Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/As cunhadas do rei

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
39. As cunhadas do rei



39. AS CUNHADAS DO REI

O rei andava de noite pelas ruas acompanhado do seu cosinheiro e do seu copeiro disfarçado, escutando pelas portas; passou por um balcão onde estavam tres meninas, que estavam conversando, e pôz-se á escuta do que diziam:

— Ali vão tres tunantes; se um fosse o rei, já eu sabia quem eram os outros.

— Um era o cosinheiro. Quem me a mim dera casar com elle; sempre havia de comer bons fricassés.

— O outro era o copeiro; pois eu cá o que queria era casar com elle, porque havia de ter bons licores.

Disse a mais nova:

— Eu não sei quem elles são; mas ainda que fossem condes ou duques, antes queria casar com o rei, porque lhe havia de dar tres meninos cada um com a sua estrella de ouro na testa.

O rancho foi-se embora, mas ao outro dia, o rei mandou ir á sua presença as tres irmãs. Perguntou-lhes se era verdade o que ellas tinham dito na vespera á noite. Respondeu a mais velha por si. Disse o rei:

— Pois então casarás com o meu cosinheiro.

A do meio tambem disse que tinha fallado por zombaria; o rei mandou que se arrecebesse com o copeiro. Chegou-se por fim á mais moça, que era a mais bonita:

— Então, disseste que só querias casar commigo?

— É verdade, não posso mentir; mande-me vossa magestade castigar.

O que o rei fez foi casar com ella; as irmãs ficaram a arrebentar de inveja, mas viviam no palacio. Ao fim do tempo, a que estava rainha teve dois meninos com uma estrellinha na testa. As irmãs, que estavam com ella, trocaram os meninos por dois cães. Os meninos foram botados ao rio dentro d’uma condessinha, e foram por agua abaixo ter ao moinho de um moleiro; como lhe parasse a agua, elle saiu a vêr o que era, e achando as duas criancinhas tomou-as para casa e criou-as. Ora o rei andava longe da terra, e quando veiu soube do caso e ficou muito triste, mas não fez mal á mulher. Passado tempo a rainha teve uma menina, e as irmãs, vendo que ella tambem tinha uma estrella na testa, trocaram-n’a por uma cadellinha e mandaram-n’a deitar ao rio; assim foi ter ao moinho onde já estavam os irmãos. O rei quando soube que a sua mulher tinha tido uma cadella, mandou-a enterrar até á cinta no pateo do palacio, para que todos que entrassem ou saissem lhe cuspissem em cima.

Os tres meninos cresceram, e o moleiro pôz-lhes umas carapucinhas para encobrir as estrellas de ouro que tinham na testa.

Um dia foi uma pobre pedir esmola á porta do moleiro; os meninos deram-lhe a esmolinha, e era Nossa Senhora, que lhe disse, que quando se vissem em alguma afflicção dissessem: «Valha-me aquella pobresinha.» Veiu a peste, e o moleiro e toda a sua gente morreu, e os meninos foram todos tres por esse mundo. Appareceu-lhe a pobre que os guiou até ao pé do palacio do rei, e deu-lhes a cada um a sua pedrinha, para se tornarem em um grande palacio quando as atirassem ao chão.

As tias estavam á janella do paço, e conheceram que eram os meninos das estrellinhas na testa, e trataram logo de vêr se os matavam. Mandaram ter com elles uma criada bruxa, que disse ao mais novinho, para entrar no jardim e apanhar um papagaio. Elle disse-lhe que não; vae o mais velho como animoso, disse:

— Pois vou eu.

E assim que entrou perdeu-se lá dentro e ficou encantado em leão. O outro quando viu que o irmão não tornava chamou pela pobresinha; ella veiu e deu-lhe uma lança, e disse:

— Vae ao jardim, e fere com ella o leão encantado.

Elle assim fez; e appareceu-lhe logo outra vez o irmão, que já tinha apanhado o papagaio. Botaram a fugir logo, e os portões do jardim fecharam-se de repente e só apanharam uma pontinha da aba do casaco de um d’elles.

A criada bruxa tinha no entretanto ido ter com a menina, e fallou-lhe em certas maravilhas da arvore que bota sangue e da agua de mil fontes. A menina pediu aos irmãos estas cousas, que eram para enfeitar os jardins do seu palacio. Cada um foi lá por sua vez e lá ficaram ambos encantados. Quando a menina viu que não tornavam, disse muito triste:

— Valha-me aqui a nossa pobresinha.

Appareceu-lhe a Nossa Senhora, que lhe ensinou como havia de ir ao jardim, e desencantar os irmãos, e enfrascar a agua de mil fontes e cortar o ramo da arvore que deitava sangue. Ella fez tudo, mas era preciso, que por mais barulho que ouvisse nunca olhasse para traz, senão ficava tambem encantada. Quando vinha com os irmãos e com as cousas que elles tinham ido buscar, era muito o barulho de vozes e só ao sair da porta é que deu um geitinho á cabeça para vêr para traz, mas foi o bastante para lhe ficarem presos os cabellos. Os irmãos foram buscar umas tesouras, e voltaram depois todos para o seu palacio defronte do rei.

Quando o rei apparecia á janella o papagaio não fazia senão rir. O rei convidou os meninos para um banquete e pediu que levassem o papagaio. Os meninos foram, mas ao passarem pela mulher que estava enterrada até á cinta não quizeram cuspir n’ella. O rei teimou, mas não conseguiu nada. Foram para a mesa; uma das irmãs da rainha é que trinchava, e tinha botado resalgar na sopa dos meninos. O papagaio avisou-os:

— Meninos, não comam que tem veneno.

O rei ficou desconfiado, e perguntou aos meninos porque não comiam; disseram elles:

— Falta aqui uma pessoa; é aquella mulher que está enterrada até á cinta no pateo do palacio.

Disse o papagaio:

— Mande-a o rei vir, porque ella é a mãe d’estes meninos.

O rei mandou vir a mulher; disse-lhe o papagaio:

— Sente-a agora ao seu lado; olhe que ella é sua mulher.

E contou como é que as cunhadas do rei tinham mandado botar ao rio em canastrinhas os tres meninos, e tinham posto em seu lugar os cães; e se se quizesse confirmar, que visse se os meninos tinham na testa as estrellinhas. Os meninos tiraram as carapucinhas, e o rei conheceu-os, e abraçou a sua mulher; e mandou que as cunhadas comessem a comida envenenada, e logo ali arrebentaram .

(Airão — Minho.)


Notas[editar]

39, 40. Rei Escuta. As cunhadas do Rei. — D'este conto publicou duas versões do Porto o sr. Leite de Vasconcellos, na Vanguarda, n.º 40 e 41. No Romanceiro do Archipelago da Madeira, vem a pag. 391 um largo conto em verso com o titulo Los incantamentos da grande fada Maria, de perto de quarenta paginas, um verdadeiro problema litterario, cuja genuinidade só se admitte pela espontanea improvisação que distingue os povos insulanos. Nos Contos populares do Brazil, do Dr. Sylvio Romero, vem sob o n.º II, com o titulo Os tres coroados. Este mesmo thema tradicional recebeu fórma litteraria nos Contos e Historias de Proveito e Exemplo, de Gonçalo Fernandes Trancoso, Parte II, n.º 7, que reproduzimos na secção competente. É extraordinaria a somma de paradigmas que apresenta este conto na tradição hespanhola, italiana, franceza, grega moderna, allemã, hungara, slava, avárica, etc. O Dr. Reinhold Köhler, nas notas dos Awarische Texte, ao n.º 12, A bella Issensulchar, traz uma enorme somma de paradigmas, e o prof. Stanislao Prato, nas Quatro Novelline populari, Rivornesi, Spoleto, 1880, annotando o conto das Le tre Ragazze, pag. 92 a 136, desenvolve extraordinariamente a área das comparações, de modo que o processo erudito está feito, sendo facil imbair os ingenuos. Aproveitaremos com franqueza as investigações d'esses mestres, com algumas resumidas ampliações.

No Folk-lore andaluz, n.º 8, p. 305, vem este conto com o titulo El agua amarilla, colligido por J. L. Ramirez. Nos Rondallayre, de Maspons y Labros, n.º 14 e 25; e nos Cuentos y Oraciones divinas, de Fernão Caballero, nº 6, p. 31, com o titulo El pajaro de la verdad. Ha tambem uma versão basca, colhida por Webster.

As versões italianas são abundantissimas; Stanislao Prato, nas Quatro Novelle popolari, tráz sete versões importantes para a critica comparativa (pag. 16 e 29 a 39). Ha uma versão livorneza nos Italienische Märchen, n.º 1, de H. Knust; outra em Gubernatis, Novelline di Santo Stefano de Calcinaja, n.º 15; Pittré, Fiabe, Novelle e Racconti, n.º 36, e a 3.ª variante; em Imbriani, Novellaja fiorentina, no app. ao n.º 6, e n.os 7 e 8; e nos Contos de Pomigliano, sob o titulo de Viola; Comparetti, Novelline popolari italiane, n.º 6, versão de Basilicata; outra de Pisa, n.º 30; em Laura Gonzenbach, Sicilianische Märchen, n.º 5; em Schneller, Märchen und Sagen aus Wälschtirol, n.º 23, 25, 26. As tradições populares d'este cyclo penetraram na litteratura italiana, como se vê no Pecorone, de Giovani Fiorentino, jornada X, novell. 1; em J. Baptista Basile, Pentamerone, jorn. III, trat. 2; Straparole, Piaccevoli Notti, fab. V, n.º 4; Molza, Novella, Poggi Bracciolini, Gozzi deram redacção litteraria a este conto, que tambem apresenta o caracter de lenda religiosa, na Representa­zione di Santa Uliva, e no Libro dei Miracoli della Madona, cap. X. Acha-se em novas collecções: Carolina Coranedi-Berti, Novelle popolari bolognesi, n.º 5; Arietti, Novelle popolari piemontesi, trez versões; e Visentini, Fiabe mantovane, n.º 46; Bernoni, Fabulas populares venezianas, n.os 2 e 15, e Reppone, La Posilecheata, n.º 3.)

Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 224, traz este mesmo conto em uma versão popular toscana das fontes do Tibre. A aversão das duas irmãs mais velhas é comparada com o facto analogo das que figuram no conto do Lear, e da Bella e da Fera.

As versões francezas, acham-se na Litteratura e na tradição oral simultaneamente; em M.me d'Aulnoy, é La Princesse Belle-Etoile et le Prince Cheri; em Millin, Conteur breton, intitula-se L'Oiseau de Verité; em Cosquin, Contes populaires lorrains, n.º 17, com importantes notas; Revista, Melusine, t. I, p. 206 a 213: Les trois filles du Boulanger, etc. Foram tambem vulgarisadas na traducção das Mil e uma noites, As duas irmãs invejosas, e na continuação de J. Scott, na Historia do sultão do Yemen e das suas tres filhas; Bladé, Trois Contes, p. 33.

O grupo occidental completa-se com as versões gregas, em Hahn, Griechische und Albanische Märchen, n.º 5, e n.º 69 (variante 1, e 2) e n.º 112; e nos Neohellenica Analecta, I, 1, n.º 4, e n.º 8; outra em K. Ewlampios.

Variante irlandeza, em Powel and Magnusson, Irelandie Legendes, t. II, p. 427.

As versões allemãs são numerosissimas: Grimm, Kinder und Hausmärchen, n.º 96; Prohle, Kinder und Volksmärchen, n.º 3; Wolf, Deutsche Hausmärchen; p. 168; Wernaleken, Oesterreichische Kinder und Hausmärchen, n.º 34; Peter, Legendas, Novellas, usos e superstições populares da Silesia austriaca, t. II, p. 199; Meier, Deutsche Märchen und Sagen, n.º 72; Fromman, Die deutsche Mundarten, IV, 263; Bechstein, Deutsche Märchenbuch, p. 250; Haltrich, Contos populares tedescos de Saxe de Transilvania, n.º 1; Curtze, Tradições populares do principado de Waldeck, n.º 15; Zingerle, Kinder und Hausmärchen, t. II, p. 112 e p. 157; Liebrecht, versão do Tyrol allemão no Annuario de Litteratura de Hidelberg, n.º 42, p. 187.

As versões slavas alargam o dominio da ficção: Natalia Nemcova, Novellas e contos populares slavos, vol. V, p. 52; Wenzig, Thesouro de Novellas dos Slavos occidentaes, p. 148; Glinski, Bajarz Polski, t. II, p. 46; Gaal e Stier, Contos populares hungaros, p. 390; Stephanovic, Contos servios, n.º 25 e 26; Köhler, no Iagic Archiv für Slavische Philologie, fasc. II, p. 626 e 627; Afanasieff, Novellas populares russianas, liv. VI, n.º 96; Miklosich, Contos dos Ciganos de Bukowina, n.º 1; Urbovec, Contos populares croatas, n.º 25; M.me Mijatovies, Popular Tales, p. 238; Schiefner, Avarisch Texte, n.º 12; e uma versão siameza no Asiatic Researches, t. XX, p. 348 (1836). Depois d'estas largas indicações apresentadas pelo Dr. Köhler ao n.º 12 da collecção de Schiefner, ao n.º 5 da collecção de Laura Gonzenbach, e aos n.os 25 e 26 da collecção de Stephanovic, accrescentou mais estas fontes utilisadas por Sr. Prato: Jecklin, Tradições populares do Cantão dos Grisões, p. 105; W. Webster, Basque Legends, p. 176; Bladé, Trois contes populaires, p. 33; Luiz Leger, Cantos heroicos, e canções populares dos Slavos da Bohemia: O Soldado; Asbjörnsen, e Moe, Contos norueguezes, o que se intitula: O rico mercador. Com as Notas de Köhler, de Cosquin, Ive, Teza e Prato sobre este conto ficou esgotada a área das investigações, sendo possivel organisar o seu encadeamento genealogico, e por elle remontar ao seu sentido mythico.

A Edade media sympathisou com esta lenda da substituição das crianças por animaes, como se vê na Historia do Cavalleiro do Cysne, Storia della Regina Stella, no Dolopathos, no velho theatro francez, Du Roi Thierry, e nas tradições dos Lohengrin (Grimm, Veillés allemandes, t. II, p. 342 a 378.) Evidentemente, quando mais vasta é a universalidade de um conto, tão mais profunda é a sua origem tradicional e pela investigação das fórmas mais simples se chegará ao seu valor mythico.