Castelo Perigoso/XXVI

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Castelo Perigoso
Capítulo XXVI – Por que guisa fará homem arredar seus inimigos, se houver esforço; e de como é grande sandice crer homem mais aos outros da sua própria consciência que a si mesmo


Pelo primeiro muro convém a defender este primeiro combate, que é feito por encher a primeira fossa, isto é, por discrição. E se assim este combate não é defendido, o castelo não se poderá longamente ter.

Quando a boa pessoa sente que o coração se lhe começa a alterar por alguns bens, se os fez, de que é louvada, logo deve de acorrer ali e ir ao muro de discrição e sobre este muro achará quatro bestas com que fará arredar seus inimigos, se houver esforço.

A primeira é consideração de sua original nascença. A segunda, ignorância de seu próprio estado. A terceira, consideração da morte. A quarta, esperança do grande juízo.

Quando discrição, sem a qual nenhuma virtude vale, traz ao coração estas quatro considerações e pensa em elas profundamente, os inimigos não hão poder de se achegar. Ca estas são grandes coisas para ter o coração em humildade, por que a cava não pode ser cheia.

E assim deve a devota pessoa que se sente cercada pensar em sua própria condição, assim como fazia el-rei Davi: "Ego sum vermis et non homo, etc." "Eu sou, disse ele, um pequeno verme". Assim conhecia ser pequeno e sua vil pobreza, que assim como o verme é vil coisa e pequena e desprezada e nasce todo nu da terra, assim o homem e a mulher é vil coisa de si e pobre, porque quando ele entra no desterro deste mundo, nenhuma coisa traz nem levará.

São Bernardo diz: "Que coisa é homem? suja semente em sua conceição, saco cheio de esterco em sua vida, vianda dos vermes em sua morte". Quem bem esguardasse o que sai do corpo de o homem e da mulher, ele acharia que aí não há coisa tão vil nem tão suja nem de tanto fedor. E de outra parte, quem cuidasse como a morte vem asinha, e dês que a carne é morta, nunca foi tão formosa nem tão bem corrigida que muito asinha não seja tornada uma tão vil e tão feia e tão fedorenta carga, que convém ser metida sob a terra, que o ar não se corrompa, assim não haveria razão de ensoberbecer.

Este é o primeiro dardo que muito faz retrair o diabo. Mas por isto não deixa o mundo de louvar a pessoa que se assim defende contra o diabo. E, para vencer esta batalha, deve homem tornar a discrição e pensar nos pecados e mínguas que em ele são, e seriam mais, se o Deus não guardasse sem o qual homem nenhuma coisa pode fazer; pois bem pode homem julgar em seu coração que a torto é louvado nem teúdo por santo. E assim é muito grande sandice de crer mais aos outros de sua própria consciência que a si mesmo; que homem não deve louvar outrem antes de sua morte, segundo diz o sages, porque tal é hoje bom, que de manhã será mau.

E muitos são que bem sabem que mais são dignos de confusão que de louvor, e sempre amam e fazem agasalhado aos louvaminheiros e alegram-se com seus falsos gabos. "Porque, diz são Bernardo, me bastará o testemunho de outrem, quando seu plasmo me não pode fazer mal, nem sou melhor por seus gabos". E ainda diz ele contra os louvaminheiros: "Se me vós houvésseis de julgar, a bom direito me glorificaria de vossa louvaminha. Mas como Jesus Cristo me haja de julgar, grande sandice é haver glória no testemunho de outrem".

E por isto, se homem vê que é louvado, não se deve alterar nem alegrar, ca melhor devemos nós de saber o que há dentro em nossas consciências que os outros; e quem se alegra por aquele galardão, perde o do paraíso; e quem bem se defende em este combate com tal besta o mundo se retrai e não há poder de empencer a primeira cava de humildade.

Depois disto, homem se deve defender de sua carne, que criou e tanto ama, e este é o mais forte inimigo que nós havemos; ca o mundo nem o diabo não haveriam em nós poder se a carne os não ajudasse. E por isto a deve homem ter em disciplina e metê-la sob seus pés por jejuns e vigílias e orações e por outras asperezas de vida.

E isto, temperado com discrição; não muito nem pouco, mas segundo as compleições, que um é mais forte que outro, e por razão deve ser o juízo entre o espírito e a carne, que são contrairos. Homem deve assim criar seu corpo que possa servir e assim o disciplinar, que queira obedecer. E assim poderá haver a vitória deste primeiro combate contra o diabo e o mundo e a carne.