Castelo Perigoso/XXV

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Castelo Perigoso
Capítulo XXV – Que a humildade verdadeira há de haver três graus; e quem humildoso é, mostra-o em traje e em palavras e em feito; e que sem ela não pode alguém prazer a Deus


Antes que vamos em nosso edifício, devemos de fazer as fossas por que os inimigos não possam empencer a nosso castelo, que ainda que eu dissesse que o edificássemos em terra de paz, guardando as IIII pazes suso-ditas, ainda aí há homiziões, ladrões e traidores.

Estes são negligências e tardanças a boas obras e palavras ociosas, e a nossa própria carne, que é um dos perigosos adversairos que nós havemos, dos quais se com diligência nos não guardamos, eles entram em nosso castelo e fazem caminho aos grandes inimigos, que são os pecados mortais, e é filhado o castelo.

Por isto são necessárias as cavas. Estas sejam de profunda humildade, e duplas; de coração e de obra. Assim convém que as fossas sejam duplas, que uma humildade sem outra pouco vale, que quem é humildoso de coração, ele o mostra em trazer e em palavras e no feito.

Mes, segundo é escrito no Eclesiástico, são alguns que mostram à de fora sinais de humildade e de dentro são cheios de soberba, e isto é simulação. E assim quem quer edificar castelo prazível deve a haver ambas as humildades.

Humildade jaz em três coisas: primeiro a boa pessoa humildosa não se preza nem quer ser de outrem prezada. Esta semelha a lua que míngua em sua consumação, que quando é XXXa e perfeita é tão pequena que homem não a pode ver. E isto é por ser chegado ao sol. E quanto se mais alonga tanto parece maior.

Assim é da boa pessoa e devota, que tanto como ela é mais perfeita e mais acerca do verdadeiro sol da justiça, Jesus Cristo, tanto lhe parece que em si há menos bens e que é mais aquém de merecimentos; ca ela é tão iluminada do raio do verdadeiro sol, que não há em si tão pequena falta, que ela bem não veja, e como melhor se vê, tanto melhor se conhece e menos se preza. E o pecador, tanto como se mais alonga por pecado deste verdadeiro sol, tanto se menos vê e se conhece e mais conta faz de si.

Por isto disse Isidoro: "Sê tu pequeno ante teus olhos, porque sejas grande ante Deus. Ca tanto serás dele mais prezado quanto menos te prezares em teu coração".

A segunda coisa em que há verdadeira humildade é quando homem é desprezado de outrem e por vil teúdo e o sofre de boa mente por amor de Deus.

A terceira coisa é quando homem se tem em seu coração por menos digno e menos abastante que os outros em todos feitos.

Verdadeira humildade há três degraus, segundo diz a glosa no Evangelho de são Mateus, quando Jesus Cristo veio a são João por ser batizado. O primeiro degrau é abaixar-se e obedecer a seus maiores, embora não se meter ante seus iguais. Este é assaz bastante a salvação e é necessário a cada pessoa que se quer salvar.

O segundo grau é obedecer a seus iguais e não se meter ante os piores que si. Este é abundante. O terceiro é obedecer aos piores. Em este é perfeição de justiça e é chamado sobre-abundante. Esta perfeição mostrou Nosso Senhor, Jesus Cristo, quando veio a são João por ser batizado, ca o Senhor veio ao servo.

Quem assim se humilha sem fingimento e sem buscar o prazer do mundo e que haja em si esta dobrada humildade profundamente no coração arraigada e que a mostre à de fora por obras, ele há as cavas dobradas para guardar o castelo do coração.

Ora, é de saber que, como a devota pessoa se aparelha a edificar castelo contra os inimigos, eles filham o mundo e a carne com sigo e cercam o castelo e nunca se partem do cerco, antes haverá continuados combates até morte entre o senhor e a senhora do castelo e os inimigos, se se lhe não rendem. Por isso disse Jó: "Vida de homem sobre a terra é cavalaria". E é verdade daqueles e aquelas que Deus querem servir, quer em religião quer no mundo, que sem batalha não são tais gentes até a morte.

Isto é o que são Paulo disse: "Quem quer viver segundo Deus, ele sofrerá perseguições". Mas são Bernardo diz: "Coroa não vem sem vitória, nem vitória sem batalha". E são Paulo diz que não haverá coroa quem lealmente não pelejar.

Mas o doce rei, Jesus Cristo, que é senhor do campo, dá força e esforço a seus cavaleiros na batalha e não sofre que sejam tentados a além do seu poder.

Esta é a batalha e este combate é assaz ligeiro de vencer aos corações enamorados e compridos de esforço, embora seja longo ou trabalhoso aos preguiçosos, que são moles ao serviço de Deus; que nesta batalha nenhum é vencido, se ele não quer obedecer e consentir a seu adversairo. Este é o primeiro combate para encher as cavas por mais asinha entrar o castelo, ca o diabo se esforça e trabalha de tirar humildade do coração, porque sem ela não pode algum prazer a Deus, por outro bem que haja.

Por isto disse são Bernardo: "Eu ouso bem dizer que sem humildade a Virgem Maria não prouvera a Deus". E são Gregório disse que quem sem humildade busca as outras virtudes, assim faz como quem lança pó ao vento. Quer dizer que perde seu trabalho. Por isso vem o diabo e filha pedras e terra e tonéis vazios e lança na primeira fossa, assim como se costuma fazer nos castelos cercados, até que a cava é toda cheia.

E quer dizer que traz ao coração da boa pessoa os bens e as virtudes que fez, e as graças espirituais ou temporais que há ou cuida haver mais que os outros; assim que algumas vezes o coração se levanta tanto que a cava de humildade é feita uma grande montanha de soberba. E Santo Agostinho diz: "Soberba é uma montanha em a qual o anjo que era mais claro que as estrelas foi feito escuro".

E o mundo vem de outra parte, que confirma o que o diabo mete no coração. Isto é quando a pessoa é louvada do mundo e teúda por santa, e a carne o consente, que ligeiramente se acorda a honra e vaidade. E por isto são os tonéis vazios, que estas coisas não são senão vento.

E assim se a senhora ou senhor do castelo adormecem, o castelo será asinha filhado, se não há socorro. E por isto é necessário que, com a dupla fossa, haja dobrado muro que cerque o castelo, polo qual as fossas possam ser defesas.