Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A ingratidão dos filhos

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
175. A ingratidão dos filhos



175. A INGRATIDÃO DOS FILHOS

Certa mulher, déra á sua filha em dote quanto possuia; e depois, assim ella como o genro a desprezavam e lhes aborrecia em casa como carga inutil. Vendo isto a velha:

— Já sei (disse comsigo) como emendar o erro meu.

D'ali por diante fingia que se furtava aos olhos dos domesticos para se retirar a certo aposento interior, onde tinha uma arca com muitas fechaduras, cujas chaves recatava; ali, de noite, a horas escusas, com dissimulação affectada, abria, vasava, contava e tornava a guardar, em logar de patacas, pedacinhos de louça quebrada, espreitando entretanto se fôra sentida a mesma que o desejava ser. Tambem entre a conversação deixava cahir algumas palavras prenhes, que indicavam testamento feito, ou quantidade de suffragios e esmolas, ou louvor dos que pouparam para a sua velhice ou outras similhantes. Do que tudo vieram a filha e o genro a entender que a velha tinha dinheiro escondido e logo deliberaram dar-lhe bom trato e falar-lhe com agrado e sugeição. Tanto que chegou o seu dia e passou d'esta vida, foram muito soffregos registrar o que havia na arca, suave tormento de suas esperanças, mas o que acharam entre os telhos, foi só um papel com estas palavras:

— Filhos meus, se os tiverdes, não vos esqueçaes de vós no dar-lhe estado; este desengano que tenho vos deixo, en1 logar do dinheiro que não tenho.

(Padre Manoel Bernardes, Nova Floresta de varios Apophthegmas, t. I, p. 145.





Variante

Achava-se certo pae com duas filhas capazes já de tomarem estado, e querendo dar-lh'o com mais grandeza, lhes consignou em dote quanta fazenda possuia. Suppoz que os consortes nunca deixariam de corresponder a esta liberalidade com egual gratificação provendo-o depois do que necessitasse, servindo-o e tratando-o com aquelle amor que podia prometter-se de pessoas tão proximas no parentesco como obrigadas pelo beneficio. Mostraram-lhe os esposos ao principio algumas demonstrações de affecto, mas faltando-lhes pouco a pouco as esperanças de conseguirem já nada do velho, que lhes tinha dado tudo, começaram-no a maltratar de sorte, que bem cedo conheceu o erro em que cahira, reduzindo-se á pobreza. Vendo-se o velho reduzido a tão triste estado, e cuidando no remedio da sua necessidade, lhe occorreu emfim uma industria, que lhe sahiu bem succedida e acertada. Tinha um amigo particular, e pediu-lhe certa quantia bastante de mil cruzados, a qual sem fallencia alguma lhe restituiria passado aquelle termo. Conseguiu promptamente o dinheiro, e levando-o ás escondidas para a sua camera que ficava proxima ás dos genros e filhas, vasou o saco sobre uma meza e poz-se a contar o dinheiro, manejando-o de sorte que tinisse e soasse fóra o estrondo. Perceberam as filhas o som, acudiram logo ao reclamo, espreitaram pela fechadura da porta, e vendo sobre o bofete tanta somma de moedas, communicada a novidade aos maridos, assentaram que convinha mudar de estylo e dar ao velho outro tratamento. Como lhe suppunham ainda algum cabedal, temerosas que talvez o deixasse a pessoas extranhas, julgaram que importava ganhar-lhe a vontade para segurarem d'este modo toda a herança. Assim como o resolveram o executaram, e para mais se certificarem, em certa occasião procuraram saber d'elle um dia se lhe restava ainda alguma cousa, e quanta somma de dinheiro de que dispuzesse.

Respondeu o acautellado velho, que alguma quantia reservára para fazer seu testamento. Que sua tenção era deixar a somma dos mil cruzados, que lhe restavam, a suas filhas, deixando a uma ou outra mais ou menos, conforme os obsequias e serviços que d'ellas recebesse n'aquella sua velhice necessitada de tantos.

Bastaram estas palavras para accenderem nas filhas o appetite do dinheiro, e cada qual logo á porfia começou a ganhar a vontade e benevolencia do pae, servindo-o em tudo e gosando-se elle dissimuladamente do bom successo que surtira o estratagema. Passado algum tempo adoeceu de morte o velho, e chamando as filhas e os genros, disse-lhes ser chegada a sua ultima hora, e que assim tanto que expirasse, acabados os suffragios, receberiam dos Frades a chave da caixa, a qual abrissem, porque de quanto estava dentro as deixava egualmente por herdeiras. Apenas o bom velho expirou, promptamente se disseram as missas, e recebendo as filhas com alvoroço a chave, abriram a arca mui ligeiras, mas não estava dentro uma só moeda; sómente acharam um malho, que tinha estas letras ao redor escriptas:

«Com este malho se dê na cabeça de quem não tratando de si, deixa a sua fazenda a outrem.»

(Padre Manoel Consciencia, Academia universal de varia erudição, p. 95.)





Notas[editar]

175. A ingratidão dos filhos. O caixão de pedras. — Acha-se nos fabliaux da Edade media: Le bourgeois d'Abbeville por Bernier (Recueil de Fabliaux, p. 166); o Conto do Sapo, no Doctrinal de Sapience, fl. 21, v. A herança de pedras acha-se no testamento de Fauchet, em que os logrados são os frades; ha outras versões nas Histoires plaisantes et ingenieuses, p. 146; e em Piron, Fils ingrats, comedia. Esta historia affecta outras fórmas, como é o episodio da intervenção do neto que se prepara para exercer a mesma crueldade com o pae. Nos Contos nacionaes para crianças, n.º 1, ha uma referencia a uma versão popular ainda corrente em Portugal. Nas Horas de Recreyo, do Padre João Baptista de Castro, (p. 81) vem este thema da Velha que dá o que tem á filha.