Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Alegria da viuva

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
69. Alegria da viuva



69. ALEGRIA DA VIUVA

Era uma vez um homem casado; a mulher dizia que morria por elle, e que Deus nunca dera a ninguem um marido assim. O homem fiava-se n’aquellas palavras, e quando andava no campo a trabalhar dizia para o criado:

— Não ha ninguem que tenha uma mulher como a minha.

O criado disse que não era bom experimentar, porque podia ficar enganado. Disse o patrão:

— Agora é que desafio todo o mundo para me mostrarem uma mulher melhor do que a minha.

— Pois eu estou prompto para uma experiencia. Á noite, quando formos para casa, vae o patrão atravessado na palha fingindo que morreu, e o resto fica por minha conta.

Assim aconteceu; o criado chegou mais tarde do que o costume, bateu á porta, e com grande pranto contou como o patrão tinha morrido de repente. Quando a mulher ia começar a fazer grandes choros, disse-lhe o criado:

— Oh minha ama; é melhor não dar a saber isto á visinhança, porque se enche logo a casa de gente, e tudo quanto lhe vier fazer companhia quer de comer e grandes esmolas, e assim nós dois pod emos passar a noite ao pé do corpo.

— Dizes bem, Valentim; pela manhã logo, se dirá que morreu.

Pegaram ambos no corpo e foram deital-o em cima de uma cama; passado algum tempo, diz o criado:

— Oh minha ama, a gente não ceia nada? isto morto como morto, e vivo como vivo.

— Pois dizes bem, vou fazer folar e tu vae lá abaixo buscar uma infusa de vinho.

Passado mais algum tempo, diz outra vez o criado:

— Oh minha ama, deixe-me deitar um bocadinho no seu colo, ando tão moido do trabalho.

— Pois sim, Valentim.

Tornou, depois o criado:

— O meu amo quando era vivo
Dizia-me que casasse comtigo.

Respondeu a mulher:

— Tambem elle me dizia a mim
Que casasse comtigo, meu Valentim.

O marido não quiz esperar por mais para certificar-se, e nunca mais fez caso d’ella em toda a sua vida.

(Algarve.)


Notas[editar]

69. A alegria da viuva. — É uma fórma popular da antiga tradição da Matrona de Epheso, tão frequentemente citada nos escriptores classicos. Nas Horas de Recreyo, do padre João Baptista de Castro, vem uma redacção portugueza da Matrona de Epheso formada sobre elementos eruditos. Esta historia acha-se na collecção dos Sete sabios; Loiseleur des Longchamps, no Essai sur les Fables indiennes, p . 161, indica as fontes d'este conto mais conhecido pelo Satyricon de Petronio. Ha um estudo especial por M. Dacier, nas Mem. de l'Academie des Inscriptions, t. XLI; no Policraticus sive de Nugis Curialium, de João de Sarisberi, de 1183, vem esta lenda d'onde se vulgarisou na Edade media, e para a collecção das Cento Novelle antiche. As imitações litterarias são numerosissimas. No Novellino traz o n.º LIX.