Castelo Perigoso/XIX

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Castelo Perigoso
Capítulo XIX – Da quarta paz, e de como para a ganhar é necessário falar pouco


A quarta paz que homem deve a haver consigo. Esta é assaz forte de haver. Mas o amor de Deus todas coisas pesadas faz ligeiras. Esta paz não pode perfeitamente haver quem não há verdadeira pobreza que os religiosos hão prometida, e de desprezamento de si mesmo, scilicet que se não preze nem deseje ser prezado, mas desprezado por amor de Deus.

Esta pobreza de espírito hão aqueles a que basta o que lhes é ministrado de sua religião, e tudo o que lhe dizem e fazem tomam em paciência por amor de Deus. A este estado viria asinha quem tivesse escrita em seu coração e se recordasse amiúde da grande humildade e maravilhosa sofrência e infinda pobreza de Jesus Cristo que morreu em na cruz todo nu por nós.

Quem de si mesmo busca paz em outra parte ou pobreza ou desprezo, não a achará. Que quem murmura ou é triste de sua pobreza, e quem há dor no coração e é descontente e a despreza não há paz consigo. E por que homem possa vir a esta paz, deve rogar a Deus continuadamente, e amiúde pensar em sua grande pobreza e humildade e maravilhosa sofrença.

Desta paz disse são Bernardo um glorioso mote e breve. Que quer dizer: "Ama que te não saibam se tu hás algum bem em ti, tanto como em ti é; deseja que algum não to saiba, senão só Deus". Bem devíamos desejar que nossos próximos nos vissem por haverem bom exemplo, e não por sermos louvados, mas Deus, que o faz em nós. Para haver esta paz, vale muito falar pouco, assim como diz o provérbio: "Quem de todo se cala, de todo há paz".