— Se for preciso que lho peça de joelhos... respondeu a bondosa rapariga.

— Não há de ser. Agora vou procurar Daniel. A Pedro já eu confortei. Consegui dissuadi-lo de vir aqui, porque suspeitei que sua vinda podia ser funesta, enquanto se não desvanecessem naqueles olhos todos os sinais e lágrimas. Daniel não pude encontrar ainda... O pobre rapaz errou toda a noite por esses caminhos, e Deus queira....

— Jesus, meu Deus - exclamou Margarida fazendo-se pálida. - Acaso receia que ele... ?

— Tenho fé que nenhuma desgraça sucederá; mas é mister olhar por isto. Adeus.