Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A morte sem merecimento

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por D. Pedro, Conde de Barcelos
128. A morte sem merecimento


128. A MORTE SEM MEREÇIMENTO

Acomteçeo gram cajam a D. Fernam Rodriguez, porque huma covilheira de ssa molher dona Estevainha fazia mall com hum peom, e hia cada dia ao seraão a ell a hum pomar dêsque se deitava ssa senhora, e levava cada dia o pelote de ssa senhora vestido: e dom Fernam Rodriguez nom era entom hi, e dous escudeiros seus que hi ficarom viromnos humas tres noites ou quatro, e como entrava o peom a ella per çima de um çarrudo do pomar a fazer mall sa fuzenda ssô huuma arvor. E quando chegou dom Fernam Rodriguez espediromselhe os escudeiros e foromsse, e tornaram a elle outro dia e contaromlhe esta maneyra dizendo que ssa molher fazia tall feito e que a virom assi humas tres noites ou quatro e disserom que se fosse dalli e que lho fariam veer. E elle foysse e tornou hi de noute a furto com elles aaquelle lugar hu elles soyam a estar: e a cabo de pouco virom viir a covilheyra pera aquelle lugar meesmo e trazia vestido o pellote de ssa senhora bem como soya; e dom Fernam Rodriguez foy pera lá quanto pode e trauou no peom, e em quanto o matava fugiu ella pera casa e colheusse sô o leyto hu sa senhora jazia dormindo com seu filho dom Pero Fernandes nos braços. E desque Fernam Rodriguez matou o peom emderemçou pera o leito hu jazia sa molher dormindo com seu filho e chamtou o cuytello em ella e matoua, e desque a matou pidiu lume, e quando a achou jazer em camisa e seu filho apar de ssy maravilhousse e catou toda a casa e achou a aleyvosa da covilheira com o pellote vestido de ssa senhora sô o leito, e preguntoulhe porque fizera tall feito, e ella lhe disse que fizera como máa e elle mandoua matar e queymar por aleyvosa: e ficou com gram pesar d'este cajam que lhe acontecera e bem quisera sa morte.

(Os Livros de Linhagens, p. 266. Ed. cit.)





Notas[editar]

128. A morte sem merecimento. — Contaram-nos que este thema era objecto de um romance metrificado, que nunca encontramos na tradição popular. Sobre o mesmo assumpto existe uma tragedia de Lope de Vega.