Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O pagem da rainha

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Francisco Saraiva de Sousa
174. O pagem da rainha
Vid. também o mesmo conto na Cantiga 78 das Cantigas de Santa Maria.



174. O PAGEM DA RAINHA

Teve a rainha Santa Izabel um pagem ou criado de camara, que servia de seu esmoler, e outras obras pias e caritativas em que a santa rainha de continuo se occupava; era este moço de boas partes, que foi a herança que seu pae lhe deixou, segundo conta Henrique Gran, que estando para morrer lhe disse: — Filho, a melhor herança que te posso deixar é dar-te este conselho, que sejas muito virtuoso e que ouças cada dia missa inteira e sejas muito devoto da Virgem nossa senhora. Estas e outras cousas santas lhe encommendou. N'este tempo tinha elrei Dom Diniz outro pagem muito seu privado e querido; este vendo a privança que o outro tinha com a rainha, por inveja e por mais cahir em graça delrei, determinou de lhe levantar um falso testemunho e pôl-o em mal com elrei; e foi este que affirmou que a rainha tinha uma affeição má; como o rei vivia não mui honestamente, pouco bastou logo para lhe dar credito, e assi d'ali por diante andava pensativo, triste, malenconizado, vivendo com muita desconfiança da rainha pelo que seu pagem lhe tinha dito, determinou de o matar secretamente, e sahindo aquelle dia a passear, passou por onde estavam ardendo uns fornos de cal, e chamando de parte os homens que n'elles trabalhavam, lhes mandou que a um criado da camara que elle enviaria com um recado: — se tinham feito o que elrei lhe tinha mandado? — o arrebatassem logo e o lançassem dentro no forno para que assi se fizesse em pó e em cinza, porque assi convinha ao seu serviço. Ao outro dia pela manhã mandou o pagem da rainha que fosse logo com este recado, para que os homens puzessem em execução o que lhes tinha mandado; mas nosso senhor, que nunca falta aos seus e acode aos innocentes, ordenou que em passando este moço tangessem no mosteiro de S. Francisco (que estava em caminho) á missa, e entrando esteve-a ouvindo até o cabo, e ainda outras duas, que se começaram.

N'este tempo desejando elrei saber se era já morto, mandou ao pagem da camera (que era aquelle que o havia accusado levantando-lhe o falso testemunho) e lhe disse:

— Vae ao forno a saber se tem já feito o que mandei; foi e dando o recado, arrebataram-no os homens e vivo o metteram no forno. N'este tempo acabando o moço innocente e sem culpa de ouvir as missas, foi dar o recado que elrei lhe tinha dito, se haviam feito o que sua alteza lhes havia mandado, e dizendo elles — que si, se volveu com a resposta a Elrei, o qual vendo e considerando que havia acontecido este negocio ao revés de como elle havia mandado, e tornando-se ao pagem o começou a reprehender, perguntando-lhe d'onde havia estado tanto tempo? Respondeu elle: — Senhor, indo a cumprir o mandado de vossa alteza, tangendo a Missa entrei dentro, e ouvi aquella missa até o cabo, e antes que aquella se acabasse começaram duas, e assi ouvi todas trez até o cabo, porque assi m'o encommendou meu pae e deixou por benção, que todas as missas que visse começar estivesse a ellas até o fim. Então viu elrei por este juizo de Deus as falsidades, e veiu a cahir na conta da verdade e a conhecer a innocencia da santa rainha, e a fidelidade e virtude de criado, e assi lançou a má imaginação que trazia contra a rainha.

(Baculo pastoral, I, 148.)





Notas[editar]

174. O pagem da Rainha. — Acha-se no Patrañuelo de Timoneda, n.º XVII. (Ed. Ribadaneyra, p. 158.) Loiseleur des Longchamps, no Essai sur les Fables indiennes, p. 134, not., cita um dos Contos dos Sete Vizires, e o fabliau D'un roi qui voulut faire brûler les fils de son sénéchal. (Legrand d'Aussy, Fab., t. v, p. 56.) Esta mesma tradição acha-se na redacção ingleza das Gesta Romanorum, cap. XCVIII; nas Cento Novelle antiche (Libro di Novelle, LXVIII); nas Novellas de Geraldo Cynthio, 2.ª cent., 8.ª dez., 6.ª novella; a lenda de Santa Isabel, em Portugal, no Baculo Pastoral, de Saraiva de Sousa, já se achava em verso por Affonso o Sabio, avô do rei D. Diniz, contada como um milagre da Virgem. A sua proveniencia oriental acha-se no Katha sarit sagara, collecção de Somadeva Bhatta, do seculo XII. (Trad. Brockaus, vol. II, p. 62.) Œsterley, na sua edição das Gesta Romanorum, cita na nota ao numero 283 os paradigmas d'esta lenda, tambem popular na Alsacia com o titulo de Fridolin, sobre que Schiller fez a Ballada Gang nach dem Eisenkammer. Vid. tambem o estudo d'Ancona, na Romania, t. III, p. 187. Repete-se ainda na tradição popular de Coimbra.