Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O diabo escudeiro

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
145. O diabo escudeiro
Vid. também o mesmo conto na Cantiga 67 das Cantigas de Santa Maria.


145. O DIABOO ESCUDEYRO

Em huuma terra avia huum cavalleyro que era homem boo e sua molher outrossy. Este cavaleyro por amor de deus e da gloriosa sua madre, mandou fazer spiritaaes e casas pera pobres e despendia en esto o que avia. E avia huum filho, e quando ouve de morrer, chamouo e recõmendoulhe os spiritaaes que fezera, e o escodeyro ficou com sua madre depois da morte de seu padre, e já quanto per vergonça de sua madre curava do que lhe seu padre encommendara; mas depois da morte de sua madre, começou elle a fazer maa vida e nom curava de semelhar seu padre, mas despendia em vaydade o que lhe seu padre e sua madre leyxarom.

Huum dia este escudeyro estando em sua casa veo a elle huum mancebo e disselhe que querya viver com elle e que o serviria muy bem, ca era homem fidalgo, e que sabia fazer todallas cousas que compriam a boo servidor. E o escudeyro recebeo em sua companhia e hia com elle muy a meude aa caça e tam bem sabia caçar que o escodeyro andava caçando com elle todo o dia ataa nocte per logares perigosos e fragosos. Em aquella terra avia huum bispo de boa vida que fora muito amigo d'aquelle cavaleyro, e de sua molher. E huum dia dizendo elle missa pelas almas delles foy-lhe demostrado per deus que aquelle servidor do escodeyro era diaboo. Entom o bispo foy veer o escudeyro e comeo com elle e o mancebo servia ante elles. E depois que comerom, perguntoulhe o bispo donde ouvera tal servidor. E o escudeyro gaboulho muyto. Entom o bispo mandou chamar o servidor, e elle nom querya vir ante elle. E o bispo mandou chamar outra vez mas elle fingeose doente. Entom o bispo lhe mandou que veesse per obediencia, e elle veo contra sua vontade. E o bispo lhe perguntou:

— Dy-me que homem es tu?

E elle respondeu:

— Soo diaboo.

E disselhe o bispo:

— A que veeste?

E elle respondeu:

— Viim pera matar este escudeyro, porque he maao homem e desviado da bondade de seu padre, e nom curou dos conselhos boos que elle deu.

E disselhe o bispo:

— Pois porque o nom mataste?

Respondeu o diaboo:

— Porque avia em custume de dizer cada dia sete vezes avemaria, e porem andava eu com elle pelos montes e pelos luguares fragosos pera o matar se algum dia leixara de dizer aquellas sete avemarias, mas nunca foy dia que as nom dissesse.

E o bispo lhe perguntou donde houvera o corpo que trazia, e elle lhe disse que era o corpo de huum enforcado. Entom o bispo mandou-lhe que se fosse dally e que nom empeeçesse a nenhuum. E logo se partyo d'aly e ficou aly o corpo que trazia morto e fedorento. Quando esto vio o escudeyro mudou sua vida em bem segundo lhe conselhou o bispo.

(Fl. 124.)





Notas[editar]

145. O Diabo escudeiro. — Acha-se tambem nas Cantigas de Santa Maria, por D. Alfonso el Sabio, cap. VII, n.º LXVII.