Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/As crianças abandonadas

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
51. As crianças abandonadas



51. AS CRIANÇAS ABANDONADAS

Um pobre homem casado tinha muitos filhos, sem ter que lhes dar a comer; de uma vez, quando os pequenos já estavam deitados, disse elle para a mulher:

— O melhor é leval-os commigo para o monte quando fôr á lenha, e deixal-os lá.

O filho mais novo apanhou a conversa e levantou-se surrateiro, e foi á ribeira e trouxe para casa muitos seixinhos. Ao outro dia pela madrugada o homem saiu com os filhos para o monte, e o mais novo foi espalhando os seixos pelo caminho. Ao cair da tarde o homem carregou a lenha, e disse aos filhos que ficassem guardando o resto, que já vinha por elles. Mas, voltou elle? Assim que anoiteceu, os pequenos começaram a chorar; ora o mais novo, disse:

— Eu sei o caminho.

E foi procurando os seixinhos brancos que tinha deixado cair pelo caminho; o que é certo é que deu com o caminho de casa mais os irmãos. Estava a porta fechada e estava-se á ceia. Dizia a mulher:

— Está este caldinho tão bom. Quem me dera aqui agora os nossos filhos! Onde estarão a estas horas?

— Estamos aqui, mãesinha.

A mãe foi abrir-lhes a porta. Passaram tempos, a pobreza augmentou, e o pae combinou outra vez a il-os deixar no monte; assim fez. O pequeno apanhou a conversa, e d’esta vez, como não pôde ir buscar os seixos, encheu uma algibeira de tremoços, e foi-os espalhando. Á noite quando o pae se veiu embora, o pequeno começou a procurar os tremoços, e os passaros tinham-n’os comido, e não pôde achar o caminho. Elle mais os irmãosinhos perderam-se no descampado, até que foram dar a uma casa onde morava um homem ruim; a mulher assim que os viu, disse:

— Ai meninos, que vindes aqui fazer, que o meu homem come gente!

— O que nós queríamos era comer alguma cousinha, disse o mais esperto.

Entraram; a mulher deitou os seus filhos em uma cama, e pôz-lhe umas carapucinhas e levou os pequenos perdidos, para outra cama. O pequeno mais esperto não pregava olho, e lá pela noite adiante, viu entrar o homem ruim, de dentes arreganhados:

— Cheira-me aqui a gente nova!

A mulher confessou-lhe tudo; ora o pequeno tinha ido tirar as carapucinhas aos outros e tinha-as mettido nas cabeças dos irmãos e da sua. O homem máo passou pela cama das crianças, e pensando que eram os seus filhos foi ter á outra cama, e como os não viu com as carapucinhas, degolou-os logo a todos, e começou a comer n’elles. Os pequenos pelo aviso do irmão escapuliram-se, e quando já iam muito longe é que o homem ruim deu pelo engano; calçou umas botas de sete leguas, e tal passada deu que os pequenos lhe ficaram atraz; andou, andou e de cançado voltou e adormeceu no caminho. O pequeno roubou-lhe as botas de sete leguas, e assim pôz-se a salvamento mais os irmãos, e como o rei tinha guerras muito longe, elle levava as ordens, e trazia as noticias, e assim ganhou muito dinheiro com que tirou toda a sua familia da pobreza.

(Airão.)


Notas[editar]

51. As crianças abandonadas. — Ha outras versões de Guimarães e Villa Real (ap. Leite de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, p. 264 e 266); outra nos Contos populares portuguezes, e nos Portuguese Folk Tales, de Consiglieri Pedroso, traducção de Ralston, n.º XIV, apparecem duas versões com o titulo As duas crianças e a Feiticeira. Sobre este conto Ralston cita um paradigma norueguez Boots and the Troll. (Op. cit., p. VII.) As botas de sete leguas são interpretadas como uma fórma mythica do vento; acha-se nos Contos esthonianos de Frederico Kreuzenwald, n.º XI. (Ap. Gubernatis, Myth. zool., t. I, 174.) No XVI conto esthoniano tambem se marca o caminho deixando cahir cascas. (Ib., p. 178.)