Castelo Perigoso/XXXVI

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Castelo Perigoso
Capítulo XXXVI – Que não há aí amor em que humanal coração haja folgança, senão em amar Deus, e de como este amor não pode a algum vir senão por pureza


Amar Deus é tão gloriosa coisa e assim doce que não há deleite nem alegria temporal que o queira parecer. E quem perfeitamente ama Deus, todos amores e consolações temporais deixa atrás. E são Bernardo diz: "Prazível coisa é a divinal consolação, e Deus não a dá a quem outra recebe, mas quer haver o coração de sua esposa todo inteiro, e não faz conta de amor dobrado".

Santo Agostinho diz: "Quem com maior fervor ama, mais claramente vê Deus na glória. E não há aí amor em que humanal coração haja folgança nem verdadeira paz, senão em bem amar Deus, ca os amores deste mundo todos são cheios de amargura e seu fim é tristeza". Isto sabem bem os amigos do mundo; não há aí coisa que possa bastar o coração do homem ou mulher senão Deus. Ca nós vemos comunalmente que quem mais tem mais queria.

Por isto diz o provérbio: "não há tão rico no mundo que diga 'Eu sou abastado'". Mas o amor de Deus enche assim o coração que outra coisa não deseja senão amar. A este amor não pode algum vir senão por pureza de coração, porque claramente verão Deus.

Com boa vontade ouvir falar de Deus e confessar amiúde ajudam bem a haver esta limpeza. Por isto diz são Bernardo: "Ama confissão se queres haver formosura". E homem não ama por confessar três vezes no ano.

Quem quer ser amado de Deus lava-se amiúde por confissão; e assim amará de coração limpo aquele que nos primeiro amou, e assim achará consolação e doçura e conforto e paz e folgança em sua alma, tanto que todas palavras que não sejam de Deus lhe desprazerão. Então amará silêncio e estar só, por mais secretamente estar com seu amigo e esposo Jesus Cristo.