Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A feia que fica bonita

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
25. A feia que fica bonita



25. A FEIA QUE FICA BONITA

Era uma vez uma velha, que tinha uma neta, que era feia como um bicho. A velha morava defronte do palacio do rei, e metteu-se-lhe em cabeça de vir a casar a neta com o rei. Lembrou-se de urna giria. Todas as vezes que o rei sahia a passeio, ao passar por diante da porta da velha, ella despejava para a rua uma bacia de agua de cheiro, e dizia:

— A agua em que a minha neta se lava cheira que recende.

Succedeu isto assim tantas vezes, que o rei reparou para o caso, e pediu á velha que lhe deixasse ver a neta, que se lavava em agua tão cheirosa. A velha escusou-se dizendo que não, porque a neta era muito vergonhosa, mas que tudo se arranjaria, porque assim que fosse noite iria com ella fazer uma visita, e por este engano a levaria ao palacio. Disse tambem ao rei que era a cara mais linda do mundo; o rei esperou que anoitecesse, até que ouviu o signal combinado, e veiu buscar a rapariga. A velha foi-se embora, pensando que o rei ficaria com a neta; quando o rei chegou ao seu quarto e accendeu a luz, deu com uma mulher feiissima e desengraçada; ficou zangado com o logro, e na sua raiva despiu-a toda e fechou-a n’uma varanda ao relento da noite. A pobre rapariga não podia perceber a sua desgraça, e com o frio e com o medo da escuridão estava bem perto de morrer.

Lá por essa meia noite passou um rancho de fadas, que andavam a distrahir um principe que tinha perdido o riso; o principe assim que viu a rapariga núa desatou logo ás gargalhadas. As fadas ficaram muito contentes, e quando viram que a causa fôra aquella rapariga núa, negra e feia, disseram-lhe:

— Nós te fadamos, para que sejas a cara mais linda do mundo.

Quando de madrugada o rei veiu vêr se a rapariga teria morrido, achou-a lindissima, e ficou pasmado do seu engano. Pediu-lhe muito perdão, e pediu-lhe logo para casar com ella. Casaram e fizeram-se grandes festas. A velha avó, que morava defronte do palacio, soube que a nova rainha era a sua neta; foi ao palacio pedir para lhe dar uma falla. Chegou-se ao pé da neta e perguntou-lhe baixinho:

— Quem é que te fez tão bonita?

A neta respondeu na sua boa verdade:

— Fadaram-me.

Ora como a velha era surda, entendeu que lhe dizia: «Esfolaram-me.» O rei, deu-lhe muito dinheiro assim que ella se despediu, e ella foi logo a casa de um barbeiro para que a esfolasse, porque queria ficar outra vez nova. O barbeiro não queria, ella deu-lhe todo o dinheiro que levava; por fim começou a esfolal-a, e a velha morreu no meio de grandes dôres, pensando que ficava bonita.

(Algarve.)


Notas[editar]

25. A feia que se torna bonita. — No Pentamerone de Basile, X conto, ha uma velha que se esfola para se fazer bonita. Vid. Gubernatis, Mythologie zoologique, t. II, p. 6: «No decimo conto do Pentamerone, o rei de Roccaforte casa-se com uma velha, julgando que é uma nova. Deita-a pela janella, mas ella na queda fica dependurada de uma arvore; vêm as fadas, fazem-n'a nova , dão-lhe formosura e riqueza, e cingem-lhe o cabello com uma fita de ouro. A irmã, tambem velha, da outra que ficou bonita (a Noite) foi a casa de um barbeiro, esperando obter a mesma transformação pedindo que a esfolasse, mas ficou sem pelle. No que respeita o mytho das duas irmãs, a Noite e a Aurora, a donzella negra e a que se disfarça ou tinge de negro, ou cinzento, vide tambem o Pentamerone, II, 2.» O conto baseia-se sobre um equivoco de linguagem, que vem reforçar a elaboração do mytho. Nos Contos populares portuguezes, n.º LXV, vem uma versão de Coimbra com o titulo A velha fadada.