As Pupilas do Senhor Reitor/XXXVII

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As Pupilas do Senhor Reitor por Júlio Dinis
Capítulo XXXVII


Pelas dez horas da manhã desse dia, estava Margarida na sala, onde ordinariamente trabalhava, tendo à volta de si, uma turba de rapariguinhas, ocupadas em diversos trabalhos de costura.

Em pé, junto dela, dava uma destas lições de leitura. Margarida seguia o texto, olhando por cima dos ombros da criança, corrigindo-lhe os erros, às vezes, com um sorriso de afabilidade, outras com uma voz inflexão de voz maternalmente severa.

Era nos Evangelhos que a pequena lia.

O reitor recomendara o livro à Margarida, dizendo-lhe que o ensinasse às discípulas, que era guia seguro.

A criança lia naquele momento a parábola do filho pródigo, em S. Lucas.

— "E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o Céu e diante de ti; e daqui em diante não sou digno de ser chamado teu filho.

"Disse, porém, o pai aos seus servos: Tirai o melhor vestido e vesti-lho, e metei-lhe um anel no dedo e os sapatos nos pés:

"E trazei o bezerro gordo, e matai-o, e comamos e alegremo-nos;

"Porque este meu filho era morto e reviveu, e tinha-se perdido a achou-se. E começaram a alegrar-se"

O reitor, que não usava cerimônias em casa de suas pupilas, entrou neste momento com Daniel, na sala imediata. Percebendo que Margarida ainda estava ocupada com a tarefa, que de tão boa vontade tomara sobre si, disse a Daniel, convidando-o com um gesto a sentar-se, e fazendo-lhe ao mesmo tempo sinal para que não interrompesse a lição.

— Esperemos. São perto de onze horas. Deve estar a acabar. - E acrescentou, suspirando:

— Que rapariga esta, meu Deus! Depois do que passou ontem, já hoje a cumprir as suas obrigações, com aquela serenidade do costume! É admirável, na verdade! - E depois - continuou ele, falando ainda a meia voz - se soubesse, Daniel, como nobremente se votou ao trabalho, ela, a quem a irmã franqueava tudo quanto possuía? Outra que fosse... mas aquele coração é de um quilate! Que penetração de espírito, que luz e inteligência aquela! Fez quase por si só a sua educação.

— E foi esta a que se sacrificou? - perguntou Daniel.

— Foi.

Ambos de novo se calaram.

A criança concluía neste momento o texto bíblico:

— "Ele, porém, lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas.

"Convinha-nos, porém, alegrar-nos e folgar; porque este teu irmão era morto e reviveu, e tinha-se pedido e achou-se"

Um beijo, que o reitor e Daniel ouviram distintamente, foi a recompensa concedida por Margarida à discípula, ao terminar a leitura, que ela fizera com inteligência e numa quase expressiva melopéia, perfeitamente adequada à poesia dos versículos.

Depois foi a voz de Margarida, que lhe chegou aos ouvidos; sonora, suave, melancólica, cheio de sentimento e bondade, ecoou saudosamente no coração de Daniel, que mal podia explicar a natureza da comoção que experimentava ao ouvi-la.

— Olha, Ermelinda, - dizia ela - Hás de ver se decoras, para que nunca te esqueçam, aquelas palavras de Cristo: "Há mais alegria no céu sobre um pecador, que se arrepende do que sobre noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento". Diz isto mesmo a história que leste. Jesus Cristo falava ao povo de maneira que o povo todo o entendesse; por isso lhe contou a história do filho pródigo. O Céu é também a casa do pai, onde se recebem com festas e alegrias, os pecadores arrependidos, esses filhos pródigos do Senhor. É uma grande consolação o saber que não há pecados, que uma contrição sincera não possa remir; alma tão perdida do mal, que não possa ainda voltar-se com esperança para o Céu.

O reitor trocou neste momento um olhar significativo com Daniel, que parecia recolher com avidez todas as palavras de Margarida. Estavam elas exercendo em seu coração o efeito dum bálsamo salutar.

Margarida, depois de breve pausa, prosseguiu, como deixando-se levar pela corrente de seus pensamentos, e falando mais para si, do que ainda para as crianças que a escutavam:

— Cada alma perdida, que se arrepende, é uma vitória do nosso Anjo da Guarda sobre o espírito do mal. A paixão, que nos trazia cega, deixa-nos enfim, e calcamo-la então aos pés, como aquela Nossa Senhora da Conceição fez à serpente tentadora. E nunca é tarde para o arrependimento. Quem caminhasse com os olhos tapados para um despenhadeiro, podia salvar-se ainda, abrindo-os junto da borda. Junto? Às vezes até um ramo, a que nos seguremos na queda, nos pode salvar. A fé na misericórdia de Deus é como esse ramo. Seja o arrependimento sincero, e um olhar do Senhor nos amparará. Uma oração bem sentida, bem da alma, à borda do túmulo, pode chamar sobre uma vida inteira de pecados a luz do perdão divino.

Margarida dissera estas palavras, pausada, serenamente e com tanta unção religiosa, que Daniel sentiu-se comovido. Olhou para o reitor, viu-o atento, imóvel; o padre parecia estar escutando ainda aquela voz, que o prendia, como se pregasse uma doutrina nova e diversa da que tantas vezes ele próprio proclamara do altar à leitura dos Evangelhos.

Daí a alguns instantes, Margarida despedia-se das suas pequenas discípulas com um beijo, e uma palavra afetuosa para cada uma. Seguiu-se o rumor que elas faziam ao saírem tumultuosamente e depois o silêncio.

Margarida ficara só.

— Agora chegou a nossa vez de sermos doutrinados - disse o reitor para Daniel. - E esteja certo que é são a doutrina que vier daquela boca.

Aproximando-se da porta de comunicação entre as duas salas, abriu-a de mansinho, e disse, metendo a cabeça pela abertura.

— Licença para dois.

Margarida que estava sentada, com a cabeça entre as mãos, e absorta em profundo meditar, ergueu-se de súbito, à voz do reitor, e caminhou para ele, repetindo:

— Licença para dois? Pois quem nos traz consigo?

Mas, antes de receber resposta divisou por entre a porta, meia aberta o rosto pálido de Daniel.

Ao reconhecê-lo, Margarida estremeceu, e voltou para o reitor o olhar interrogativo e inquieto.

O Padre entrara já na sala.

— Que foi fazer? - disse-lhe Margarida, a meia voz e quase assustada.

— Deixa-me. Fiz o que entendia - respondeu o pároco; e voltando-se para Daniel, que hesitava em entrar, acrescentou: - Entre, Daniel, entre. Aqui tem a santa e corajosa rapariga que...

— Senhor!... - exclamou Margarida, erguendo para ele as mãos, como a implorar caridade.

Daniel deu alguns passos na sala.

— O que há de dizer o irmão ingrato e perverso, à irmã sublime e generosa? - disse ele fixando em Margarida um olhar de simpatia e de respeito que a obrigou a desviar o seu.

Seguiu-se um silêncio constrangedor para ambos.

Foi ela a que primeiro sentiu a necessidade de pôr termo a esta situação.

Para isso era-lhe preciso um esforço poderoso, enérgico, que rompesse todas as peias da timidez que a enleava.

Não a abandonou ainda desta vez a força com que sabia dominar-se. Foi já com aparente firmeza que, dentro em pouco, conseguiu responder:

— Sr. Daniel, esses cumprimentos não são de ocasião, nem eu sou para eles. Coisas mais sérias nos devem ocupar. A felicidade de duas pessoas está-nos confiada; está de alguma sorte nas nossas mãos. Uma palavra só a pode perder; bem o sabe. É preciso que nós todos três tratemos de segurar-lha. Por mim, fiz o que estava ao meu alcance. Mas não dê ao sacrifício maior valor que o que ele tem. Eu pouco tinha a sacrificar, além da paz da consciência. Essa, já vê que a conservei; o mais...

— A paz da consciência! Foi essa mesma que eu perdi e perdi-a para sempre! - disse Daniel com abatimento.

— Não diga isso - continuou Margarida, com a presença de espírito que, passada a primeira turbação, pudera readquirir. - Não diga isso. Pedro ignora tudo. É o principal. Clara está arrependida de sua imprudência. Mais alguns dias, para esquecer de todo o abalo a noite de ontem, e tornará a ser alegre como dantes. Sossegue, pois. O Sr. Daniel há de continuar a gozar da estima de todos, dos que mais ama, e... ninguém haverá sacrificado.

— Esqueceu-se de si, Margarida. E julga que a devem, ou a podem esquecer os outros?

— Os outros? Quando eu não me queixo, ninguém tem o direito de me lamentar.

Estas palavras saíram-lhe dos lábios como irresistivelmente, e com uma amargura, que o reitor julgou perceber.

— Aí, Margarida, filha - disse o velho, meneando a cabeça com um modo expressivo, e sorrindo entre afável e descontente - olha que até aos infelizes, até na desventura, é um pecado o orgulho; sabes?

— Orgulho, Sr. Reitor? aí, creia que não o sinto. Orgulho de quê? Mas é que de fato pouco tinha eu a sacrificar, e pouco sacrifiquei. As vozes do mundo... - será orgulho isto, será - mas é certo que não penso no que dirão. Além de que, quando me fosse mil vezes mais custoso o sacrifício, como havia de evitá-los? Achava melhor que a sacrificassem a ela, que tem mais a perder? a ela, por quem prometi velar quando ás portas morte, mo pediu, chorando, sua mãe? Bem vê que não.

O reitor, de olhos no chão, alisava com a manga do casaco o chapéu, sem atinar palavras que respondesse.

— Mas não falemos em mim - continuou Margarida, dum modo cada vez mais sereno. - Clara está melhor; temo porém ainda que possa receber com firmeza e a sangue frio a visita de Pedro. Será possível, sem causar desconfianças deles, adiar para mais tarde essa primeira visita?

— É possível, é - respondeu o reitor, enquanto que Daniel folheando maquinalmente um livro, parecia nem atentar no que se estava dizendo. - O pobre rapaz está com remorsos de ter suspeitado de Clara , e treme só com a lembrança de a ver.

— É necessário que se lhe faça acreditar que minha irmã ignora e deve ignorar tudo o que se passou, ou pelo menos que nada sabe das suspeitas de Pedro...

— Mas... - ia o reitor a dizer.

Margarida interrompeu-o continuando:

— É indispensável. Eu conheço muito bem Clara; pode sujeitar-se a tudo, menos a ouvir Pedro, cheio de arrependimento, pedir-lhe perdão, a ela, que é... que se julga a verdadeira culpada.

— Tens razão, Margarida - disse o reitor, depois de ter estado algum tempo a ponderar sobre o caso - tens razão. E assim é melhor, até porque se evitam explicações que não poderiam ter muito bons resultados. Mas...

— E agora permitam-me que vá ver Clara, sim?

— Pois vai; mas... - insistiu o reitor, seriamente embaraçado com alguma coisa, que ele queria dizer, sem encontrar maneira conveniente.

— Que é? - perguntou-lhe Margarida, percebendo aquela hesitação; e acompanhava a pergunta com um sorriso de habitual tranqüilidade.

— Mas... isto com'assim não me pode sair da idéia - continuava o padre.

— O quê?

— Sim... a falar a verdade... tu, minha filha...

— Eu... que tenho?

— Tu... assim... Valha-me Deus! não se pode fazer nada...

— Por quem é, Sr. Reitor. Não torne a falar nisso. Não vê que pouco se me importa? Não lho disse já tantas vezes?

— Porém, Margarida, eu sou teu tutor, assim como de Clara; quero-te como pai e não posso, não devo consentir que o castigo caia sobre a cabeça inocente, sobre a tua cabeça, filha. É contra a justiça, é contra a religião.

— Inocente! - redargüiu Margarida, a sorrir. - Que está a dizer, Sr. Reitor? Quem é inocente neste mundo? Deixe, deixe cair em mim isso que chamam de castigo, que encontrará pecados a remir; e quisesse Deus que mos remisse todos.

— Ainda assim... Eu nem sei o que faça... Valha-me Nossa Senhora, valha! Sempre é uma esta!

E, ao dizer isto, o reitor olhava Daniel, como que a ver se lhe viria auxílio dali.

Daniel, de braços cruzados e cabeça inclinada, parecia alheio ao diálogo dos dois.

Margarida aproximou-se do reitor.

— Não sabe o que há de fazer? Digo-lho eu . Siga o seu primeiro pensamento; foi o de ajudar-me. Por que há de agora desconfiar daquilo que parecia aceitar com tamanha fé esta manhã? Não tinha desculpa, se assim me deixava só a salvar Clara. Mas é tempo de ir ter com ela. Adeus.

E dizendo isto, tomou-lhe a mão, que respeitosamente beijou, e ia retirar-se.

Diante da porta encontrou Daniel, que a fez parar.

— Margarida - disse-lhe ele, com profunda agitação, manifestada na voz e no gesto - essa resolução não é tão unicamente de sua responsabilidade, como diz; sacrifica-se a sorrir, mas não reparara que mais alguém pode sentir o sacrifício.

— Quem?

— Eu.

— Como?

— Que se dirá de mim, do meu caráter, vendo destruída, por minha culpa a sua reputação, Margarida, e eu ocioso, tranqüilo, descuidado... e feliz?

— E que se diria, se se soubesse a verdade? Qual acha de preferir?

— Pois bem. Oculte-se muito embora a verdade. Não quer sacrificar sua irmã? Compreendo e admiro a nobreza dessa resolução, creia. Mas não posso consentir que uma indesculpável leviandade da minha parte seja a causa desse imenso sacrifício, sem que...

— Já lhe disse que não era imenso: mas que fosse, como queria evitá-lo?

O reitor repetia a interrogação com os olhos.

— Pois não vê que a única maneira, Margarida, é... Eu sei que sou indigno de aspirar a tanto, mas perdoe-me, a única maneira é não me recusar a reparação que lhe devo: permita-me que reuna ao seu o meu destino, já que a Providência...

— Bravo! atalhou o Padre, batendo com a bengala no chão - Isso mesmo é que eu tinha aqui dentro a pesar-me; até que enfim respiro.

Margarida estremeceu ao ouvir Daniel, e instintivamente levou as mãos ao coração como se fora ferida aí. Em poucos instantes, as faces, de ordinário pálidas, passaram-lhe por cambiantes rápidas de cor. Trêmula de ansiedade, sentiu vergarem-lhe os joelhos e enevoar-lhe a vista. Valeu-lhe o apoio de um móvel próximo para não cair. Por algum tempo tentou em vão responder; a voz não lhe saía da garganta.

Daniel olhava-a ansioso. O padre esfregava as mãos exultando de júbilo.

Afinal, vencendo esta violenta comoção, e assumindo outra vez a placidez habitual, respondeu com uma voz, onde sem dificuldade se podia descobrir ainda um indiscreto tremor:

— Obrigada. É generoso o oferecimento... mas não posso aceitá-lo.

— Que diz? exclamou Daniel.

O padre passou do júbilo à estupefação.

— Pois queria que aceitasse? Aceitá-lo-ia se estivesse no meu lugar? Diga? Qual será o maior martírio; sofrer as murmurações, as injúrias, os desprezos até, de milhares de pessoas, que afinal de contas, nos são indiferentes, ou aceitar a compaixão de quem nos é... de quem nos devia ser tudo no mundo? Daquele, a quem teremos de dar todos os afetos, todos os cuidados, todos os pensamentos. Imagina bem essa tortura?

— Mas, Margarida, quem lhe disse que é por compaixão que eu lhe faço o oferecimento? Se o aceitar, creia que o agradecido serei eu.

— Se essas palavras fossem sinceras, Sr. Daniel, era bem certo então que possuía um desgraçado caráter! Receie sempre de si, desses primeiros movimentos, a que obedece tão depressa. Já que é tão fácil em mudar, ao menos faça por ser mais forte contra si mesmo. Vença-se. Não está ainda vendo o mal que pode fazer assim?

— Tem razão em duvidar de mim. O meu passado condena-me, porém talvez seja injusta demais para comigo. Julga-me capaz de...

— Perdão; não julgo, não tenho o direito de julgar, bem sei. Em todo caso, não posso aceitar.

— Margarida! - disseram-lhe a um tempo o padre e Daniel.

— Não, não posso aceitar - repetiu Margarida, já com maior veemência. - Nunca me julgaria mais desonrada e perdida, do que quando aceitasse uma proposta como essa, feita por outro qualquer motivo, que não fosse a força do coração.

— Mas eu lhe juro que o meu coração...

— Oh, não diga mais! - disse Margarida, interrompendo-o. - Até me faz mal ouvir-lhe esses juramentos; lembra-me os que ainda ontem fazia a Clara. Repare no que ia a dizer; assim abre o coração, a quem, momentos antes, nem conhecia sequer?

— Não há tal; - disse o reitor - diz tu que, desde criança, já te conhece ele, e até...

— Oh! por quem é - atalhou Margarida, que previu logo onde o reitor queria chegar. -Por quem é! O que ia dizer!

— Margarida - continuou Daniel - perdoe, se a consciência das minhas culpas... e acredite que a estou sentindo bem amarga, mas perdoe-me, se ela me não constrange ainda ao silêncio. Eu vejo que tem razão para duvidar de mim; mas será só isso? Por que não me confessa também que recusa porque sentindo insensível o coração, desconfia dele igualmente?

— Desconfiar do meu coração! - disse Margarida, com uma leve inflexão de ironia na voz, a qual os dois não perceberam, e continuou: - Mas... é que não desconfio.

— Então?

— Conheço-o; e o que sei dele, como o que aprendi do seu, Sr. Daniel, levam-me a recusar.

— Quer dizer que me não pode amar?

— Sim... julgo que sim. Eu desconfio que nem tenho coração! Eu sei lá! Não o sinto bater, pelo menos. Bem vê que não devo aceitar. Adeus.

E com um singular sorriso nos lábios saiu da sala, onde ficaram os dois, atônitos e silenciosos.

Quem, naquele momento, pousasse a mão no coração de Margarida, como veria desmentidas as suas últimas palavras.