Cartas Chilenas/VII

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Cartas Chilenas por Tomás Antonio Gonzaga
7ª Carta

Há tempo, Doroteu, que não prossigo

Do nosso Fanfarrão a longa história.

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Que não busque cobrí-los com tal capa,

Que inda se persuada que os maís homens

Lh'os ficam respeitando, como acertos .

Enquanto ao conhecer destes despejos,

Pespega à lei a boa inteligência,

Que extensiva se chama. Sim, entende

Que aonde o rei ordena que só haja

Recurso a ele mesmo, nos faculta

Recurso aos generais, pois que estes fazem,

Em tudo, e mais que em tudo, as suas vezes.

Ah! dize, meu amigo, se podia

Dar-lhe outra inteligência o mesmo Acúrsio .

Esse grande doutor, que já nos finge,

Nos princípios de Roma, conhecida

A Divina Trindade, e que pondera

Que do cão, que na palha está deitado,

A velha fúria, lei se diz canina.

Maldito, Doroteu, maldito seja

O pai de Fanfarrão, que deu ao mundo,

Ao mundo literário tanta perda,

Criando ao hábil filho numa corte,

Qual morgado, que habita em pobre aldeia!

Ah ! se ele, doce amigo, assim discorre,

Sabendo apenas ler redonda letra,

Que abismo não seria, se soubesse

Verter o breviário em tosca prosa.

Se entrasse em Salamanca, e ali ouvisse

Explicar a questão daquela escrava

Que foi manumetida em testamento,

Se três filhos parisse, e outras muitas

Que os lentes nos ensinam, desta casta !

Enquanto, Doroteu, ao outro ponto

De julgar aos expulsos inocentes,

Também razão lhe dou, porque, primeiro

Se informa com aqueles, que os réus dizem

Que sabem, mais que todos, do seu caso.

Nem é de presumir que estes lhe faltem

A verdade, jurando, pois têm alma.

Sê boa testemunha, meu paizinho

A quem o vulgo chama Pé-de-Pato.

Confessa se não foste o que juraste

Que deste uma denúncia e fora falsa.

Indigno e bruto chefe, em que direito

Entendes que se firmam tais processos ?

Um réu, a quem condena um magistrado,

Pode mostrar o injusto da sentença

Dando umas testemunhas que juraram

Sem haver citação da sua parte ?

Dando umas testemunhas inquiridas

Por juiz que não pode perguntá-las ?

E como, louco chefe, e como sabes

Que a defesa convence, se nem viste

Os autos, em que a culpa está formada ?

Suponho que juraram novamente

Aqueles mesmos que as denúncias deram:

O segundo e contrário juramento

Não é que se reputa, sempre, o falso ?

E quem chega a comprar um grande chefe

Não pode inda melhor comprar um negro ?

Amigo Doroteu, estes pretextos

São como as bigodeiras, que não podem

Fazer se não conheçam as pessoas,

Que dançam nos teatros por dinheiro.

Não lucra, doce amigo, o nosso chefe

Somente em revogar os extermínios

Que fazem os ministros: ele mesmo

Ordena se despejem os ricaços,

Ainda que estes vivam sem suspeita

Do infame contrabando. Desta sorte

Os obriga, também, a vir à tenda

Comprar, por grossas barras, seus despachos.

Todos largam, enfim, e todos entram

No vedado distrito, sem que importe

Haver ou não haver de crime indicio.

Só tu, meu Josefino, sô tu ficas

No mandado desterro, por teimares

Em não querer largar, ao vil Matúsio,

Uns tantos mil cruzados, que pedia.

Só tu... porem, amigo, é tempo, é tempo

De fechar esta carta, pois, ainda

Que a matéria, por nova, te deleite,

A muita difusão também enfada.

Eu a pena deponho, e só te peço

Que tomes a lição, que te apresenta

O nosso Fanfarrão, no seu mulato.

Não desfaças, amigo, as ruças becas.

Vai-as distribuindo aos teus lacaios,

Bem como faz o chefe às suas fardas,

Que, enquanto estes as rompem, poupam

As librés amarelas asseadas.