Castelo Perigoso/XXXV

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Castelo Perigoso
Capítulo XXXV – Da caridade e de como se estende a amigos e a inimigos e devemos a amar nossa salvação mais que a dos próximos


Hora é de saber que assim como dissemos que as cavas haviam de ser longas e profundas por humildade, assim convém que sejam largas por caridade, que de outra guisa pouco valeriam para defesa. Caridade se estende a todos, amigos e inimigos, e quem desama uma só pessoa fora é de caridade. Dos maus devemos, por caridade, amar a natureza e desamar os pecados. De caridade vem que nós devemos de amar nossos inimigos, ca Deus o mandou, onde disse: "Amai vossos inimigos e fazei bem a quem vos desama". E assim por caridade, que é larga, é entendida a anchura das cavas; e por humildade se entende a profundeza. Em toda a profundeza de humildade, a caridade descende, e assim uma não é sem outra. Nenhuma virtude se faz nem obra boa sem caridade. Segundo diz são Paulo: "Caridade não é outra coisa senão amor que devemos ter a Deus e a nossos próximos". E quando perguntarom a Jesus Cristo qual era o primeiro mandado da lei, ele respondeu: "Tu amarás teu Senhor e teu Deus de todo seu coração e alma e de todo pensamento e virtude". Este é o primeiro. O segundo semelhável a este: "Tu amarás teu próximo como ti mesmo". Não há aí maiores mandamentos que estes dois, e quem estes cumprir tem a lei cumprida.

Do amor dos próximos diz são João: "Se tu não amas teu próximo, que tu vês, como amarás tu Deus, que não vês?" Amar nossos próximos nos ensina natureza, ca nós vemos que toda besta ama seu semelhante. E assim é que nós somos todos membros da cabeça, que é Nosso Senhor Jesus, que é cabeça da Santa Igreja.

E assim como nós vemos que os membros do corpo humanal são de maravilhosa concórdia, ca se um fere o outro, aí não há vingança, mas sofre-o, e se se homem fere no pé, logo a mão ali vai e o ajuda a guarecer, e se alguma coisa vem para ferir a cabeça, logo a mão se mete diante para receber o golpe e a defender, assim devemos nós a amar um o outro e ser de boa concórdia e sofrer um do outro, e, se mister for, meter nossos corpos em perigo de morte por guardar nossos próximos de pecado mortal, se fazer o podemos.

Pois devemos a amar Deus sobre todas as coisas e mais que nós mesmos, e devemos a amar nossa salvação mais que a de nossos próximos. Que quando ele disse: "Ama teu próximo como ti" não disse "primeiro que ti". Isto quer dizer que tu o deves a amar igual que tu te amas, scilicet, por haver Deus. E tu deves a desejar e querer a saúde de todos, e mais a tua. Desde aí devemos mais a amar as almas de nossos próximos que nossos corpos, e deveríamos mais a amar morrer que a alma de um nosso próximo ser perdida per pecado mortal, se guardar a podemos, ca mais nobre coisa é uma alma que todos os corpos do mundo, ca Deus somente pelas almas quis morrer. E por isto deve homem sempre mais amar as coisas que por melhores conhece e conformar sua vontade com a de Deus, e assim amaremos nossos amigos em Deus e nossos inimigos por Deus. Este é direito amor de próximo.