Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A Riqueza e a Fortuna

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
66. A Riqueza e a Fortuna



66. A RIQUEZA E A FORTUNA

Um pobre homem estava a trabalhar no mato, a cortar lenha para ir vender pela villa e assim sustentar mulher e filhos. De repente viu ao pé de si dois sujeitos, bem vestidos, que lhe disseram:

— Nós sômos a Fortuna e a Riqueza. Vimos-te ajudar.

Cada um queria acudir de preferencia ao pobre homem, e altercavam entre si. Dizia a Riqueza:

— Eu só por mim o faço feliz; sendo elle rico tem tudo.

— Pois mesmo sem ser rico, eu dando-lhe fortuna, faço-lhe maior beneficio. Senão experimentemos.

A Riqueza virou-se para o pobre do homem e disse:

— Toma lá este cruzado novo; ámanhã compra carne, pão e vinho e não trabalhes n’esse dia.

O homem foi-se embora contentissimo para casa; no outro dia foi ao açougue. Deu ao magarefe o dinheiro adiantado, mas como estava um grande barulho de gente no açougue, o carniceiro negou que lhe tinha dado o dinheiro, e o pobre homem resignou-se e foi outra vez trabalhar para o mato.

A Riqueza tornou a chegar-se ao pé d’elle, e quando soube de que lhe servira o cruzado novo, ficou zangada e deu-lhe uma bolsa cheia de dobrões. O homem voltou para casa; mas como a bolsa era de marroquim vermelho, uma ave de rapina cahiu de repente sobre elle e arrebatou nas garras o sacco, e voou. O homem contou a sua tristeza á mulher, e no outro dia foi trabalhar para o mato. Tornou-lhe a apparecer a Riqueza; ficou mais desesperada quando soube do acontecido á bolsa dos dobrões:

— Pois d’esta vez dou-te um sacco de peças tão grande que não pódes com elle; mas aqui tens um cavallo, que t’o vae levar a casa.

O homem agradeceu aquelle favor da Riqueza e pôz-se a caminho para casa. Quando ia por um atalho, estava n’um campo uma egua, e o cavallo botou a fugir atraz d’ella de tal fórma que o homem não foi capaz de o agarrar, e por mais que andou não pôde achar o cavallo.

Quando a Riqueza não esperava tornar mais a encontrar o homem no mato, foi ao sitio costumado com a Fortuna, e qual não foi o seu pasmo quando viu o pobre do homem a trabalhar como d’antes. Disse então a Fortuna:

— Agora é a minha vez de o fazer feliz; vou-lhe dar apenas um vintem. Olhe lá, ó homem, tome esse vintem, e assim que chegar á villa compre a primeira cousa que lhe apparecer.

O homem em caminho para casa encontrou quem lhe offereceu uma vara de andar á azeitona pelo preço de um vintem, e comprou-a. No outro dia foi para a apanha, e quando ia varejar uma oliveira, cahiu-lhe de um galho uma bolsa de marroquim cheia de dobrões. Agarrou n’ella e levou-a para casa, e contou á mulher d’onde suspeitava que lhe vinha aquelle thesouro. A mulher combinou ir fazer uma romaria, e puzeram-se a caminho. Quando chegaram a um escampado acharam pégadas de cavallo, foram andando por ellas e chegaram a um sitio onde estava um cavallo deitado ainda com um sacco cheio de peças. Voltaram logo para casa muito contentes, e mudaram de vida, que até áquelle tempo tinha sido amargurada pelos poucos ganhos e muitos filhos.

A Riqueza e a Fortuna foram ao sitio onde o homem costumava cortar lenha e esperaram por elle bastante tempo. Por fim a Fortuna declarou-se vencedora, dizendo:

— Que te dizia eu? Não é com o muito dinheiro que se é feliz.

(Algarve.)