Cantigas de Martim Codax, presumido jogral do século XIII/Comentário filológico

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Cantigas de Martim Codax, presumido jogral do século XIII por José Joaquim Nunes
Comentário filológico


I. Enquanto o se dos versos 2, 5, 7 e 10 serve de introduzir uma oração subordinada a um dizei-me ou expressão equivalente, o do estribilho, aliás independente, exprime ao mesmo tempo a incerteza, a dúvida e a ansiedade que dominam o coração da protagonista; o futuro simples, mas interrogativo, parece-me, teria igual sentido, é possível contudo que aqui queira significar o mesmo que nos versos 2, 5, etc., dirigindo-se a pergunta a Deus. Em prosa e na língua de ho je dir-se-ia: ai, meu Deus, se virá (ou só virá êle) em breve?

Verso 4. Sôbre mar levado, veja-se a cantiga V, verso 5.

Versos 8 e 10. A antiga língua usava o relativo que no mesmo sentido em que a actual emprega quem.

II. A oração ca ven, etc. (versos 2, 5, etc.), explica a palavra mandado, equivalente a notícia, recado (assim a frase aver mandado o mesmo quer dizer que: chegar notícia ou saber) à qual serve de aposto ou continuado. A par de que, o português arcaico servia-se de ca em igual sentido (integrante).

Versos 8, 11, etc. A forma sano e estoutras: irmana, la, salido, que ocorrem na cantiga seguinte e, contra o uso do tempo, manteem o n e l intervocálicos, serão talvez arcaismos, conservados no povo, ou empréstimos do castelhano, se não se admitir antes, como se me afigura preferível, que, naquelas em que há —n—, esta consoante serve de nasalar a vogal precedente, estando em vez do til, o que não é raro na grafia antiga; quanto a lo e la (artigos), deve notar-se que êles ainda persistem em frases estereotipadas e, quando pronomes demonstrativos, depois de formas verbais (e do advérbio eis), terminadas em r, s ou z.

III. Versos 1, 3, 8 e 11. A antiga forma treides, que deve ser a 2.ª pessoa do plural do ind. presente, representante da latina tragais, com valor de imperativo, é exclusiva da poesia arcaica; quanto ao sentido, equivale ao actual vinde. Também desapareceu do uso o advérbio u (v. v. 2, 5), etc., sendo substituido por onde. O possessivo mia, pela nasalização comunicada ao i pelo m inicial, evolucionou em mia, donde minha.

Versos 2 e 7: mar salido é expressão paralela a mar levado (v. 5 o 10) e aplica-se ao mar que se levanta e sai fora de si em virtude da elevação da maré.

Verso 4. A expressão de grado vive ainda, mas acompanhada do adjectivo bom, isto é, de bom grado ou gostosamente.

Versos 8 e 11. Parece que a protagonista, que a princípio se dirige à irmã, volta-se agora para a mãe; assim pensa Oviedo y Arco, que diz: «A mi entender, la frase mia madre está en vocativo: el futuro verrá, en singular, lo reclama pero lo reclama mas urgentemente el sentido. La protagonista cantora dirige-se en las dos primeras estrofas a su hermana, Mia hermana fremosa (vocativo), para que la acompañe a la iglesia de Vigo y en las dos ultimas habla a su madre, mia madre, como pidiendole autorización para entrevistarse con el amante que va a emprender viaje»; no entanto, D. Carolina Michaëlis, que diz poder ler-se madre (vocativo) ou madr'e (nominativo), acha estranho «que a namorada, acompanhada da irmã, se encontre na igreja de Vigo com o amado, e juntamente com a mão dela (nossa madre portanto), a fim de admirarem o espectáculo imponente do mar embravecido, como seria o caso de ela se dirigir à irmã numa estrofe o à mãe na outra», estranheza de que não partilha o comentador, acabado de citar. O antigo futuro verrá (também I, v. v. 3, 6, etc), desapareceu ante o actual virá, formado sôbre o infinitivo

IV. Versos 1 a 4. Sôbre o sentido da partícula se (cf. 1, 3, 6, etc.).

Versos 2, 5, 7 o 10. —Ao lado da forma senlheira[1] acusada pelos Cancioneiros da Vaticana e Colocci-Brancuti, existia senheira, empregada na fôlha pergaminácea a que atrás me referi; uma e outra, que aliás constam de outros

textos e tinham o sentido de ou sózinha, são peculiares da língua arcaica.

Versos 3, 6, etc. Aqui vou vale tanto como estou, ando.

Versos 5 e 10. A forma manho, 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo de um antigo verbo maer, que hoje apenas vive nos compostos permanecer, remanescer, desapareceu também do uso; a sua sinónima o paralela é estou.

Versos 8, 11, 13 e 16 As gardas, forma constante da citada fôlha pergaminácea, representante de-certo da pronúncia do tempo, que ainda vive no povo, ou guardas, como teem os Cancioneiros, a que a namorada se refere devem ser a irmã e a mãe, sentinelas vigilantes, sobretudo a última, da sua honestidade. O pronome-adjectivo nulhas, que acompanha o vocábulo gardas e foi talvez tomado do provençal, é exclusivo da antiga poesia; corresponde-lhe hoje: nenhumas.

Versos 14 e 17. Porque a forma ergas só ocorro nesta cantiga, na seguinte e no n.º 1112 do Canc. da Vaticana enquanto ergo é a única usada pelo Canc. da Ajuda (cf. v. v. 405, 719, 767, 1494, 1700, 3504, 7148, 7357, 7713, 7706, 7835, 7838 7851 o 7864), por antigos documentos notariais, tanto galegos, como portugueses (por exemplo nos Doc. gal., de Salazar pág. 17, linha 5) e em Viterbo, por um códice que reputo do século XV (cf. Rev. Lusitana, XVIII, pág. 35), a que predomina no C. V. (cf. n.º 235, 297, 301, 357, 823), apesar da concordância dos três manuscritos, parece-me que se deverá corrigir ergas em erg'os, entendendo que o copista trocou o o por a e na imediata regulou-se pelo que acabava de escrever.

V. Versos 1 e 4. Quantas saberles amar amigo (amado) vale o mesmo que (vós) tôdas as que tendes amores ou andais namoradas.

Versos 2, 4, 7 e 10. Sôbre treides o lo (cf. III, 1, 4 o II, 8, 11, etc.).

Versos 8 e 11. A antiga língua dizia veer, que a moderna contraiu em ver.

VI. Versos 1 e 4. Com a actual forma no coexistia no português arcaico eno, tendo sido desta, que resultou de en no, que proveio aquela.

Versos 1, 4, 14 o 17. Sagrado, a concordar com o substantivo oculto, lugar, ainda hoje se chama àquele espaço, nos cemitérios, prèviamente santificado pela benção do sacerdote, no qual se sepultam os católicos, e, como dantes, as jazidas eram dentro e no adro das igrejas, veiu aquele têrmo a tomar-se por êste; igual sentido tem sacrato em italiano cf. Körting, Lateinisches Romanisches Wörterbuch.

Versos 2, 5, 7 e 10. Corpo velido (=belo) ou delgado (= delicado, elegante) o mesmo é que uma formosa. Já em latim a palavra corpus se tomava no sentido de pessoa; cf. entre outros passos, Virgílio, Eneida, VI, 21-22.

Versos 8, 11, etc. Que nunca ouvera amigo (arnado), vale tanto como: que ainda não sabia o que era amar, que até aí não tivera namorado.

Versos 14 e 17. Pelas razões expostas na cantiga IVª (v. v. 14 e 17) e de harmonia com os versos 1 e 4, entendo que estes se devem corrigír em:

ergu' eno sagrad' en Vigo
ergu' en Vigu' eno sagrado.

O poeta dá à cantiga feição narrativa, mas ao mesmo tempo presta à bailarina a exclamação amor ei, como se tôda ela fõsse um solilóquio da namorada.

VII. Evidentemente as palavras tarda... sem ini (v. v. 3, 4, etc.), parecem significar: se demora em vir alegrar-me com a sua companhia.

Notas[editar]

  1. Afigura-se-me esta mais antiga que a outra, senheira, pois, enquanto senlheira mostra a transformação regular do grupo gl (de sing(u)laria) em lh, aquela apresenta já assimilação do lh (ou l molhado) ao n precedente, ou seja passagem de palatal lateral a nasal. D. Carolina Michaëlis, no seu citado artigo, dá como portuguesa a forma senheira o peculiar da Galiza a senlheira, pois diz: «mas senlheira, segundo o uso antigo conservado na Galiza, (de singlaria) está no Cancioneiro, o senneira à portuguesa, na folha solta».