Cartas Chilenas/IX

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Cartas Chilenas por Tomás Antônio Gonzaga
9ª Carta
Em que se contam as desordens que Fanfarrão obrou no governo das tropas.

Agora, Doroteu, agora estava

Bamboando, na rede preguiçosa

E tomando, na fina porçolana,

O mate saboroso, quando escuto

De grossa artilharia o rouco estrondo.

O sangue se congela, a casa treme,

E pesada porção de estuque velho,

A violência do abalo despegada

Da barriguda esteira, faZ que eu perca

A tigela esmaltada, que era a coisa

Que tinha, nesta casa, de algum preço.

Apenas torno em mim daquele susto,

Me lembra ser o dia em que o bom chefe,

Aos seus auxiliares, lições dava

Da que Saxi chamou pequena guerra.

Amigo Doroteu, não sou tão néscio,

Que os avisos de Jove não conheça.

Pois não me deu a veia de poeta,

Nem me trouxe, por mares empolados,

A Chile, para que, gostoso e mole,

Descanse o corpo na franjada rede.

Nasceu o sábio Homero entre os antigos,

Para o nome cantar, do grego Aquiles;

Para cantar, também, ao pio Enéias,

Teve o povo romano o seu Vergílio:

Assim, para escrever os grande feitos

Que o nosso Fanfarrão obrou em Chile,

Entendo, Doroteu, que a Providência

Lançou, na culta Espannha, o teu Critilo.

Ora pois, Doroteu, eu passo, eu passo

A cumprir, respeitoso, os meus deveres

E, já que o meu herói, agora, adestra

Esquadras belicosas, também, hoje,

Tomarei por empresa só mostrar-te

Que ele fez, na milícia, grandes coisas.

Ha, nesta capital, um regimento

De tropa regular, a quem se daga.

Tu sabes, Doroteu, que não há corpo

Que, todo, de iguais membros se componha.

Das ordens mais austeras, que fizeram

Os santos penitentes patriarcas,

Saíram, contra o trono rebelados,

Os infames Clementes, e saíram

Contra o dogma, os Calvinos e os Luteros;

O mesmo Apostolado teve um Judas.

Se isto pois, Doroteu, assim sucede

Nos corpos, que se formam de escolhidos,

Que não sucederá, nos grandes corpos,

Aonde se recebam as pessoas

Que timbre fazem, dos seus próprios vícios?

O meio, Doroteu, o forte meio

Que os chefes descobriram para terem

Os corpos que governam, em sossego,

Consiste em repartirem com mão reta

Os prêmios e os castigos, pois que poucos

Os delitos evitam, porque prezam

A cândida virtude. Os mais dos homens

Aos vícios fogem, porque as penas temem.

Ora ouve, Doroteu, o como o chefe

Os castigos reparte aos seus guerreiros.

Não há, não há distúrbio nesta terra,

De que mão militar não seja autora.

Chega, prezado amigo, a ousadia

De um indigno soldado a este excesso:

Aperta, na direita, o ferro agudo

E penetra as paredes de palácio,

No meio de uma sala, aonde estavam

As duas sentinelas, que defendem,

Da casa do dossel, a nobre entrada.

Aqui, meu Doroteu, aqui se chega

Ao camarada inerme e, pelas costas,

O deixa quase morto, a punhaladas.

Que esperas tu, agora, que eu te diga?

Que o militar conselho já se apressa?

Que já se liga, ao poste, o delinqüente?

Que os olhos, com o lenço, já lhe cobrem?

Que a bala zunidora já lhe rompe

O peito palpitante? Que suspira?

Que lhe cai, sobre os ombros, a cabeça?

Meu caro Doroteu, o nosso chefe

É muito compassivo, sim, bem pode

Oprimir os paisanos inocentes

Com pesadas cadeias, pode, ainda,

Ver o sangue esguichar das rotas costas

À força dos zorragues, mas não pode

Consentir que se dê, nos seus soldados,

Por maiores insultos que cometam,

A pena inda mais leve: assim praticam

Os famosos guerreiros, que nasceram

Para obrarem, no mundo, empresas grandes.

Ele, sim bem conhece que não há-de

Talar, com estas tropas, as campinas,

Que o céu lhe não concede a esperança

De entrar no templo augusto da Vitória,

Coberto de poeira e negro sangue.

Mas sempre, Doroteu, as quer propicias,

Pois, inda que não cinjam as espadas,

Para cortar loureiros e carvalhos,

Que a testa lhes circulem, são aquelas

Que, prontas, executam seus mandados;

São aquelas, que infundem, nestes povos,

O medo e sujeição, com que toleram

O verem em desprezo as leis sagradas.

Conhece, Doroteu, o próprio chefe,

Que vai passando a muito a liberdade

Das fardas atrevidas, e, querendo

A tais desordens pôr remédio e freio,

Não manda que se cumpram as leis santas

Que, aos delitos, arbitram justas penas.

Manda, sim, um cartaz, aonde inova

Que, todos os domingos, na parada,

Se leia o militar regulamento.

Indigno e bruto chefe, de que serve

Que se leiam as leis, se os malfeitores,

Do que mandam, não vêem um só exemplo.

Tens visto, Doroteu, o como o chefe

Os delitos castiga; agora sabe

Da sorte que reparte, aos bons, os prêmios.

Morreu um capitão, e subiu logo,

Ao posto devoluto, um bom tenente.

Porque foi, Doroteu? seria, acaso,

Por ser tenente antigo? Ou porque tinha

Com honra militado? Não, amigo,

Foi só porque largou três mil cruzados!

Ah! não mudes a cor de teu semblante,

Prudente Maximino! Não, não mudes.

Que importa que comprasses a patente?

Se tu a merecias, a vileza

Da compra não te infama, sim ao chefe,

Que nunca faz justiça, sem que a venda.

Reforma um capitão e, no seu posto,

Encaixa, sem vergonha, a Tomazine,

Um moço, na milícia pouco esperto,

Que um ano inda não tinha de tenente.

Em que guerras andou, em que campanhas?

Quais as feridas, que no corpo mostra?

Aonde, aonde estão as diligências,

As grandes diligências arriscadas,

Que fez este mancebo, com que possa

Preferir aos antigos, destros cabos?

Ah! sim, eu já me lembro! Tem serviços,

Tem famosos serviços, na verdade:

A casa deste moço, bem que pobre,

É a casa somente, aonde o chefe

Entra em ar de visita, bebe e folga.

Aqui tens teu lugar, meu bom Lobésio;

Tu foste a capitão e tu passaste

Ao posto de major em breves meses.

Quais são os teus serviços? Quais? Responde.

Mas não, não me respondas; eu conheço

Que és tolo, que és brejeiro e, mais, que mandas

As redradas pedrinhas. Estes dotes

Te fazem, no conceito do teu chefe,

Um digno pai da pátria, herói do reino.

Também tu, ó Padela, te distingues

Na corja dos marotos. Tu conservas

De capitão o cargo, mas tu logras

O soldo de maior, e mais as honras.

Que foi que te fez digno de subires

À privança do chefe? Ah! sim, eu vejo

O teu merecimento! É coisa grande:

Ultrajas aos ministros e proteges

A todos os tratantes, que exercitam

O furto e o contrabando. Tu, piedoso,

Não queres ver perdido um só soldado;

Se algum, se algum consente que se escalem

Os vedados lugares, tu escreves

Ao sucessor honrado e lhe suplicas

Que parte não te dê, de um tal desmancho.

O teu fidalgo peito não se vence

Da sórdida avareza. Tu repartes

Os luzentes seixinhos c’o teu chefe,

E, bem que o seu Matúsio, em nome dele,

Os ache miudinhos, sempre servem.

Também tu, digno irmão, também cavalgas

O posto de tenente, por dizeres

Que honrado comandante, na parada,

Austero te corrige, por falares

Dos retos magistrados, sem respeito.

Que vezes a cachaça... Mas, amigo,

Deixemos de falar na paga tropa

E vamos a falar do grande corpo

Da gente auxiliar; aqui podemos

Acabar de dizer o mais que falta.

Tinha este continente, levantados,

De tropa auxiliar uns treze corpos.

O nosso chefe ainda não se farta:

Alista o povo inteiro, e, dele, forma

Inda mais de quarenta regimentos,

Mais faminto de ver galões e fardas

Que Midas de trocar em ouro puro

As coisas em que punha o torpe dedo.

O coronel, valente, agarra tudo

Quanto tem, de varão, a forma e traje;

Nem lhe obsta, Doroteu, que os seus soldados

Meninos inda sejam; que eles crescem,

E cresce, com os corpos, igualmente,

O santo amor das armas. Muitos, muitos,

Quando vão para a igreja receberem

As águas salvadoras do batismo,

Já vão vestidos com a curta farda.

Este mesmo costume tem, amigo,

O pago regimento. Apenas nasce

Aos cabos algum filho, logo, à pressa,

Lhe assenta o chefe, de cadete, a praça

Venturoso costume, que promete

Produzir, de cordeiros, tigres bravos!

Aníbal, Doroteu, desde menino

Com seu pai militou; talvez não fosse

O terror dos romanos, se passasse

A tenra, inda imberbe mocidade,

Entre os moles prazeres de Cartago.

Contudo, Doroteu, o céu permita

Que guerras não tenhamos;pois, a termos

Algum acampamento, que constranja

A saírem da praça os regimentos,

Há de haver bom trabalho em conduzir-se

O rancho de crianças em jacases.

Há-de, também, haver despesa grande

Em levar-se uma tropa de mulheres,

Que dêem o peito a uns e a outros papa.

Tu sabes, Doroteu, que as nossas tropas

De infantaria são, porem montada;

Que as leis do nosso reino não consentem

Que estas montadas tropas se componham

De membros, que não tenham certas rendas,

Com que possam manter os seus cavalos.

Ora ouve, Doroteu, quais são as posses

Dos míseros paisanos, que se alistam

Nos fortes regimentos: quase todos

Um sendeiro não têm, e muitos deles

Gemeram nas prisões, por não poderem

Ajeitar uma grossa e curta farda.

Eu topei Doroteu, por várias vezes,

Atrás de um regimento, os rapazinhos

Em veste e mais descalços: fina idéia

Em que deram os cabos, para verem

Se, à força de vergonha, se fardavam.

Eu sei, eu sei, amigo, que alguns destes,

Cansados de sofrerem mais opróbrios,

Fizeram fardamentos dos produtos

Dos únicos escravos, que venderam

E dos trastes alheios, que furtaram.

Perguntarás, agora, doce amigo:

"Aonde estão os ricos taverneiros?

Aonde os mercadores, que têm lojas

A que chamam de seco e de molhado?"

Aonde, Doroteu? Eu já t’o digo:

Estão, estão, também, nos regimentos,

Mas trazem nas direitas, que conservam

Inda lixosas peles, as bengalas.

Não rias, Doroteu, das nossas tropas.

De que gente formou um corpo invicto

O luso Viriato? Foi de moços

Criados, desde a infância, nas campanhas?

Não foi, meu Doroteu, foi de uns pastores,

De uns pastores incultos, que, animados

Do esforço do seu chefe, conseguiram

Vitórias singulares, contra um povo

Que ao mundo sujeitou, à força de armas.

Os homens, Doroteu, são todos fortes

Em cima das muralhas, que defendem

As chorosas mulheres e as fazendas,

Os ternos filhos e os avós cansados.

A desordem, amigo, não consiste

Em formar esquadrões, mas, sim, no excesso.

Um reino bem regido não se forma

Somente de soldados; tem de tudo:

Tem milícia, lavoura, e tem comércio.

Se quantos forem ricos se adornarem

Das golas e das bandas, não teremos

Um só depositário, nem os órfãos

Terão também tutores, quando nisto

Interessa, igualmente, o bem do império.

Carece a monarquia dez mil homens

De tropa auxiliar? Não haja embora

De menos um soldado, mas os outros

Vão à pátria servir nos mais empregos,

Pois os corpos civis são como os nossos,

Que, tendo um membro forte e os outros debeis,

Se devem, Doroteu, julgar enfermos.

É também, Doroteu, contra a policia

Franquearem-se as portas, a que subam

Aos distintos empregos, as pessoas

Que vêm de humildes troncos. Os tendeiros,

Mal se vêem capitães, são já fidalgos;

Seus néscios descendentes já não querem

Conservar as tavernas, que lhes deram

Os primeiros sapatos e os primeiros

Capotes com capuz de grosso pano.

Que império, Doroteu, que império pode

Um povo sustentar, que só se forma

De nobres sem ofícios? Estes membros

Não amam, como devem, as virtudes,

Seguem à rédea solta os torpes vícios.

Daqui saem os torpes malfeitores,

Os vis alcoviteiros, os perjuros,

Os famosos ladroes; numa palavra,

A tropa insultadora de vadios.

A este corpo imenso de milícia

Concede Fanfarrão as regalias

Que as nossas leis não dão aos bons vassalos,

Que chegam aos empregos mais honrosos,

Em paga de proezas e serviços.

Não quer, não quer o chefe, que aos seus cabos

Mandem citar os tristes acredores

Por ordem de justiça. Quais os grandes,

Que não vêm a juízo sem licença

Do príncipe, a quem servem, nesta terra,

Sem licença do chefe, não se citam

Os negros, os crioulos e os mulatos,

Mal vestem a fardinha e, muito menos,

Mal cingem, na cintura, honrosa banda.

Se alguém requer ao chefe que permita

Para isso faculdade, põe-lhe em cima

De humilde petição, que o suplicado

Componha ao suplicante o que lhe deve.

Se diz o suplicado ao suplicante

Que não lhe deve nada, foi-se embora

O sólido direito, que a policia

Do chefe não consente que se ponha

Aos seus oficiais, inda que sejam

Velhacos e ladrões, no foro, um pleito.

Já viste regalia igual a esta?

A pátria, Doroteu, concede aos nobres,

Que os postos exercitam, grossas rendas,

Com que possam pagar, aos mais vassalos

As coisas que lhes compram; não concede

Ao mesmo general que vista e coma,

À custa do suor dos outros homens.

E quando o rei não quer pagar a todos,

Com dinheiro contado, remunera

Os serviços com graças, mas daquelas

Que deixam sempre intacto o jus alheio.

Não são somente isentos da justiça

Os cabos valerosos. Onde habitam,

Se acolhem, Doroteu, os malfeitores,

E, quais antigas casas de fidalgos,

Ou famosos conventos, que, na porta,

Têm as grossas cadeias, onde pegam

Os míseros culpados, aqui todos

Se livram dos meirinhos, bem que sejam

Indignos, torpes réus de magistrado.

Se os ousados meirinhos entrar querem

Nas casas destes cabos, a que chamam

Militares quartéis, os fortes donos

Encaixam nas cabeças os casquetes,

Apertam as correias, põem as bandas

E, cingindo as torcidas, largas folhas.

Ultrajam com palavras a justiça,

Resistem, gritam, ferem, matam, prendem.

Os zelosos juízes punir querem

A injúria da justiça: formam autos,

Procedem às devassas, pronunciam,

E mandam que estes nomes se descrevam

Nos róis dos mais culpados. Mas, amigo,

De que serve fazer-se o que as leis mandam

Na terra, que governa um bruto chefe,

Que não tem outra lei mais que a vontade?

O chefe onipotente logo envia

Atrevidos soldados, que, chegando

À casa do escrivão, os nomes riscam

Do rol dos delinqüentes e lhe arrancam

Da fechada gaveta os próprios autos.

Ousado, indigno chefe, que governo,

Que governos nos fazes? A milícia

Ergueu-se para guarda dos vassalos,

E tu, e tu trabalhas, por que seja

A mesma que nos prive do sossego

Que, próvidas, nos dão as leis sagradas.

Agora, Doroteu, talvez trabalhes

Em achar o motivo por que o chefe

Concede tanto indulto aos seus soldados;

Pois ele, Doroteu, não é o enigma,

Que vem nos doces versos de Vergílio,

De umas flores, que têm de reis os nomes

Escritos sobre as folhas, e do sitio

De que três braças só do céu se avista.

O chefe, Doroteu, só quer dinheiro,

E, dando aos militares regalias,

Podem os grandes postos, que lhes vende,

Subir à proporção, também de preço.

Tu assim o conheces, Cata Preta,

Pois deste mil oitavas por trazeres

Lavrado castão de ouro sobre a cana.

Tu também, capanema, assim discorres,

Pois largaste seiscentas, por vestires

De capitão maior vermelha farda.

Todos assim o julgam. Ah! só pensa

De diversa maneira, aquele néscio

Que sofreu que Matúsio lhe rompesse

A passada patente à sua vista,

Por não largar, de luvas, os trezentos.

Dize-me, Doroteu, um chefe sábio

Levanta nas conquistas umas tropas,

Com que não pode a força do distante

Conquistador império? Infunde, inspira

Nos cabos tanto orgulho, que se atrevam

A resistir aos mesmos magistrados,

Que a pessoa do augusto representam?

Maldito, Doroteu, maldito seja

Um bruto, que só quer a todo custo,

Entesourar o sórdido dinheiro.