Castelo Perigoso/XVII

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Castelo Perigoso
Capítulo XVII – Da satisfação que deve ser feita pelo pecado, e de como o religioso pode ganhar paz e amor com seu abade


De depois da confissão deve vir satisfação, isto é, emenda que homem deve fazer por mandado e conselho de seu confessor, que deve dar a pendência segundo o feito; e é teúdo com boa vontade obedecer quem quer haver saúde. Ora, haveis ouvido como há paz com Deus, que é uma das IIII que pertence antes que homem possa seguramente edificar seu castelo.

A outra é que homem deve de haver paz com seus prelados, a qual se pode haver se homem não detrai nem murmura nem julga mal deles nem de seus ditos nem feitos nem de suas idas nem vindas nem de suas ordenanças. Não ouça nem escute falar deles, e se lhes às vezes parecer que em eles há menos de religião que deve, ligeiramente os pode escusar, porque em muitas coisas são ocupados.

E assim diz são Gregório: "Se alguns sujeitos hão mau prelado, acusem si mesmos e não o prelado, ca pelos merecimentos dos sujeitos são ordenadas as pessoas dos prelados". E Deus disse: "Pelo pecado do povo, deixo eu reinar o hipócrita". E verdade é que o exemplo dos maus prelados faz pecar muitos dos sujeitos.

Mas, segundo disse são Pedro, bom é suportar os bons e os maus e obedecer-lhe segundo razão; e deve o bom religioso ter em grande cortesia, se seu maior o (avanta?) e mete aos ofícios outros primeiro que ele, que quem perfeitamente ama Deus não deve querer nem buscar senão pensar em ele e servi-lo em paz e segurança de coração, e fugir a todas outras ocupações. E assim se busca a paz com seus maiores.