Confissões de uma Viúva Moça/II

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Era no tempo de meu marido.

A côrte estava então animada e não tinha esta cruel monotonia que eu sinto aqui através das tuas cartas e dos jornaes de que sou assignante.

Minha casa era um ponto de reunião de alguns rapazes conversados e algumas moças elegantes. Eu, rainha eleita pelo voto universal... de minha casa, presidia aos serões familiares. Fóra de casa, tinhamos os theatros animados, as partidas das amigas, mil outras distracções que davão á minha vida certas alegrias exteriores em falta das intimas, que são as unicas verdadeiras e fecundas.

Se eu não era feliz, vivia alegre.

E aqui vai o começo do meu romance.

Um dia meu marido pedio-me como obsequio especial que eu não fosse á noite ao theatro Lyrico. Dizia elle que não podia acompanhar-me por ser vespera de sahida de paquete.

Era razoavel o pedido.

Não sei, porém, que espirito máo sussurrou-me ao ouvido e eu respondi peremptoriamente que havia de ir ao theatro, e com elle. Insistio no pedido, insisti na recusa. Pouco bastou para que eu julgasse a minha honra empenhada n’aquillo, Hoje vejo que era a minha vaidade ou o meu destino.

Eu tinha certa superioridade sobre o espirito de meu marido. O meu tom imperioso não admittia recusa; meu marido cedeu a despeito de tudo, e á noite fomos ao theatro Lyrico.

Havia pouca gente e os cantores estavão endefluxados. No fim do primeiro acto meu marido, com um sorriso vingativo, disse-me estas palavras rindo-se:

— Estimei isto.

— Isto? perguntei eu franzindo a testa.

— Este espectaculo deploravel. Fizeste da vinda hoje ao theatro um capitulo de honra; estimo ver que o espectaculo não correspondeu á tua expectativa.

— Pelo contrario, acho magnifico.

— Está bom.

Deves comprehender que eu tinha interesse em me não dar por vencida; mas acreditas facilmente que no fundo eu estava perfeitamente aborrecida do espectaculo e da noite.

Meu marido, que não ousava retorquir, calou-se com ar de vencido, e adiantando-se um pouco á frente do camarote percorreu com o binoculo as linhas dos poucos camarotes fronteiros em que havia gente.

Eu recuei a minha cadeira, e, encostada à divisão do camarote, olhava para o corredor vendo a gente que passava.

No corredor, exactamente em frente á porta do nosso camarote, estava um sujeito encostado, fumando e com os olhos fitos em mim. Não reparei ao principio, mas a insistencia obrigou-me a isso. Olhei para elle a ver se era algum conhecido nosso que esperava ser descoberto afim de vir então comprimentar-nos. A intimidade podia explicar este brinco. Mas não conheci.

Depois de alguns segundos, vendo que elle não tirava os olhos de mim, desviei os meus e cravei-os no panno da boca e na platéa.

Meu marido, tendo acabado o exame dos camarotes, deu-me o binoculo e sentou-se ao fundo diante de mim.

Trocámos algumas palavras.

No fim de um quarto de hora a orchestra começou os preludios para o segundo acto. Levantei-me, meu marido approximou a cadeira para a frente, e n’esse interim lancei um olhar furtivo para o corredor.

O homem estava lá.

Disse a meu marido que fechasse a porta.

Começou o segundo acto.

Então, por um espirito de curiosidade, procurei ver se o meu observador entrava para as cadeiras. Queria conhecêl-o melhor no meio da multidão.

Mas, ou porque não entrasse, ou porque eu não tivesse reparado bem, o que é certo é que o não vi.

Correu o segundo acto mais aborrecido do que o primeiro.

No intervallo recuei de novo a cadeira, e meu marido, a pretexto de que fazia calor, abrio a porta do camarote.

Lancei um olhar para o corredor.

Não vi ninguem; mas d’ahi a poucos minutos chegou o mesmo individuo, collocando-se no mesmo lugar, e fitou em mim os mesmos olhos impertinentes.

Somos todas vaidosas da nossa belleza e desejamos que o mundo inteiro nos admire. É por isso que muitas vezes temos a indiscrição de admirar a côrte mais ou menos arriscada de um homem. Ha, porém, uma maneira de fazêl-a que nos irrita e nos assusta; irrita-nos por impertinente, assusta-nos por perigosa. É o que se dava n’aquelle caso.

O meu admirador insistia de modo tal que me levava a um dilemma: ou elle era victima de uma paixão louca, ou possuia a da audacia mais desfaçada. Em qualquer dos casos não era conveniente que eu animasse as suas adorações.

Fiz estas reflexões emquanto decorria o tempo do intervalo. Ia começar o terceiro acto. Esperei que o mudo perseguidor se retirasse e disse a meu marido:

— Vamos?

— Ah!

— Tenho somno simplesmente; mas o espectactulo está magnifico.

Meu marido ousou exprimir um sophisma.

— Se está magnifico como te faz somno?

Não lhe dei resposta.

Sahímos.

No corredor encontrámos a familia do Azevedo que voltava de uma visita a um camarote conhecido. Demorei-me um pouco para abraçar as senhoras. Disse-lhes que tinha uma dôr de cabeça e que me retirava por isso.

Chegámos á porta da rua dos Ciganos.

Ahi esperei o carro por alguns minutos.

Quem me havia de apparecer alli, encostado ao portal fronteiro?

O mysterioso.

Enraiveci.

Cobri o rosto o mais que pude com o meu capuz e esperei o carro, que chegou logo.

O mysterioso lá ficou tão insensivel e tão mudo como o portal a que estava encostado.

Durante a viagem a idéa d’aquelle incidente não me sahio da cabeça. Fui despertada da minha distracção quando o carro parou á porta de casa, em Matacavallos.

Fiquei envergonhada de mim mesma e decidi não pensar mais no que se havia passado.

Mas acreditarás tu, Carlota? Dormi meia hora mais tarde do que suppunha, tanto a minha imaginação teimava em reproduzir o corredor, o portal, e o meu admirador platonico.

No dia seguinte pensei menos, No fim de oito dias tinha-me varrido do espirito aquella scena, e eu dava graças a Deos por haver-me salvo de uma preoccupação que podia ser-me fatal.

Quiz acompanhar o auxilio divino, resolvendo não ir ao theatro durante algum tempo.

Sujeitei-me á vida intima e limitei-me á distracção das reuniões á noite.

Entretanto estava proximo o dia dos annos da tua filhinha. Lembrei-me que para tomar parte na tua festa de familia, tinha começado um mez antes um trabalhozinho. Cumpria rematal-o.

Uma quinta-feira de manhã mandei vir os preparos da obra e ia continual-a, quando descobri dentre uma meada de lã um envolucro azul fechando uma carta.

Estranhei aquillo. A carta não tinha indicação. Estava collada e parecia esperar que a abrisse a pessoa a quem era endereçada. Quem seria? Seria meu marido? Acostumada a abrir todas as cartas que lhe erão dirigidas, não hesitei. Rompi o envolucro e descobri o papel côr de rosa que vinha dentro.

Dizia a carta:

« Não se sorprenda, Eugenia; este meio é o do desespero, este desespero é o do amor. Amo-a e muito. Até certo tempo procurei fugir-lhe e abafar este sentimento; não posso mais. Não me vio no theatro Lyrico? Era uma força occulta e interior que me levava alli. Desde então não a vi mais. Quando a verei? Não a veja embora, paciencia; mas que o seu coração palpite por mim um minuto em cada dia, é quanto basta a um amor que não busca nem as venturas do gozo, nem as galas da publicidade. Se a offendo, perdôe um peccador; se póde amar-me, faça-me um deos. »

Li esta carta com a mão tremula e os olhos anuviados; e ainda durante alguns minutos depois não sabia o que era de mim.

Cruzavão-se e confundião-se mil idéas na minha cabeça, como estes passaros negros que perpassão em bandos no céo nas horas proximas da tempestade.

Seria o amor que movêra a mão d’aquelle incognito? Seria simplesmente aquillo um meio de seductor calculado? Eu lançava um olhar vago em derredor e tremia ver entrar meu marido.

Tinha o papel diante de mim e aquellas lettras mysteriosas parecião-me outros tantos olhos de uma serpente infernal. Com um movimento nervoso e involuntario amarrotei a carta nas mãos.

Se Eva tivesse feito outro tanto á cabeça da serperite que a tentava não houvera peccado. Eu não podia estar certa do mesmo resultado, porque esta que me apparecia alli e cuja cabeça eu esmagava, podia, como a hydra de Lerna, brotar muitas outras cabeças.

Não cuides que eu fazia então esta dupla evocação bellica e pagã. N’aquelle momento, não reflectia, desvairava; só muito depois pude ligar duas idéas.

Dous sentimentos actuavão em mim: primeiramente , uma especie de terror que infundia o abysmo, abysmo profundo que eu presentia atrás d’aquella carta; depois uma vergonha amarga de ver que eu não estava tão alta na consideração d’aquelle desconhecido, que pudesse demovêl-o do meio que empregou.

Quando o meu espirito se acalmou é que eu pude fazer a reflexão que devia acudir-me desde o principio. Quem poria alli aquella carta? Meu primeiro movimento foi para chamar todos os meus famulos. Mas deteve-me logo a idéa de que por uma simples interrogação nada poderia colher e ficava divulgado o achado da carta. De que valia isto?

Não chamei ninguem.

Entretanto, dizia eu comigo, a empreza foi audaz; podia falhar a cada tramite; que movel impellio áquelle homem a dar este passo? Seria amor, ou seducção?

Voltando a este dilemma, meu espirito, apezar dos perigos, comprazia-se em aceitar a primeira hypothese: era a que respeitava a minha consideração de mulher casada e a minha vaidade de mulher formosa.

Quiz adivinhar lendo a carta de novo: li-a, não uma, mas duas, tres, cinco vezes.

Uma curiosidade indiscreta prendia-me áquelle papel. Fiz um esforço e resolvi aniquilal-o, protestando que ao segundo caso nenhum escravo ou criado me ficaria em casa.

Atravessei a sala com o papel na mão, dirigi-me para o meu gabinete, onde acendi uma vela e queimei aquella carta que me queimava as mãos e a cabeça.

Quando a ultima faisca do papel ennegreceu e voou, senti passos atrás de mim. Era meu marido.

Tive um movimento espontaneo: atirei-mei em seus braços.

Elle abraçou-me com certo espanto.

E quando o meu abraço se prolongava senti que elle me repellia com brandura dizendo-me:

— Está bom, olha que me afogas!

Recuei.

Entristeceu-me ver aquelle homem, que podia e devia salvar-me, não comprehender, por instincto ao menos, que se eu o abraçava tão estreitamente era como se me agarrasse á idéa do dever.

Mas este sentimento que me apertava o coração passou um momento para dar lugar a um sentimento de medo. As cinzas da carta ainda estavão no chão, a vela conservava-se acesa em pleno dia; era bastante para que elle me interrogasse.

Nem por curiosidade o fez!

Deu dous passos no gabinete e sahio.

Senti uma lagrima rolar-me pela face. Não era a primeira lagrima de amargura. Seria a primeira advertencia do peccado?