Castelo Perigoso/III

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Castelo Perigoso
Capítulo III – Que sem confissão nos não podemos salvar. E põe este autor exemplo


Foi uma (beguina?) muito boa e muito santa e de muito boa nomeada ao povo. Aconteceu que ela viu um muito formoso homem, e assim o cobiçou em seu coração, que bem o quisera haver à sua vontade, se pudera sem escândalo. E em isto pecou mortalmente que Deus disse no Evangelho: "Quem vê mulher e a cobiça, o forninzio é cumprido em sua vontade".

E assim é da mulher ao homem; e por santidade de que aquela mal aventurada havia fama, não se ousou a confessar, mas pensou como sandia enganada do diabo, que faria por si tanta pendência que aquele pecado seria apagado. Assaz gemeu, assaz chorou e tantas fez de pendências, que todos se espantavam.

E morreu sem confessar o pecado e foi para sempre condenada por um só consentimento, segundo ela depois de sua morte revelou. E tal revelação, segundo diz São Gregório, faz Deus pelos vivos e não pelos mortos, ca pouco aproveitou àquela beguina o que de si revelou, mas aproveita a nós, que o ouvimos, que podemos aí filhar exemplo. Por isto não deve homem deixar confessar todos os pensamentos que trazem pecado, e os maus delitos e consentimentos em que caiu, ca esta vergonha é grande parte da pendência.