Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/As maas artes das molheres

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
146. As maas artes das molheres



146. AS MAAS ARTES DAS MOLHERES

Huum mancebo trabalhava muyto por saber a arte das molheres. E posse en sua vontade de casar, e ante que casasse demandou conselho ao mais sabedor homem d'aquella comarca hu vivia, como poderia guardar aquella molher com quem casar queria. E o sabedor lhe deu conselho que mandasse fazer huuma casa de muy altas paredes, e que pozesse dentro sua molher e lhe desse boo mantimento non sobejo. E que aquella casa nom tevesse mais de huuma porta e huuma freesta per que visse, en tal guisa que podesse sair nem entrar nenhuum. E o mancebo fez todo per aquella maneyra. E casou e pose dentro sua molher, e quando elle entrava ou saya, fechava elle muy bem a porta. E quando avia de dormir escondia as chaves, e a molher avia grande sabor en a freesta pera veer os que hyam ou viinham pela rua. E huum dia que o marido era hido fora, sobiusse ella en a freesta, e vio huum mancebo fremoso e pagousse d'elle, e mandou falar com elle, e depois que teve com elle formada sua maa preytasia, embevedava ameude seu marido, e depois que dormia, furtava-lhe as chaves e abria a porta e saya fazer sua vontade com aquelle mancebo. E porque o marido era ensinado sobre as artes das molheres parou mentes como sua lhe dava muyto a bever. E huum dia beveo mais que soya atiinte perante a molher pera veer o que fazia. E ella levantouse aa mea noyte e furtoulhe as chaves assy como avia en costume e abrio a porta e sayo a o mancebo; e o marido que jazia espreitando levantouse e çarrou a porta muy bem. E possesse en a freesta ataa que vio que sua molher que se tornava em camisa, pera casa, e começou a puxar a porta; e o marido mostrando que nom sabia que era, perguntou quem estava aa porta? E ella pidyo-lhe perdom, dizendo: que nunca mais sayria fóra; mas elle nom lhe quis abrir, dizendo, que elle diria aquelle feito a seus parentes. E ella começou de gemer, dizendo que se lhe nom abrisse, que sse lançaria en huum poço que hi estava, e que elle daria conta della a seus parentes. Mas o marido nom a leixou porem entrar. E ella tomou huuma grande pedra e lançoua em o poço con esta entençom que seu marido ouviria o soõ da pedra quando caysse na agoa, e cuydaria que ella se lançara en o poço.

E tanto que ella lançou a pedra en o poço, escondeose de traz o poço. E o marido pensando que a molher jazia en o poço, saio fora da casa pera veer o poço. E ella quando vyo a porta aberta meteuse en a casa, e çarrou a porta sobre ssy. E sobyose en a freesta, e elle que a vyo estar, diselhe:

— Oo molher chea de maa arte e enganosa, leixame entrar e eu te perdoarey quanto fezeste.

E ella lhe disse que o nõ faria, mas que diria a seus parentes que elle todallas noctes assy saya a fazer seu pecado con as maas molheres, e assy o fez. E elles doestarõ muyto mal o marido. E per esta guisa tornou o seu maao fecto sobre seu marido. E nom lhe aproveitou nada a guarda que pose en ella.

(Fl. 137.)