Com voz desordenada, sem sentido

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Com voz desordenada, sem sentido
por Luís Vaz de Camões

Com voz desordenada, sem sentido,
e com olhos de lágrimas cobertos,
soltava o peito em ásperos desertos
entre um vale escuro, empedernido,

Silvano triste, a quem endurecido
têm de uma bela Ninfa os desconcertos,
perdendo a esperança dos incertos
bens em que a Fortuna o há metido;

mas, volto em si um pouco, perguntava
asi por si o pastor; desta tristeza
levanta o coração já desmaiado

e canta, como quem melhor se achava:
«Não desmaies, esprito, na pobreza,
que a fortuna à razão é mau treslado!»