Cantigas de Santa Maria/XVII

Wikisource, a biblioteca livre
Ir para: navegação, pesquisa
Cantigas de Santa Maria por Afonso X
Cantiga XVII: Sempre seja bẽeita e loada


Esta XVIIa é como Santa Maria guardou de morte á honrada dona de Roma, a que o Demo acusou pola fazer queimar.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

Maravilhoso miragre d’oir
vos quer' eu ora contar sem mentir,
de como fez o diabre fogir
de Roma, a Virgem de Deus amada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

En Roma foi, ja ouve tal sazón,
que uma dona mui de coraçón
amou a Madre de Deus; mas entón
sofreu que fosse do Demo tentada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

A dona mui bom marido perdeu,
e com pesar dél per poucas morreu;
mas mal conorto d’um filho prendeu
que dél havia, que a fez prenhada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

A dona, pois que prenhe se sentiu,
gran pesar ouve; mas depois pariu
un filh’, e u a nengum non viu
mató-o dentr’ em sa cas’ encerrada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

Em aquel tempo o Demo mayor
tornou-s’ em forma d’home sabedor,
e mostrando-se por devinhador,
o Emperador lhe fez dar soldada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

E ontr’ o al que soub’ adevinhar,
foi o feito da dona mesturar;
e disse que lho queria provar,
em tal que fosse log’ ela queimada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

E pero lh’ o Emperador dizer
oiu, ja per ren non lho quis creer;
mas fez a dona ante si trager,
e ela veio bem acompanhada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

Poi-lo Emperador chamar mandou
a dona, logo o Dem’ ar chamou,
que lhe foi dizer per quanto passou,
de que foi ela mui maravilhada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

O Emperador lhe disse: « Molher
bõa, de responder vos é mester. »
« O bem », diss’ ela, « se prazo ouver
em que eu possa ser conselhada. »

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

O emperador lhes pos praz’ atal:
« D’hoj’ a tres dias, u non haja al,
venha provar o maestr’ este mal;
se non, a testa lhe seja talhada. »

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

A bõa dona se foi ben dali
a um’ eigreja, per quant’ aprendi,
de Santa Maria, e diss’ assi:
« Senhor, acorre á tua coitada. »

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

Santa Maria lhe diss’: « Est’ afán
e esta coita que tu hás de pran
faz o maestre; mas menos que can
o tem em vil, e sei bem esforçada. »

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

A boa dona sem nium desdém
ant’ o Emperador aqui a vem;
mas o Demo entón per nulha ren
non a conheceu nem lhe disse nada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.

Diss’ o Emperador: « Par San Martin,
maestre, mui pret’ é a vossa fim. »
Mas foi-s’ o Demo e fez-lh’ o bocim,
e derribou do teit’ uma braçada.

Sempre seja bẽeita e loada
Santa Maria, a noss’ avogada.