Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A dama Pé de Cabra

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por D. Pedro, Conde de Barcelos
127. A dama Pé de Cabra


127. A DAMA PÉ DE CABRA

Dom Diego Lopez era muy boo monteyro, e estando hum dia em sa armada e atemdendo quando verria o porco ouvyo cantar muyta alta voz huma molher em çima de huma pena: e el foy pera lá e vio seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorousse logo della muy fortemente e pergumtoulhe quem era: e ella lhe disse que era huma molher de muito alto linhagem, e ell lhe disse que pois era molher dalto linhagem que casaria com ella se ella quisesse, ca elle era senhor d'aquella terra toda: e ella lhe disse que o faria se lhe prometesse que nunca sse santificasse, e elle lho outorgou, e ella foisse logo com elle. E esta dona era muy fermosa, e muy bem feita em todo seu corpo salvando que avia hum pee forcado como pee de cabra. E viverom gram tempo e ouverom dous filhos, e hum ouve nome Enheguez Guerra e a outra foy molher e ouve nome dona

E quando comiam de suum, dom Diego Lopez e sa molher assentava ell a par de sy o filho, e ella assentava a par de ssy a filha da outra parte. E huum dia foy elle a seu monte e matou hum porco muy grande e trouxeo pera sa casa, e poseo ante ssy hu sia comendo com ssa molher e com seus filhos: e lançaram hum osso da mesa e veerom a pellejar huum alaão e huma podenga sobrelle em tall maneyra que a podenga travou ao alaão em a garganta e matouo. E dom Diego quando esto vyo teveo por millagre e synousse e disse — Santa Maria vall, quem viu nunca tall cousa! E ssa molher quando o vyo assy sinar lamçou maão na filha e no filho, e dom Diego Lopez travou do filho e nom lho quiz leixar filhar: e ella rrecudio com a filha por huuma freesta do paaço e foysse pera as montanhas em guisa que a nom virom mais nem a filha.

Depois a cabo de tempo foy este dom Diego Lopez a fazer mall aos mouros, e premderomno e levaromno pera Tolledo preso. E a seu filho Enheguez Guerra pesava muito de ssa prisom, e veo a fallar com os da terra per que maneyra o poderiam aver fóra da prisom. E elles disseram que nom sabiam maneyra porque o podessem aver, salvando sse fosse aas montanhas e achasse ssa madre, e que ella lhe daria como o tirasse. E ell foy alaá soo, em çima de seu cavallo, e achoua em çima de uma peña: e ella lhe disse: «Filho Enheguez Guerra, vem a mym ca bem sey eu ao que veens. E ell foy pera ella e ella lhe disse: «Veens a preguntar como tirarás teu padre de prisom.»

Entom chamou hum cavallo que andava solto pello monte que avia nome Pardallo e chamouo per seu nome: e ella meteo hum freo ao cavallo que tiinha, e disse-lhe que nom fezesse força pollo dessellar, nem pollo desenfrear nem por lhe dar de comer nem de bever nem de ferrar: e disselhe que este cavallo lhe duraria em toda sa vida, e que nunca entraria em lide que nom vemçesse delle. E disselhe que cavalgasse com elle e que o poria em Tolledo ante a porta hu jazia seu padre logo em esse dia, e que ante a porta hu o cavallo o posesse que alli deçesse e que acharia seu padre estar em hum corral e que o filhasse pella maão e fezesse que queria fallar com elle, que o fosse tirando contra a porta hu estava o cavallo e que desque alli fosse que cavalgasse em o cavallo e que pozesse seu padre ante ssy e que ante noite seria em sa terra com seu padre: e assy foy.

(Livros de Linhagens, p. 258.)





Notas[editar]

127. A dama pé de cabra. — Na Chaine traditionelle, p. 156, Hyacinthe Husson traz uma tradição analoga das ilhas Celebes. O episodio da ida de Enheguez Guerra libertar o pae acha-se no Violier des Histoires romaines, cap. XIV, p. 37 (ed. Janet). O cavallo-fada acha-se nas Nuits facetieuses, de Straparola, III, fab. 2. Parece-nos que este mesmo fundo tradicional subsiste no romance popular da Infantina.