Como e porque sou romancista/Apresentação

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Como e porque sou romancista por José de Alencar
Apresentação


"Como e Porque Sou Romancista" é a autobiografia intelectual de José de Alencar, importante para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de sua formação literária.

O texto sob a forma de carta, foi escrito em 1873 e publicado em 1893, pela Tipografia Leuzinger. Entre suas reedições, merece menção a da Academia Brasileira de Letras, de 1987, conservando a ortografia original, apresentada pelo Prof. Afrânio Coutinho, com a erudição e clareza marcantes de sua crítica.

A presente edição, com o objetivo de tornar mais acessível a leitura, atualizou a ortografia do texto alencariano. Manteve-se, entretanto, a pontuação original que, no dizer de M. Cavalcanti Proença, é "elemento característico da prosa alencariana, subordinando-se muito menos às regras vigentes na época do que ao ritmo fraseológico, tal qual o concebera e criara".

Afrânio Coutinho definiu esta carta como "autêntico roteiro de teoria literária, o qual, reunido a outros ensaios de sua lavra, pode bem constituir um corpo de doutrina estética literária, que o norteou em sua obra de criação propriamente dita, sobretudo no romance".

O autor enfatizou, em sua formação escolar, a importância dada à leitura, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que o mestre Januário Mateus Ferreira sabia transmitir a seus alunos. Ainda menino, como ledor dos serões da família, teve oportunidade de contínuo e repetido contacto com um escasso repertório de romances, cujos esquemas iam ficando gravados em seu espírito.

Já cursando a Faculdade de direito, em São Paulo, com grande esforço, dominou o idioma francês para ler obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo.

"A escola francesa, que eu então estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado pôr mera casualidade aquele arrojo de criança a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com, a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar."

À influência das leituras na sua formação de escritor, sobrepôs Alencar o valor da imaginação:

"Mas não tivera eu herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo apenas vê flores, desbotadas embora, e de que eu sinto a chama incessante, que essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecânico literário, desses que escrevem presepes em vez de romances."

Discordou da crítica literária que atribuía à influência de Cooper o paisagismo de O Guarani.

"Disse alguém, e repete-se pôr aí, de outiva, que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do ceará com as margens do Delaware."

Segundo Heron de Alencar, "já houve quem colocasse em dúvida algumas das afirmativas que Alencar inseriu em sua autobiografia literária. Ao escrevê-la, já era um escritor de renome e no auge de sua carreira, quatro anos antes de falecer. É possível, desse modo, que tenha, alguma vez querido vestir de fantasia a realidade de sua formação literária, para que a posteridade – sua grande e permanente preocupação – não lhe regateasse admiração e fidelidade. Isso em nada altera o julgamento que deve resultar da leitura de sua obra, e esse é o único julgamento que prevalece."

Para Antônio Cândido, "O escrito mais importante para conhecimento da personalidade é a autobiografia literária "Como e Porque Sou Romancista"...., um dos mais belos documentos pessoais da nossa literatura. Não há ainda biografia à altura do assunto, podendo-se dizer o mesmo da interpretação crítica. Mas há um conjunto de estudos que, somados, permitem bom conhecimento."