Castelo Perigoso/LXIII

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Castelo Perigoso
Capítulo LXIII – Como a este castelo não falece senão a vela, que é o temor de Deus; e que de nosso estado não podemos haver certidões em quanto somos em esta mortal vida


Ora, é o castelo acabado que não falece senão a vela que o há de guardar de dia e de noite. Esta vela é o temor de Deus, ca, segundo diz Salomão, quem teme Deus, a nenhuma coisa é negligente. E ainda diz ele: "Bem-aventurado é o homem que sempre teme". Este temor é boa vela. Ca, segundo diz Salomão, pelo temor se guarda o homem dos pecados. E a vela, ainda que seja em alta fortaleza, sempre teme, e de qualquer gente que veja vir contra seu castelo, seja má ou boa, sempre há medo que sejam inimigos, e por isto brada amiúde por se fazer ouvir longe.

Quanto a pessoa é mais santa e mais perfeita, tanto mais deve temer seus bens e seus pecados, ca não sabe se lhe são perdoados, e por uma pequena de vã glória pode muito asinha perder todo o bem que faz. Por isto disse Jó: "Eu temia todas minhas obras, porque bem sei que tu não desprezarás o pecador". E são Paulo, que já fora (racto?) no paraíso, disse: "Eu não me gabo que haja cobrado o que desejo, mas vou sempre por alcançar o galardão".

Pois bem se devem os outros temer, mormente que não percam por vã glória aquilo que por grande trabalho alcançaram; ca este é o inimigo que primeiro combate os cavaleiros de Deus e que derradeiro os deixa. Porque, quando o diabo vê que é vencido de todos os outros combates, diz e mete no coração: "Certo agora és tu vencedor, e és muito santo e muito amado de Deus. Quem se ousaria a comparar contigo"? Mas a devota pessoa deve responder o que Davi diz no Salteiro: "Confundidos sejam todos meus inimigos que me buscam mal por seu engano. De mim não hei eu senão pecado; e se algum bem hei, de Deus me vem e a ele deve ser dada a glória e não a mim, que sou cheio de maldades". E deve-se tornar a Deus humildosamente e dizer devotamente: "Senhor, assim como vencestes em mim todos os outros combates, vence ainda este, por que vós hajais de todo a glória e os inimigos a confusão".

Ainda devemos de temer, segundo são Bernardo, que se havemos a graça de Deus, que não usemos dela como devíamos. E se nos é tirada, muito mais devemos estar em temor, que a nossa principal guarda nos deixa; e se nos torna, mais devemos recear de perder, ca pior é recair que cair. E por isto devemos sempre estar em temor, porque sempre somos em perigo, nem podemos haver alguma certidão de nosso estado em quanto somos em esta mortal vida.