Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A papisa Joanna

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
141. A papisa Joanna



141. A PAPISA JOANNA

Huum papa que ouve nome Johãne, natural de Margantina de Ingraterra, foy molher. Ca ella seendo moça pequena levoua huum seu amigo aa cidade de Athenas em trajo de barom. E aprendeo tanto que foy sabedor en muytas ciencias, em tal guisa, que nom avia nenhum que fosse egual a ella. E depois veeo a Rroma e leeo hi de cadeyra. E aprendiam della grandes meestres e muytos outros discipulos, em guisa que era de muy grande fama en a cidade de Roma. E porem foy eleito en concordia por papa. E seendo papa dormio com huum seu familiar e emprenhou. E ella nom sabia o tempo do parto, e hindo huum dia da egreja de sam pedro pera sam joham de letram veeromlhe as doores do parto e paryo aly en a carreyra e morreo, e soterraromna aly. Pouco aproveitou a esta a fama e os louvores dos homeẽs, assy como empeeceo a outro papa a desonrra que lhe foy fecta.

(Fl. 99.)





Notas[editar]

141. A Papisa Joanna. — Acha-se uma referencia a esta lenda, no livro de Mariannus Scotus, Chron. ad annum 854, dizendo que «Leão IV teve por successor uma mulher chamada Joanna, que occupou a cadeira de Pedro durante dois annos, cinco mezes e quatro dias.» Em outro chronista do fim do seculo VIII, Sigberto (da collecção de Leibnitz), se lê: «Conta-se que este João fôra uma mulher, conhecida sómente por um dos seus familiares…» Nos Annaes de Othon, bispo de Fressingue, que chegam até 1146, diz-se que este papa João era uma mulher. O mesmo testemunho se acha nas chronicas de Gifrid Arthur, Godefroy de Viterbo (da collecção Freher), collocando a papisa Joanna entre Leão e Bento. No seculo XIII, Martim Polonus, dominicano e penitenciario dos papas João XXI e Nicolau III, diz na sua Chron. ad annum 854 (da collecção de Leibnitz): «que Joanna era filha de paes inglezes e nascida em Mayence, e que depois de ter sido papa dois annos, cinco mezes e quatro dias, morrera de parto, em uma procissão, e foi enterrada sem honra no mesmo logar em que expirára. Os soberanos pontifices nunca mais passaram por esta rua, e iam para a basilica de Latrão por outro caminho.» Um bispo da Galliza, Bernardo Guy, do seculo XIV, nas suas Flores temporum, tambem allude ao facto da papisa Joanna, seguindo-se a este outros, como João de Paris, Sifrid de Misnia, Sozomeno, Barlaam, monge da Calabria, e Amalarico d'Auger, na sua Nomenclatura chronologica dos Bispos de Roma. Petrarcha, na Vida dos Imperadores e dos Papas, e Boccacio, na obra De claris mulieribus, citam como facto historico a realidade da papisa Joanna, que mais tarde Allatio attribuiu impudentemente a fabricação dos protestantes. Basta-nos citar estas auctoridades para se conhecer por que via este facto penetrou no conhecimento dos theologos portuguezes do seculo XIV, e com que intuito o citou Frei Hermenegildo de Tancos no Orto do Esposo. Merece consultar-se a monographia de Emm. Rhoïdes, La Papesse Jeanne, p. 64 a 71.