Castelo Perigoso/XXIII

Wikisource, a biblioteca livre
< Castelo Perigoso
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Castelo Perigoso
LIVRO 2 - Capítulo XXIII – Porque razão o homem tem a cabeça inclinada à terra, e que a nossa morada não é aqui


Ora, havemos buscado o lugar para edificar nosso castelo, isto é, em terra de paz e a matéria aparelhada para ordenar o edifício, scilicet, graças e virtudes, que são necessárias a buscar aquela paz e os quatro sinais de virgindade que Deus requer a suas esposas, que são em lugar de pedra e cal e de barro que convém juntar por trabalho e amor. Ora, sejais com nosco, que nós lhe possamos edificar castelos de nossos corações, em que a ele praza morar, assim como nos ele prometeu no Evangelho: "Eu sou convosco até o fim do mundo".

Este castelo chamamos nós perigoso, porque sobre os outros é forte de guardar e perigoso de ter. E qualquer que há entendimento bem sabe que em fazer um forte castelo há grande estudo e há mister muitas condições, sem as quais não seria bem seguro.

A primeira deve ser em terra de paz, como já é dito. Desde aí, deve ser assentado em lugar alto, que os inimigos não possam lá bem ir. Desde aí, deve de haver alicerce profundo e cavas altas e largas e os muros duplos. E em meio do castelo deve ser a forteleza que se chama da menagem, onde homem se há de acolher, se o castelo fosse filhado de suspeita.

Ao castelo compre uma principal porta e um porteiro, e assim às outras portas de fora. E na principal torre deve haver uma vela, que haja bom cuidado de dia e de noite para guardar o castelo, e deve ser bem provido de vitualhas e de água. E se alguma destas coisas falece aí mal se pode ter contra os inimigos, especialmente se de todas partes é combatido.

E por isto eu digo que o castelo do coração que nós queremos edificar deve ser assentado em lugar alto por alteza de boa vida, que, como quer que convenha ao corpo morar em este vale de miséria, a conversação do coração deve ser no céu, segundo diz são Paulo. E por isto, entre todas as vivas criaturas, o homem tem a cabeça direita ao céu, e todas as outras bestas a trazem inclinada à terra, em significância que homem deve sempre pensar alto, e que a nossa terra não é aqui, mas no céu nem havemos aqui cidade durável, mas aguardamos a que há de vir.

Esta é a cidade de paraíso. Disse são Paulo que do paraíso saímos e lá tornaremos se por nós não fica. Nós não somos senão peregrinos em este mundo, que é comprido de perigos, e assim nos devemos manter em ele como aqueles que vêm longe de suas terras em romaria, que não buscam terras nem possessões; e fora de sua comarca não se querem deter, mas vão sempre por diante com um só desejo: de tornar a sua terra.

Assim deve fazer a devota pessoa que conhece que nós não somos senão peregrinos em este mundo; e não se deve de reter em as coisas dele nem cobiçar nem buscar riquezas nem honras nem outros vícios temporais, mas tão somente a governança do corpo e ter sempre o coração a sua terra e trigar-se que cedo aí seja.

Quem há seus pensamentos e desejos e seu amor afincado em o céu alonga-se do mundo e despreza-o e começa seu castelo em alto lugar e não se teme ser filhado do laço do diabo. Que a Escritura diz: "Em vão é lançada a rede ante os olhos das aves"; que os caçadores não filham senão as aves que voam baixo a cerca da terra, que as que alto voam não as pode a rede filhar.

E assim é espiritualmente; que aqueles que hão seus corações nos vícios deste mundo e sujidades, filha o diabo em sua rede; mas em os que voam alto por alteza de vida não há ele poder; e especialmente em tempo de oração, deve homem haver o coração levantado a Deus. E na igreja, quando homem serve Deus, deve ter seu coração em ele; de outra guisa, perde seu trabalho, isto é as consolações divinais, que Deus tira dos corações que vão vagando por cá e por lá e não param mentes em coisa que digam e têm o corpo na igreja e o coração com o diabo. Estes tolhem a Deus tudo o que ele em eles ama, isto é, o coração que de nós quer.