Cantigas de Santa Maria/VII

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Cantigas de Santa Maria por Afonso X
Cantiga VII: Santa Maria amar


Esta séptima é como Santa Maria livrou á abadessa prenhe, que adormecera ant’ o seu altar chorando.

Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nos, por que errar
non nos faça, nem pecar,
o Demo sem vergonha.

Porende vos contarei
un miragre que achei
que por um’ abadessa
fez a Madre do gran Rei,
ca, per com’ eu apres’ hei,
era-xe sua essa.
Mais o Demo em artar
a foi, por que emprenhar
s’ouve d’um de Bolonha,
home que de recadar
havia é de guardar
seu feit’ e sa besonha.

Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nos, por que errar
non nos faça, nem pecar,
o Demo sem vergonha.

As monjas, pois entender
foron esto e saber,
ouveron gran lediça;
ca, por que lhes non sofrer
queria de mal fazer,
havian-lhe maiça.
E fóron-a acusar
ao Bispo do logar,
e él bem de Colonha;
chegou i; e pois chamar
a fez, veio sem vagar,
leda e mui risonha.

Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nos, por que errar
non nos faça, nem pecar,
o Demo sem vergonha.

O Bispo lhe diss’ assi:
« Dona, per quant’ aprendi,
mui mal vossa fazenda
fezestes; e vin aqui
por esto, que ante mi
façades end’ emenda. »
Mas a dona sem tardar
a Madre de Deus rogar
foi; e, come quem sonha,
Santa Maria tirar
lhe fez o filh’ e criar
lo mandou en Sanssonha.

Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nos, por que errar
non nos faça, nem pecar,
o Demo sem vergonha.

Pois sa dona espertou
e se guarida achou,
log’ ant’ o Bispo veio;
e él muito a catou
e desnua-la mandou;
e pois lhe viu o seio,
começou Deus a loar
e as donas a brasmar,
que eram d’ordim d’Onha,
dizendo: « Se Deus m’ampar’,
por salva poss’ esta dar,
que non sei que lh’ aponha. »

Santa Maria amar
devemos muit’ e rogar
que a sa graça ponha
sobre nos, por que errar
non nos faça, nem pecar,
o Demo sem vergonha.