Castelo Perigoso/VI

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Castelo Perigoso
Capítulo VI – Que fala dos pecados mortais e ramos que deles procedem


Ora deve de saber cada um, homem e mulher, que dos pecados mortais os principais são sete, de que muitos outros descendem, scilicet: soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gargantuíce, luxúria. E quem de cada um destes pecados e dos ramos deles quisesse tratar, faria um grande livro. Mas todavia sempre homem passa por soberba, quando se tem em muito ou glorifica de algum bem, se o fez.

E isto pode ser pecado mortal e venial que quando homem começa algum bem com pensamento e deliberação de haver o louvor do mundo e que seja teúdo por bom, e não por Deus, isto é hipocrisia e pecado mortal. E assim perde homem o que faz. Mas quando homem começa algum bem com dieita e pura intenção, por amor de Deus, e em fazendo este bem se mistura alguma vã glória, ou por homem saber que o vêem, ou porque é louvado, isto é pecado venial, com tanto que, assim cedo como a razão conhece que isto é vaidade, logo se repreenda e a lance de si.

Também peca homem em soberba em presumir de si mais que dos outros, ou por religião, ou por linhagem, ou por riqueza ou formosura, ou quando se homem bem corrige e trabalha de parecer ao mundo, ou quando despreza algum, de boca ou de coração, ou quando homem deixa de fazer algum bem que poderia, assim como confessar amiúde e comungar, com medo de escarnecerem dele; ca pusilanimidade algumas vezes vem de soberba, quando não quer sofrer ser escarnido por Deus, que tantos viltos e vergonhas por nós sofreu.

Em muitas outras maneiras pecam os homens por soberba, assim como em buscar avantajadas roupas e nobres, muito estreitas ou muito largas, ou muito curtas ou muito longas, e estreitas mangas e ricos apostamentos, e em desobedecer a seus maiores ou em mal obedecer, assim como suster seus feitos e suas opiniões e muito defender suas mínguas e suas falas em capitólio; ou em comum parlamento, desprezar os feitos e as palavras deles e tê-los em menos que deve, e em se gabar dos bens que homem faz ou dos males, que é pior, e dos bens que não fez, que é hipocrisia; ou quando homem serve e obedece à algum a que se faz mais humildoso que deve, que muito grande humildade é soberba, segundo dizem os santos.

E assim peca homem muito por soberba, quando presume que algum bem, se o há, é de si mesmo, e ainda cuidando que Deus lho dá, mas que é por seus merecimentos. Nos devemos ter firmemente, e assim é que sem a ajuda de Deus não podemos bem fazer, nem ainda pensá-lo assim como ele disse no Evangelho a seus discípulos: "Sem mim, nenhuma coisa podeis fazer".