Como nas Alcaçarias (grafia do século XIX)

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Sente Bandarra as maldades do mundo, e particularmente as de Portugal.
por António Gonçalves Annes Bandarra
Poema agrupado posteriormente e publicado em Trovas do Bandarra

1
Como nas Alcaçarias
Andão os couros ás voltas,
Assim vejo grandes revoltas
Agora nas Clerezias.

2
Porque usão de Simonias
E adorão os dinheiros,
As Igrejas, pardieiros,
Os corporaes por mais vias.

3
O sumagre com a cal
Faz os couros ser mociços,
Ah! quantos ha máos noviços
Nessa Ordem Episcopal.

4
Porque vai de mal a mal
Sem ordem nem regimento,
Quebrantaõ o mandamento,
Cumprem o mais venial.

5
Tambem sou Official
Sei um pouco de cortiça
Não vejo fazer justiça
A todo o Mundo em geral.

6
Que agora a cadaqual
Sem letras fazem Doutores,
Vejo muitos julgadores,
Que não sabem bem, nem mal.

7
Borzeguins pera calçar
Haõ de ser de cordovães,
Notarios, Tabaliães
Tem o tento em apanhar.

8
Vêlos heis a porfiar
Sobre um pobre seitil,
E rapar vos por um mil
Se volos podem rapar.

9
Tambem sei algo brunir
Quaesquer laços de lavores:
Bachareis, Procuradores
Ahi vai o perseguir.

10
E quando lhe vão pedir
Conselho os demandões,
Como lhe faltão tostões,
Não os querem mais ouvir.

11
Há de ser bem assentada
A obra dos chapins largos,
A linhagem dos Fidalgos
Por dinheiro he trocada.

12
Vejo tanta misturada
Sem haver chefe que mande;
Como quereis, que a cura ande,
Se a ferida está danada?

13
Tenho uma gentil sovela,
Com que cozo mui direito:
Se a mulher não desse geito,
Não olharião pera ella.

14
Em que seja uma donzella
Nobre, casta e oradora
Ella he a causadora,
Do que acontecer por ella.

15
Sei tambem mui bem cozer
Uns borzeguins Cordovezes;
Todos os trajos Francezes
Quemquer os quer ja trazer.

16
Os que não tem que comer
Fazem trajos mui prezados,
Ficão pobres, Lazarados
Por outros enriquecer.