Castelo Perigoso/LXIV

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Castelo Perigoso
Capítulo LXIIII – De quatro maneiras que aí há de temor


Devemos saber que aí há temor em sete maneiras, scilicet, mundanal, e humanal, servil, e natural, e começável, e filial, e reverencial. Temor mundanal é quando homem muito teme perder seu haver ou honra temporal. Este é sempre mau e fez e faz muitos males. Ele fez matar os primeiros filhos de Israel e fez matar os inocentes e o Filho de Deus, Jesus Cristo.

Temor humanal é quando homem teme além da razão a pena do corpo ou a morte. Este também é mau, ca ele fez são Pedro negar três vezes Deus e os apóstolos fugir e deixar seu mestre Jesus.

Temor servil é quando algum deixa de fazer mal ou faz algum bem não por amor de justiça, mas com temor de pena, assim como os judeus que guardavam as observâncias da lei, que era grave coisa, e deixavam de fazer mal não por amor de Deus, mas com medo de serem punidos. Este não é pecado como os outros, mas está sempre com pecado; ca, segundo diz Santo Agostinho, em tais gentes vive vontade de pecado, e pecariam se não esperassem ser punidos. E ainda diz Santo Agostinho: "Em vão se tem por vitorioso de pecar quem tem a má vontade no coração e deixa-o de fazer com medo, e se o não cumpre à de fora, à de dentro lhe fica a morte, e não deixará por isso de ser condenado. Ca Salomão diz nos Provérbios: "Justiça delivra de morte", isto é, os males que homem deixa de fazer e os bens que faz por amor de justiça livram a alma de morte perdurável; e por isto o medo que não é fundado sobre justiça não livra das penas.

Temor natural é quando algum recea o que é contrairo à sua natureza. Este não é bem nem mal, ca o que havemos por natureza não é mérito nem desmérito. Este foi em Jesus Cristo, que, segundo natureza, houve tão grande medo da morte que suou gotas de sangue; e foi também em são Paulo que cobriu seus olhos de um pano com temor da espada. E sabei que se este medo é muito grande, ele torna humanal e é pecado. E por isto Jesus Cristo e os outros mártires em tal medo confrontavam sua natureza e amaram mais morrer que perder a coroa da vitória. E assim devemos nós a fazer. Nós não devemos tanto temer o mal que passa como devemos de amar o bem que dura.

Temor começável é quando algum deixa de fazer mal e faz bem não tão somente com medo das penas, mas com temor de perder a companhia de Deus. E tal temor é sempre bom, ca não receia algum ser partido de Deus se o não ama. Este temor há dois olhos: com o direito esguarda o bem do paraíso, que teme de perder, e com o sestro, as penas do inferno, que não queria merecer. Estas duas considerações fazem algumas gentes filhar grandes pendências. Este temor é chamado começável, porque é começo de sabedoria, que de todas as coisas deixa o mal e filha o bem, e é naqueles que começam vida de perfeição, que ainda temem incorrer na pena e perder a alegria. Aqueles amam Deus por bom galardão que atendem. Este é o primeiro degrau de amor: amar Deus por seu proveito; o segundo, amar Deus por ele mesmo ser muito bom; o terceiro é amar si mesmo puramente por Deus.

Temor filial é quando homem teme Deus não com medo de seu dano nem com esperança de seu proveito ou de outra alguma condição que possa cair naquele que teme, mas pelas condições daquele que homem teme, assim como quando homem ama uma pessoa e receia de a assanhar pelo amor que lhe há, e pelos bens que sente e vê em ela. Tal medo vem de amor e pertence aos perfeitos, e por isto é chamado temor de filho. Este atormenta muito às vezes as boas e santas pessoas de seus pecados passados, porque eles são bem certos que pecaram, mas não sabem se Deus os perdoou, e, segundo diz Salomão, o homem não sabe se é digno de amor ou de malquerença. E assim os tormenta de seus bons feitos, ca não são certos se prazem a Deus ou são à sua vontade. Salomão diz: "Alguns são justos e sages e suas obras são na mão de Deus". Quer dizer que só Deus conhece quanto lhe são prazíveis, e não os que as fazem. Este temor e esta consideração deveria bastar para vencer todos os combates da vã glória que o diabo e o mundo podem trazer ao coração.

Temor reverencial é quando algum considera e esguarda o siso e a bondade e a grandeza e o poderio de Deus, e olha si mesmo tão pequeno, assim como os três apóstolos na transfiguração de Nosso Senhor, que, quando o viram, caírom assim como mortos. Este temor é não tão somente aos homens, mas ainda aos anjos, segundo se canta cada dia no prefácio: "Tremunt Postates"; que quer dizer: "os poderios do paraíso tremem considerando a grandeza de Deus". E no Apocalipse é escrito que todos os anjos cairão em suas faces ante o trono. Este temor faz que os santos e perfeitos homens se têm por muito pequenos, assim como Abraão e Davi, que um se havia por cinza e o outro por fedor e cão morto, segundo diz a Escritura. Pois deviam os outros pobres pecadores, que ainda não sobiram o primeiro grau de perfeição, ter-se em muito pouco e estar em grande humildade e assim guardarão o castelo do coração e não temerão combate que o diabo e o mundo nem a carne lhe possam fazer, mas guardar-se-ão dos muito pequenos pecados e negligências, que não percam o bom agasalhado de seu leal padre e amigo Jesus Cristo.

Este bom agasalhado são as consolações que Deus envia às devotas pessoas, que sempre são em sua guarda e fogem às afeições do mundo, pelas quais se perdem amiúde as de Deus, que é bom agasalhado do nosso padre e amigo como dito é.