Cartas de Marx ao Dr. Kugelmann/Prefácio à edição Russa de 1907

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Prefácio à tradução Russa de Cartas de Marx ao Dr. Kugelmann
por V. I. Lênin
Originalmente publicado em 1907 no panfleto: MARX, Karl. Cartas ao Dr. Kugelmann – editado e prefaciado por N. Lênin. Novaya Duma Editores, São Petersburgo (em russo). Tradução (em inglês) na obra Lenin Collected Works. Volume 12: 1907. Foreign Languages Publishing House: Moscow, 1962. pages 104-112, disponível no Marxists Internet Archive, utilizado para esta tradução colaborativa wikisource.


Nosso propósito ao editar um panfleto separado com a coleção completa das cartas de Marx a Kugelmann já publicadas no semanário Social-Democrata Alemão, Neue Zeit, é familiarizar o público russo a Marx e o marxismo. Como é de se esperar, boa parte do espaço na correspondência de Marx é dedicado a assuntos pessoais. Esse material é extremamente valioso para o biógrafo. Mas para o público geral, e para a classe trabalhadora russa em particular, aquelas passagens nas cartas que contem material político e teórico são infinitamente mais importantes. No período revolucionário em que atravessamos, nos é particularmente instrutivo fazer sério estudo deste material, que revela Marx como um homem que reagia diretamente a todas questões do movimento operário e da política mundial. Os editores da Neue Zeit têm muita razão ao dizer que "[ao ler as cartas] nós somos elevados pelo conhecimento mais próximo da personalidade dos homens cujos pensamentos e desejos tomaram forma no período de grandes turbulências". Tal familiaridade é duplamente necessária para o socialista russo em 1907, pois fornece uma riqueza de materiais indicativos das obrigações diretas que confrontam os socialistas em cada revolução pela qual um país passa. A Rússia experimenta uma "grande turbulência" neste exato momento. Na atual revolução russa, a social-democracia deve moldar sua política cada vez mais àquela do Marx nos comparativamente agitados anos [mil oitocentos e] sessenta.

Devemos, portanto, nos permitir fazer somente menções breve àquelas passagens na correspondência de Marx que são de particular importância do ponto de vista teórico, e devemos lidar mais minuciosamente com sua diretriz revolucionária como representativa do proletariado.

De extraordinário interesse como uma contriubição para um entendimento mais completo e profundo do marxismo é a carta de 11 de Julho de 1868. Nesta carta, polemizando com os economistas vulgares, Marx expõe claramente sua concepção do que é chamada Teoria do valor "do trabalho". Aquelas mesmas objeções à teoria do valor de Marx – que naturalmente surgem nas mentes dos leitores menos treinados de O Capital, e por essa razão, reproduzidas avidamente pelos representantes comuns ou menores da "ciência" burguesa "professoral" – são aqui analisadas por Marx de maneira breve, simples, e com notável lucidez. Aqui, Marx mostra qual caminho ele tomou e qual caminho a ser tomado para elucidar a lei do valor. Ele nos ensina seu método, utilizando as objeções mais comuns como ilustrações. Ele faz a clara conexão entre uma questão puramente (assim pareceria) teórica e abstrata como a teoria do valor e "o interesse das classes dominantes", que deve ser "perpetuar a confusão". É de se esperar que cada um que inicie seu estudo de Marx e leia O Capital, também leia e releia esta carta ao estudar os primeiros e mais difíceis capítulos do livro.

Outras passagens muito interessantes do ponto de vista teórico são aquelas em que Marx emite juízos sobre vários escritores. Quando se lê tais opiniões de Marx – vividamente escritas, cheias de paixão e revelando profundo interesse em todas as grandes tendências ideológicas e em analisá-las – percebe-se que se está ouvindo às palavras de um grande pensador. Exceto pelas menções a Dietzgen, feitos de passagem, os comentários sobre os proudhonistas[1] merecem particular atenção do leitor. A "brilhante" juventude intelectual burguesa que se lança "no grosso do proletariado" em momentos de convulsão social, e que é incapaz de adquirir o ponto de vista da classe trabalhadora ou de realizar um trabalho sério e persistente entre os "soldados das fileiras" das organizações proletárias, é retratada com notável vivacidade em algumas pinceladas.

Tome-se o comentário sobre Dühring,[2] que antecipa o conteúdo do famoso Anti-Dühring escrito por Engels (em conjunto com Marx) nove anos depois. Existe uma tradução russa desse livro por Zederbaum que, infelizmente, peca não só por omissões, mas é simplesmente uma tradução pobre, com erros. Aqui, também, tem-se o comentário sobre Thünen, que igualmente toca na teoria da renda de Ricardo. Marx já rejeitava enfaticamente, em 1868, os "erros de Ricardo", que ele finalmente refutou no volume III do Capital, publicado em 1894, mas que até hoje são repetidos pelos revisionistas – desde nossa ultraburguesia e mesmo o "Centúria Negra" sr. Bulgakov, até o "quase ortodoxo" Maslov.

Também é de interesse o comentário sobre Büchner, com um exame do materialismo vulgar e da "tolice superficial" copiada de Lange (a fonte habitual da filosofia burguesa "professoral"!)[3]

Passemos à política revolucionária de Marx. Existe uma concepção filisteia de marxismo surpreendentemente difundida dentre os Social-Democratas da Rússia, segundo a qual um período revolucionário, com suas formas específicas de luta e de deveres proletários, é quase uma anomalia, enquanto uma "constituição" e uma "oposição extrema" são a regra. Em nenhum outro país do mundo neste momento existe uma profunda crise revolucionária como na Rússia – e em nenhum outro países existem "Marxistas" (depreciadores e vulgarizadores do Marxismo) que adotem tal atitude cética e filisteia para com a revolução. Do fato de que a revolução seja burguesa em seu conteúdo, eles inferem a conclusão superficial que é a burguesia a força motriz da revolução, de que os deveres do proletariado nessa revolução tem caráter auxiliar, não independente, e que a liderança proletária da revolução é impossível!

Quão excelentemente Marx põe a nu, em suas cartas a Kugelmann, essa interpretação rasa do Marxismo! Veja-se esta carta datada de 6 de Abril de 1866. Nessa época Marx já havia terminado sua principal obra. Ele emitiu seu juízo final sobre a Revolução Alemã de 1848 catorze anos antes de escrever esta carta. Em 1850, ele mesmo renunciara às ilusões socialistas de que uma revolução de caráter socialista estaria iminente em 1848. E em 1866, quando apenas começava a observar o crescimento de novas crises políticas, ele escreve:

"Irão nossos filisteus [ele se refere à burguesia liberal alemã] enfim perceber que sem uma revolução que remova os Habsburgos e Hohenzollerns [...] deverá haver finalmente outra Guerra dos Trinta Anos [ ...]"[4]

Aqui não há sombra da ilusão de uma revolução iminente (ela ocorreu de cima, não de baixo, como Marx esperava) que removesse a burguesia e o capitalismo, mas uma afirmação mais clara e precisa de que somente removeria as monarquias prussiana e austríaca. E que fé nessa revolução burguesa! Que paixão revolucionária de um lutador proletário que apreende o vasto significado que a revolução burguesa tem para o progresso do movimento socialista! Tomando nota de um movimento social "muito interessante" três anos depois, na véspera da queda do Império Napoleônico na França, num afloramento positivo de entusiasmo, Marx diz que "os parisienses estão fazendo um estudo regular do seu passado revolucionário recente, com o fim de se prepararem para os eventos da nova revolução iminente." E, ao descrever a luta de classes revelada neste estudo do passado, Marx conclui: "E assim, todo o caldeirão de bruxa da história está borbulhando. Quanto nosso país [Alemanha] estará tão longe!"[5]

Eis uma lição a ser aprendida com Marx pelos intelectuais marxistas russos que, debilitados pelo ceticismo, entorpecidos pelo pedantismo, inclinados a discursos penitentes, rapidamente se cansam da revolução e anseiam, como anseiam por um feriado, pelo enterro da revolução e sua substituição pela prosa constitucional. Do teórico e líder dos proletários, eles deveriam aprender a ter fé na revolução, na habilidade de convocar a classe trabalhadora para lutar por seus objetivos revolucionários imediatos até o final, e a ter a firmeza de espírito que não admite choramingo covarde devido aos reveses temporários da revolução.

Os pedantes do Marxismo pensam que tudo isso é disparate ético, romantismo e falta de senso da realidade! Não, senhores, isto é a combinação da teoria revolucionária e da política revolucionária, sem a qual marxismo se torna brentanoismo[6], struvismo[7] e sombartismo.[8] A doutrina Marxiana fundiu teoria e prática da luta de classes em um todo inseparável. E não é marxista aquele que toma uma teoria que sobriamente define a situação objetiva e a distorce para justificar a ordem existente e vai ainda mais longe, tentando se adaptar, tão rápido quanto possa, a cada declínio temporário na revolução, para descartar "ilusões revolucionárias" igualmente depressa, e se voltar a ajustes "realistas".

Em tempos que eram mais pacíficos, quase "idílicos" (como Marx expressa), e "miseravelmente estagnados" (como a Neue Zeit coloca), Marx era capaz de sentir a aproximação da revolução e despertar o proletariado à consciência de suas tarefas revolucionárias de vanguarda. Nossos intelectuais russos, que vulgarizaram Marx de maneira filistina, no mais revolucionário dos momentos, ensina ao proletariado a política da passividade, de submissão ao "seguir com o fluxo da corrente", de apoio tímido aos elementos mais instáveis do partido liberal da moda!

A avaliação da Comuna por Marx coroa as cartas a Kugelmann. E essa avaliação é particularmente preciosa quando comparada com os métodos da ala à direita dos Social-Democratas. Plekhanov, que depois de Dezembro de 1905 exclamou pusilânime: "Eles não deviam ter pegado em armas", teve a modéstia de se comparar a Marx. Marx, diz ele, também pôs freios à revolução em 1870.

Sim, Marx também pôs freio à revolução. Mas vejam que abismo existe entre Plekhanov e Marx, na própria comparação que ele fez.

Em novembro de 1905, um mês antes da primeira onda revolucionária na Rússia atingir seu clímax, Plekhanov, longe de aconselhar enfaticamente o proletariado, falou diretamente da necessidade de aprender a usar armas e a armar. Porém, quando o conflito se desencadeou um mês depois, Plekhanov, sem realizar a menor tentativa de analisar seu significado, seu papel no curso geral dos eventos e suas conexões com as formas anteriores de luta, apressou-se em fazer o papel de intelectual penitente e exclamou: "eles não deviam ter pegado em armas". Em setembro de 1870, seis meses antes da Comuna, Marx deu um aviso direto aos trabalhadores fracneses: insurreição seria um ato de desesperata insesatez, disse numa Comunicação bem conhecida da Internacional. [9] Antecipadamente, ele expôs as ilusões nacionalistas da possibilidade de um movimento no espírito de 1792. Ele pôde dizer, não depois do evento, mas muitos meses antes: "Não peguem armas".

E como ele se comportou quando essa causa perdida, como ele mesmo a chamou em setembro, começou a tomar contornos práticos em março de 1871? Ele costumava "jogar pro fundo do poço" (como Plekhanov fez nos eventos de dezembro) seus inimigos, os proudhonistas e blanquistas, que lideravam a Coomuna? Começou a repreender, como uma professora, dizendo: "Eu falei, eu avisei; isso é o que dá do seu romantismo, de seus delírios revolucionários"? Ele pregou aos Communards, como fez Plekhanov aos guerreiros de dezembro, o sermão do filisteu pretencioso: "Vocês não deviam ter pegado em armas"?

Não. Em 12 de abril de 1871, Marx escreve uma carta entusiástica para Kugelmann – uma carta que ele gostaria de ver pendurada na casa de cada Social-Democrata russo e de todo trabalhador russo letrado.

Em setembro de 1870 Marx chamou a insurreição um ato de loucura desesparada; mas em abril de 1871, quando viu o movimento em massa do povo, ele o observou com a aguçada atenção de um partícipe em grandes eventos que marcam um passo à frente no movimento revolucionário histórico.

Isto é uma tentativa, diz ele, de esmagar a máquina burocrática-militar, e não simplesmente de transferí-la para mãos diferentes. E ele usa palavras de maior elogio para os heróicos trabalhadores de Paris liderados pelos proudhonistas e blanquistas. "Que elasticidade," ele escreve, "que iniciativa histórica, que capacidade para o sacrifício nesses parisienses! [...] Não há exemplo similar de tal grandeza na História."

O que Marx valorizava acima de tudo era a iniciativa histórica das massas. Ah, se ao menos os Social-Democratas russos aprendessem com Marx a apreciar a iniciativa histórica dos trabalhadores e camponeses russos em outubro e dezembro de 1905!

Compare a homenagem feita à iniciativa histórica das massas por um pensador profundo, que previu o fracasso seis meses antes – e o inerte, desalmado, pedante: "Não deveriam ter pegado em armas"! Não são distantes como o céu da terra?

E como partícipe na luta de massa, que regaiu com todo seu ardor e paixão caraterísticos, Marx, então vivendo no exílio em Londres, começou a trabalhar para criticar os passos imediatos dos parisienses "bravos irresponsáveis, prontos para "invadir o céu".

Ah, como nossos atuais sabichões "realistas" dentre os marxistas, que em 1906-07 zombam o romantismo revolucionário na Rússia, desdenhariam Marx na época! Como escarneceriam de um materialista, um economista, um inimigo das utopias, que aplaude uma "tentativa" de invadir os céus! Quantas lágrimas, riso condescendente ou compaixão teriam lhe agraciado esses "homens no estojo"[10] por suas tendências rebeldes, utopismo, etc., etc., e por apreciar um movimento de tomar os céus!

Mas Marx não estava inspirado com a sabedoria da arraia-miúda que tem medo de discutir a técnica das formas superiores de luta revolucionária. São precisamente os problemas técnicos da insurreição que ele discute. Defesa ou ataque? – ele se pergunta como se operações militares estivessem ocorrendo logo ao redor de Londres. E ele decidiu-se certamente pela ofensiva: "Deveriam ter marchado de uma vez sobre Versalhes".

Isso foi escrito em abril de 1871, algumas semanas antes do grande e sangrento maio...

"Deveriam ter marchado de uma vez sobre Versalhes" – os insurgentes, aqueles que começaram o "ato de desesperada insensatez" (setembro de 1870), deveriam invadir os céus.

"Eles não deviam ter pegado em armas" em dezembro de 1905, com o objetivo de opor, pela força, as primeiras tentativas de retirar as liberdades conquistadas...

Sim, Plekhanov tinha bom motivo para se comparar a Marx!

"Segundo Erro", Marx diz, continuando sua crítica técnica: "O Comitê Central" (o comando militar – note-se – é referência ao Comitê Central da Guarda Nacional) "entregou o poder cedo demais".

Marx sabia como prevenir os líderes contra um levante prematuro. Mas sua atitude para com o proletariado que toma céus era a de um conselheiro prático, participante na luta das massas, que estavam elevando todo o movimento para um nível superior apesar de todos erros e teorias falsas de Blanqui e Proudhon .

"Como quer que seja", escreveu, "a atual insurreição em Paris – mesmo se for esmagada pelos lobos, porcos e desprezíveis vira-latas da velha sociedade – é o mais glorioso feito do nosso Partido desde a insurreição de junho [...]"[11]

E, sem dissimular para o proletariado um único erro da Comuna, Marx dedicou a esse feito heróico uma obra que até hoje serve como o melhor guia na luta pelo "céu" e como um terrível pesadelo aos "porcos" liberais e radicais.[12] Plekhanov dedicou aos eventos eventos dezembro uma "obra" que virou praticamente a Bíblia dos Cadetes.

Sim, Plekhanov tinha bom motivo para se comparar a Marx!

Kugelmann aparentemente respondeu a Marx expressando algumas dúvidas, se referindo ao desespero da luta e ao realismo em oposição ao romantismo. De qualquer maneira, comparou a Comuna, uma insurreição, à demonstração pacífica em Paris, em 13 de junho de 1849.

Marx imediatamente (17 de Abril de 1871) repreende Kugelmann severamente:

"A História Mundial", ele escreveu, "seria de fato muito fácil de se fazer, se a luta fosse feita somente em condições de chances infalivelmente favoráveis."

Em setembro de 1870, Marx chamou a insurreição de ato de desesperada insensatez. Mas, quando as massas se levantaram, Marx queria marchar com elas, para aprender com elas no processo da luta, não para dar-lhes admoestações burocráticas. Ele percebeu que tentar calcular as chances de antemão com total precisão seria charlatanismo ou desesperançado pedantismo. O que ele valorizava acima de tudo era que a classe trabalhadora de maneira heróica e sacrificando-se, tomou a iniciativa em fazer a História mundial. Marx observa História Mundial do ponto de vista daqueles que a fazem sem estarem na posição de infalivelmente calcular as chances de antemão, e não do ponto de vista do intelectual filisteu que moraliza: "Era fácil de prever... Eles não deveriam ter pegado..."

Marx também sabia reconhecer que há momentos na História em que uma luta desesperada das massas por uma causa sem esperança é essencial para continuar educando essas massas e treinando-as para o próximo conflito.

Tal maneira de colocar a questão é bem incompreensível e até estranha em princípio para o nosso pseudo-marxista atual, que gosta de citar o nome de Marx em vão, tomando emprestado somente suas previsões do passado, e não sua habilidade de criar o futuro. Plekhanov sequer pensou nela em dezembro de 1905, quando se pôs a "colocar freios".

Mas é precisamente essa a questão que Marx levantou, sem jamais se esquecer que ele próprio, em setembro de 1870, chamava a insurreição de um ato e desesperada insesatez.

"A canaille burguesa de Versalhes", ele escreve, "deu aos parisienses a alternativa de ou encetar a luta, ou sucumbir sem conflito. A desmoralização da classe trabalhadora no último caso seria desgraça muito maior do que a morte de qualquer número de 'líderes'."[13]

E com isso concluiremos nossa curta resenha das lições de uma política digna do proletariado que Marx ensina em suas cartas a Kugelmann.

A classe trabalhadora russa já provou uma vez, e há de provar novamente, mais de uma vez, que é capaz de "tomar o céu".


5 de Fevereiro de 1907


Notas[editar]

  1. Carta de 9 de Outubro de 1866
  2. Carta de Marx a Engels, de 11 de Janeiro de 1868
  3. Carta de 5 de Dezembro de 1868
  4. Carta de 6 de Abril de 1866
  5. Carta de 3 de Março de 1869
  6. Brentanoismo: uma doutrina liberal burguesa que reconhece a luta de "classe" não-revolucionária do proletariado (ver: A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky); pregava a possibilidade de resolver os problemas dos trabalhadores dentro da estrutura do capitalismo por meio de legislação industrial e organização dos trabalhadores em sindicatos. Deriva seu nome do economista burguês alemão, Lujo Brentano (1844-1931).
  7. Struvismo ou marxismo legal: uma distorção burguesa liberal do marxismo que emergiu como corrente sócio-política independente na década de 1890, dentre a intelectualidade burguesa liberal russa.
    Nesse período o marxismo se tornava relativamente difundido na Rússia e intelectuais burgueses começaram a pregar suas próprias visões sob o manto do marxismo em jornais e revistas legalizadas; por isso eram chamados de "marxistas legais".
    Os marxistas legais criticavam os Narodniks (populistas) por sua defesa da pequena produção e tentativa de usar o marxismo nessa luta, mas o tipo de marxismo que desejavam era um purgado de todo seu conteúdo revolucionário. Ao tentar subordinar o movimento da classe trabalhadora aos interesses da burguesia, eles descartavam a característica principal do marxismo – a teoria da revolução proletária e a ditadura do proletariado. Piotr Struve, líder dos marxistas legais, laudava o capitalismo e, ao invés de clamar por uma luta revolucionária contra o sistema capitalista, pedia por um "reconhecimento de nosso atraso" e propunha "aprender com o capitalismo". Os marxistas legais revisaram quase todos os postulados básicos do marxismo e adotavam o ponto de vista do objetivismo burguês, o ponto de vista do Kantismo, e do idealismo subjetivo.
    Lênin reconhecia a natureza burguesa liberal do marxismo legal antes de qualquer outro. Em seu artigo Sobre a assim chamada Questão do Mercado, já em 1893, criticava as ideias dos marxistas legais, então uma corrente nova, enquanto expunha as ideias dos Narodniks liberais. Os marxistas legais foram o primeiro inimigo oculto contra qual os marxistas russos se levantaram. Eles se diziam seguidores de Marx, mas na realidade privavam o marxismo de seu conteúdo revolucionário. Em sua luta contra os Narodniks, no entanto, o marxistas revolucionários russos entraram em acordos temporários com os marxistas legais e publicaram seus próprios artigos em jornais editados por aqueles. Ao mesmo tempo, em seu artigo "O conteúdo econômico do Narodismo e sua crítica no livro do sr. Struve", Lênin critiva severamente o marxismo legal, chamando-o de reflexo do marxismo na literatura burguesa, e colocando os "marxistas legais" como ideólogos da burguesia liberal. Essa caracterização foi mais tarde confirmada por completo: tornaram-se proeminentes cadetes e, mais .tarde, soldados fanáticos do guardas brancos.
    A luta determinada de Lênin contra os "marxistas legais" na Rússia era também a luta contra o revisionismo internacional, e era um exemplo da irreconciabilidade ideológica com as distorções da teoria marxista.
  8. Sombartismo: corrente burguesa liberal derivada de Werner Sombart (1863-1941) um economista burguês vulgar, um dos ideólogos do liberalismo na Alemanha. Sombart, Lênin escreveu "substituiu o Brentanoismo por Marxismo ao empregar terminologia marxista citando algumas das máximas de Marx e assumindo um disfarce marxista" (v. A Vitória dos Cadetes e as Tarefas do Partido Operário, Digressão).
  9. Marx and Engels, Selected Works, Vol. I, Moscow, 1958, pp. 491-98.
  10. O Homem no Estojo – personagem principal na história de mesmo nome de Anton Tchekhov – um tipo limitado, filisteu, que teme qualquer iniciativa e tudo que é novo.
  11. Marx and Engels, Selected Correspondence, Moscow, 1958, pp. 318-19.
  12. Lênin se refere ao livro de Marx, Guerra Civil na França.
  13. Marx and Engels, Selected Correspondence, Moscow, 1958, p. 320.