Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/D'aquellas sete ao dia

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gonçalo Fernandes Trancoso
152. D’aquellas sete ao dia



152. D’AQUELLAS SETE AO DIA

Uma virtuosa dona de boa vida tinha uma filha de tão má inclinação que não queria tomar os nobres conselhos da mãe, nem aprendia seus louvados costumes; mas em tudo seguia seu proprio parecer sem obediencia de pessoa alguma, nem correição de visinha nem parenta, porque era preguiçosa, golosa, andeja, muito falladeira e de outras feias manhas. A mãe, como mãe, desejosa de seu bem e de lhe dar marido, determinou dar a um mancebo tudo o que a pobre velha tinha por que casasse com a filha. E concertada com elle no dote, quiz o mancebo que não dessem conta á moça até que elle a fosse vêr o dia seguinte, seguindo o conselho do rifão que diz: Antes que cases olha o que fazes. Foi a velha contente e disse que assi faria; porém, por que a filha estivesse sobre-aviso e não caisse em alguma fraqueza a tal tempo, crendo que para casar tomaria seu conselho, lhe descobriu aquella noite tudo o que se passava, dizendo-lhe:

— Filha, toda tua vida seguiste tua opinião, sem querer entender meus conselhos; agora te rogo que este dia me ouças e acceites o que te disser.

E com discretas palavras lhe amoestou que o dia seguinte não se erguesse de um logar; que sempre estivesse calada fiando, ou ao menos com a roca na cinta, por que pois o futuro marido a queria vêr a achasse quieta e occupada. E para mais ajuda fiou a velha aquelle serão quasi até meia noite, e pela manhã pôz-lhe á filha uma grande roca na cinta, e deixou-lhe as maçarocas que fiára no regaço; fel-a assentar, tal que á vista dos olhos a quem a não conhecera parecia uma diligente fiandeira. Porém como aquelle não era seu costume, tanto que a mãe deceu á porta, (por que avia de esperar ali o mancebo) a moça deixou a roca, e com diligencia fez lume, e nelle uma honesta tigellada de papas, e porque se esfriassem prestes as lançou em cinco ou seis escudellas, que logo chegou de redor de si, e soprando e fervendo estava a pobre moça apressada por acabar sua obra antes de ser sentida. A este tempo chegou o mancebo á porta, e ainda que o viu a velha e elle a ella, pelo que tinham concertado não fallaram, mas elle subiu de manso por vêr em que se occupava a que elle queria receber por molher. E a velha o deixou ir, tendo pera si acharia a filha ao menos com a roca na cinta como a deixara; mas ainda que elle subiu dez ou doze degráos da escada, ella de occupada não o sentiu, nem, posto que metteu a cabeça em casa o não viu; mas ella foi d’elle muito bem vista, e notando o officio em que estava disse entre si:

— Nunca nós faremos boa matalotagem; porque quem tanto e com tal pressa madruga a comer, pouca prol me póde fazer. Não é esta a que me arma.

E sem fallar se deceu; e a velha vendoo vir tam prestes, lhe preguntou:

— Que vos parece, filho? Que cuidado de moça!

E querendo-lh’a gabar, porque imaginava que estaria fiando, e mais com a roca cheia, lhe disse:

— Vistes a pressa que tinha, e a habilidade das suas mãos, e o que já tinha despachado; pois eu vos prometto que d’aquellas enche e vasa sete no dia.

Querendo a velha dizer as rocadas da roca; mas o mancebo sem descobrir o que lhe vira fazer, respondeu:

— Senhora, não me arma; que se ella é tal, não na posso sustentar, e assim estê-se em vossa casa, e se as vasar e encher tantas vezes, sejam embora de vossa farinha.

E foi-se.

Trancoso, Contos e Historias de Proveito e Exemplo, P. I, conto 2.º)


Notas[editar]

152. D'quellas sete ao dia. — Este conto apparece ainda na tradição popular do Minho; nos Contos populares portuguezes, n.º LIII, traz o titulo Os Simplorios.